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Eric Cantona fala ao JN sobre o documentário "Cantona"

Homem sentado numa sala com cadeiras vermelhas, bola de futebol antiga e imagem de jogador a chutar na parede.

O antigo internacional francês Eric Cantona, hoje com 60 anos e uma carreira consolidada como ator, falou ao JN sobre o novo documentário que revisita a sua vida. Trata-se de um filme fora do comum: não varre para debaixo do tapete as polémicas nem os períodos mais sombrios do percurso do ex-jogador do Manchester United.

"Cantona", o novo documentário dedicado ao lendário futebolista francês, percorre a sua trajetória sem contornar controvérsias. Atualmente dividido entre a pintura e o cinema, como ator, Cantona, de 60 anos, surge tal como se define: direto, destemido, inspirador e sem filtros. Em entrevista ao JN, garante que não se arrepende do pontapé de kung-fu desferido em 1995 contra um adepto que o insultou, admite que já não tem interesse no futebol e afirma adorar Portugal, onde tem casa com a mulher, a atriz francesa Rachida Brakni.

Está satisfeito com o documentário "Cantona"?

"Adoro, fizeram um filme maravilhoso. Quando vieram ter comigo, aceitei porque queriam fazer algo especial. E tive razão em confiar - o filme é melhor do que esperava. E não é só sobre futebol, é sobre um ser humano a tentar compreender-se a si próprio."

Para si, era essencial incluir os seus períodos mais negros?

"Sinto essas contradições todos os dias, como todos nós, acho eu. Tento ser o mais livre possível. Sim, é isso que torna este documentário especial."

O que sentiu ao ver o filme numa sala cheia, aqui em Cannes?

"Senti muita emoção na sala, senti que as pessoas gostaram muito. Talvez porque encontraram algo na própria história delas que lhes trouxe recordações. Talvez uma relação com um namorado ou namorada, ou com os pais, ou amigos. É isso que eu adoro."

Considera que foi preciso coragem para fazer este filme?

"Eu aceito-me assim, porque sinto muita excitação nesta vida. Adoro ser assim como sou."

Há algo de que se arrependa?

"Todas as coisas, boas e más, ajudaram-me a chegar onde estou. E estou muito feliz. Por ter projetos, por me expressar através de diferentes formas de arte. Por conhecer pessoas maravilhosas, realizadores, atores, artistas. Observo o mundo e as pessoas. Vivo num mundo louco, mas tento usá-lo para construir o meu próprio mundo, através da minha imaginação. E para estar neste tipo de mundo, precisamos de ser o mais livres possível."

O que o levou a dar o célebre pontapé de kung-fu ao adepto do Crystal Palace, em 1995?

"Ouvi milhares de insultos e nunca reagi. E talvez naquele dia estivesse mais frágil, ou mais forte. Não sei. Gostava de o ter pontapeado ainda mais. Isso é certo. Não sei o que o Zidane ouviu quando deu aquela cabeçada [ao jogador italiano Marco Materazzi] na final do Mundial de 2006. Mas eu sei o que ouvi."

Porque é que decidiu tornar-se ator?

"Para me poder expressar. Aprendo mais através das coisas que expresso, compreendo-me melhor. Veja, como ator, conheço melhor a personagem do que a mim próprio. Ponho um pouco de mim na personagem. Mas se me perguntar sobre a personagem, digo-lhe tudo sobre ela. Sobre mim? Não sei. Mas adoro esse mundo desconhecido."

Alguma vez fez psicanálise?

"Frequentei um psicólogo, foi quando tinha 20 anos. Adoro esse mundo. Dizia coisas como "as gaivotas", algo que não queria dizer nada. E ele ajudava-me a perceber porque dizia isso. Eu ia vê-lo e dizia-lhe coisas assim, automaticamente. Eu adoro poesia automática. Adoro o Jim Morrison."

Acredita que seria o mesmo tipo de jogador no futebol atual?

"Acho que hoje marcaria 120 golos por época. Por causa das novas regras. Veja um jogo nosso contra o Wimbledon, com o Vinnie Jones. Ao fim de 15 minutos, ele merecia dois ou três cartões vermelhos. E não levou nenhum. Quase me partiu a perna. Nada. Nem sequer amarelo."

Ainda mantém gosto pelo futebol?

"Não, não me interessa o mundo do futebol. Há um homem à frente da FIFA que está a fazer jogos com o Trump. Acha que gosto dele? O futebol é um desporto popular, jogado por pessoas de bairros pobres, da classe trabalhadora em todo o mundo. Essas pessoas já não podem ir aos jogos."

Deixou de jogar aos 30 anos. Porquê essa decisão?

"Quando jogava tinha essa chama de que falo no filme. Adorava futebol. Disse que jogaria até sentir essa chama e que quando a perdesse retirava-me. Não acreditaram. Mas fi-lo."

Existe algum jogador que se aproxime do seu estilo?

"Alguma vez viu um jogador que fosse como eu?"

Quem teve maior importância para si no futebol?

"Tive muita sorte em encontrar o Ferguson. Ele compreendeu a minha personalidade a 100%. Ajudou-me a expressar-me. Ensinou-nos que somos todos diferentes, mas todos servimos o mesmo propósito. Isso é fantástico."

Tenciona acompanhar este Mundial?

"Acho que não. Não mais do que nos últimos 30 anos, desde que me retirei. Já não me interessa o futebol. Não me interessa porque foi como uma droga, sabe? Não quero ser prisioneiro desse passado. Quero novos projetos, coisas novas, olhar em frente."

Continua a visitar Portugal?

"Adoro Portugal! É por isso que temos casa em Grândola. Sabemos bem o que significa aquela terra."


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