Sanches Cardas, de 68 anos, admitiu esta quinta-feira, no Tribunal de Beja, que foi o autor do homicídio do próprio filho, ocorrido há quase um ano no concelho de Moura, e tentou afastar responsabilidades de outro filho, igualmente arguido. Perante o coletivo, o sexagenário afirmou: "Quem mata o próprio filho não devia ser preso, devia ser enforcado", embora, noutro momento do depoimento, tenha sustentado que "quem diz a verdade não merece castigo".
Julgamento de Sanches Cardas e Orlando Cardas no Tribunal de Beja
No processo, Sanches Cardas está a ser julgado juntamente com o filho Orlando Cardas. Ambos respondem por homicídio qualificado agravado e por detenção de arma proibida. No caso de Orlando Cardas, acrescem ainda as acusações de ofensa à integridade física qualificada e de ameaça agravada.
O crime na Amareleja: discussão por um cavalo e disparo fatal
Em causa está a morte de António Cardas, de 40 anos, ocorrida a 10 de junho de 2025, na Amareleja. Segundo o que foi descrito em tribunal, o episódio aconteceu após uma discussão entre António e Orlando Cardas, relacionada com um negócio de um cavalo. Nessa sequência, o pai dos dois terá ido buscar uma espingarda de caça e efetuado um disparo contra António, causando-lhe a morte.
Já perante o coletivo, Sanches Cardas insistiu que o sucedido foi "um acidente", atribuindo-o ao facto de se encontrar embriagado. Recorrendo a um gesto, procurou explicar que recebeu um toque do filho e que "e, como tinha o dedo no gatilho, disparou".
Interrogado sobre a gravidade dos factos e sobre ter abandonado o acampamento, justificou-se dizendo que, "como estava alcoolizado, não tinha noção do que aconteceu". Voltou a repetir: "Quem diz a verdade não merece castigo", ao que uma das magistradas que integra o coletivo contrapôs que "quem diz a verdade merece castigo".
Testemunha desmente arguido
Orlando Cardas, o segundo arguido, chorou antes e durante o depoimento e negou ter entregue ao pai a arma usada no crime, bem como ter dado ordem para disparar ou ter ameaçado outros familiares. "Nunca, nunca, nunca", insistiu.
Orlando Cardas declarou ainda que não se encontrava no local no momento do homicídio e que permaneceu no acampamento durante um mês, saindo apenas mais tarde por causa de doença do filho. Contudo, esta versão foi contrariada pelo irmão, ouvido como testemunha, que afirmou precisamente o oposto.
Após o depoimento de Orlando Cardas, Sanches Cardas dirigiu-se-lhe com a frase "És doido". Chamado à atenção pelo magistrado, respondeu: "Com os medicamentos que toma, é doido". Foi então advertido de que, caso mantivesse uma atitude agressiva, seria expulso da sala.
Em prisão preventiva
No dia 10 de junho de 2025, após o crime, pai e filho colocaram-se em fuga. Dois dias depois, a Polícia Judiciária (PJ) deteve Sanches Cardas em Póvoa de São Miguel, localidade situada a pouco mais de 10 quilómetros da Amareleja, escondido num abrigo improvisado entre fardos de palha.
Orlando Cardas foi encontrado e detido a 8 de agosto, em Reguengos de Monsaraz, onde se terá ocultado, passando a noite junto à linha de caminho de ferro, na Rua dos Celeiros.
Ambos permanecem em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Beja.
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