Um residente de um lar de idosos recebe uma zaragatoa no nariz e outra junto ao reto. Durante muito tempo, estes dois pontos foram usados como substituto do corpo inteiro quando as equipas procuram bactérias resistentes a antibióticos, com a ideia de que, se houver micróbios perigosos escondidos, é aí que se instalam.
Desta vez, os investigadores voltaram-se para a pele: recolheram amostras nas axilas e na virilha e analisaram-nas até ao nível do ADN. O resultado revelou um grupo muito maior de bactérias resistentes do que aquele que as verificações habituais alguma vez tinham detetado.
O que as culturas não detetaram
Uma equipa colheu amostras a 38 residentes em 15 lares de idosos na Califórnia, avaliando cada amostra através de três métodos distintos. O autor principal do estudo foi Yaovi M. G. Hounmanou, Ph.D., do National Human Genome Research Institute (NHGRI), nos National Institutes of Health.
O método laboratorial clássico - fazer crescer bactérias em placas - assinalou organismos resistentes em cerca de um em cada quatro residentes. Sete desses residentes tinham MRSA, a “superbactéria” hospitalar que muitos leitores reconhecerão. Outros quatro transportavam uma estirpe de E. coli que não cede a antibióticos comuns.
Estas placas, porém, apenas mostram o que consegue crescer nelas. Por isso, a equipa leu o material genético de todos os micróbios presentes em cada amostra, cartografando todo o microbioma cutâneo. A imagem completa era muito diferente da primeira.
Uma estirpe escondida
A análise por ADN encontrou uma estirpe de E. coli na pele de 27 dos 38 residentes, aproximadamente 70%. O cultivo padrão quase não a tinha apanhado.
A explicação estava na forma como as placas de laboratório são concebidas. Elas são feitas para detetar um marcador específico de resistência.
Esta estirpe não apresentava esse marcador, o que provavelmente explica porque não cresceu nas placas. Ainda assim, transportava um conjunto amplo de outros genes de resistência - suficiente para resistir a vários fármacos diferentes.
Um estudo anterior já tinha mostrado que a pele dos residentes pode albergar micróbios perigosos. O que ainda não tinha sido quantificado era o quanto o rastreio padrão deixa escapar. Uma estirpe comum, “armada” com resistência a fármacos, estava a espalhar-se abaixo do radar do teste habitual.
A sobreviver ao banho
É razoável supor que uma boa lavagem remove as bactérias da pele. Para testar essa ideia, a equipa planeou as colheitas para ocorrerem 12 a 48 horas depois de os residentes tomarem banho.
O banho teve pouco impacto. Metade dos portadores continuou a testar positivo para a mesma E. coli após um banho documentado. Um residente manteve-a tanto na axila como na virilha 12 e 24 horas mais tarde.
Essa persistência muda a forma de olhar para a pele. Não é apenas uma superfície que se suja por momentos e depois fica limpa; é um habitat estável onde bactérias resistentes vivem e se multiplicam - perto de feridas ou de tubos/dispositivos médicos, onde podem causar infeções reais.
Dispersão entre instituições
Quando a mesma estirpe aparece em várias pessoas, isso sugere circulação. Aqui, a E. coli dominante era quase geneticamente idêntica em 27 residentes de nove lares diferentes - uma estirpe, nove moradas.
Correspondências tão próximas raramente acontecem por acaso. Indicam bactérias a passar de pessoa para pessoa - ou uma fonte comum a abastecer vários lares ao mesmo tempo.
Os residentes deslocam-se com frequência entre instituições e hospitais, levando estes “passageiros” ocultos consigo. Um estudo separado já acompanhou o mesmo padrão de propagação em lares de idosos norte-americanos.
Um segundo microrganismo mostrou um comportamento semelhante. Uma forma resistente a antibióticos de Staphylococcus epidermidis - uma bactéria da pele associada a infeções em torno de implantes e cateteres - foi encontrada em mais de um terço dos residentes.
Apresentava elevada semelhança dentro de cada lar e entre lares, escapando novamente à cultura de rotina.
Bactérias a moverem-se em conjunto
A partilha não se limitou a um único micróbio. Cinco pares de residentes transportavam estirpes coincidentes de duas ou mais espécies resistentes ao mesmo tempo. Micróbios diferentes, correspondências igualmente próximas.
Por exemplo, dois residentes de uma mesma instituição partilhavam uma E. coli quase idêntica e um Proteus mirabilis também quase idêntico, um micróbio associado ao intestino e a feridas. Tudo indica que comunidades inteiras de bactérias resistentes podem viajar juntas e até trocar genes de resistência entre si.
Este pormenor altera a forma como o risco deve ser gerido. Um controlo de infeção centrado num patógeno de cada vez pode falhar a rede mais ampla de micróbios que circula entre residentes. Se só se identificar o infrator mais óbvio, o resto do sistema permanece.
Fechar a lacuna na deteção
O estudo deixa uma mensagem clara: a zaragatoa padrão do nariz e do reto, interpretada por métodos laboratoriais mais antigos, subestima as bactérias resistentes a fármacos que vivem na pele dos residentes - e falha uma população grande, persistente e amplamente partilhada, que os testes de rotina nunca foram desenhados para encontrar.
Reduzir essa lacuna implicaria incluir locais cutâneos como axilas e virilhas nos rastreios regulares e combinar triagem baseada em ADN com as culturas tradicionais. Trata-se de uma abordagem alargada que outros investigadores já testaram.
Essa mudança também exigiria aceitar que um banho não “reinicia” a carga bacteriana e que lares de uma mesma região enfrentam um problema que nenhuma instituição consegue resolver isoladamente.
O peso do problema aumenta com a demografia. À medida que mais adultos idosos e frágeis passam a viver em cuidados de longa duração, identificar precocemente esta colonização silenciosa torna-se mais importante do que nunca.
A deteção precoce dá aos médicos melhores hipóteses de travar infeções resistentes antes de se instalarem e de se espalharem entre instituições.
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