O chumbo do pacote laboral acabou por dominar, este sábado, o 43.º Congresso do PSD, em Anadia. O presidente do partido e vários sociais-democratas apontaram a atuação do PS e do Chega, acusando-os de travarem a ação do Governo com "politiquices" e ao ritmo do "TikTok". Neste primeiro dia da reunião magna, os ministros fecharam filas em torno do líder, reforçaram a ideia de estabilidade e sublinharam o trabalho desenvolvido pelo Executivo ao longo dos últimos dois anos.
Sem referir pelo nome a reforma laboral rejeitada anteontem no Parlamento pelo Chega e pela Esquerda, nem Pedro Passos Coelho - o antigo líder que tem sido crítico da ação governativa -, a mensagem ficou, ainda assim, explícita. Em quase meia hora, Luís Montenegro, presidente do PSD e primeiro-ministro, dirigiu-se à Oposição sem poupar críticas. "São tantos os que reclamam que mude tudo, mas verdadeiramente desejam que tudo fique na mesma. Como ainda ontem se viu com especial nitidez, as oposições vibram com a politiquice e destratam a mudança. Falta-lhes a coragem, falta-lhes a firmeza e o sentido de responsabilidade", afirmou, acusando os dois principais partidos da Oposição de se unirem mais vezes para travar o Governo do que para ajudar a "cumprir o programa que o povo escolheu".
Galvanizar o partido
No discurso, Montenegro procurou mobilizar o PSD, lembrando que os portugueses voltaram a reconduzir o partido nas últimas legislativas e que os sociais-democratas lideram os governos regionais e a maioria das câmaras municipais. E sustentou que, nas eleições, o povo atribuiu à Oposição "igual nível de responsabilidade" para "dialogar e colaborar".
Ainda assim, disse, o caminho seguido tem sido outro. "Vamos assistindo à afirmação de uma tendência, em particular do PS", cujo "pano de fundo" é a indisponibilidade para viabilizar medidas do Governo, defendeu. Na leitura do primeiro-ministro, os socialistas procuram "obrigar a AD e o Governo a negociar exclusivamente com o Chega", de forma a poderem dizer que "estão juntos e nós somos a alternativa". "É uma estratégia política manhosa".
Quanto ao partido de André Ventura, sem o identificar diretamente, considerou que tem adotado uma postura que "se inspira na agitação permanente, na irresponsabilidade, quando não, muitas vezes, na imaturidade".
Para o líder do PSD, "não é preciso grande coragem" para inviabilizar soluções ou "ser teleguiado por comentadores-mentores ou pelas tendências das redes sociais". "Mas para ousar, mudar, para convergir, para negociar, para saber ceder, para isso é preciso ter verdadeira coragem".
Espírito reformista
Apesar do desfecho negativo do pacote laboral, Montenegro - que se declarou contra o "ruído" e o "ressentimento" - assegurou que o "reformismo está a acontecer". "Portugal não está igual e não vai ser o mesmo que encontramos há dois anos. Estamos mesmo a trabalhar para fazer Portugal maior, mais moderno, arejado, arrojado, credível e atrativo", descreveu, numa alusão evidente a Passos Coelho, ausente do conclave.
Ao longo do dia, vários ministros foram subindo ao palco para reforçar a linha do líder social-democrata e concentrar as críticas no mesmo alvo. Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, afirmou existir no país uma aliança "chego-socialista", que combina o "radicalismo cândido" do PS com os "truques" e "fintas" de André Ventura.
Mesmo não sendo militante do PSD, a ministra do Trabalho, Rosário Palma Ramalho, também discursou. Acusou o Chega de votar ao sabor "das tendências do TikTok" e garantiu que o Governo voltará a insistir na reforma, sustentando que o chumbo representou uma "oportunidade perdida" para o país e que os portugueses devem tirar daí conclusões.
Já o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, disse à TSF que a unidade do Executivo está "absolutamente garantida" e afastou a hipótese de eleições antecipadas. No mesmo sentido, o secretário-geral do partido, Hugo Soares, recusou um cenário de instabilidade e assegurou que o PSD vai responsabilizar a Oposição.
À margem
Advertências às "estrelas"
A gestão do tempo revelou-se particularmente exigente para o presidente da mesa do congresso, Miguel Albuquerque, atendendo aos 78 inscritos, às 18 moções e aos discursos dos ministros. A ultrapassagem do limite de intervenção valeu uma advertência ao eurodeputado Sebastião Bugalho: "já passou o seu tempo, aqui não há estrelas", avisou o presidente madeirense.
Palco para os eurodeputados
No exterior do velódromo, os eurodeputados dinamizaram um painel informal, no qual Lídia Pereira, Sebastião Bugalho e Paulo Cunha esclareceram os militantes sobre temas da União Europeia. Este ano, o PSD assinala 30 anos de integração no Partido Popular Europeu e 40 da adesão de Portugal à UE.
Ritmo acelerado dos ministros
Vários governantes insistiram que mantêm o ritmo de trabalho. O ministro da Administração Interna, Luís Neves, referiu estar a intervir nos problemas rodoviários, um "drama" para muitos. Maria da Graça Carvalho, responsável pelo Ambiente e Energia, explicou que estão a avançar projetos, como barragens ou dessalinizadoras, entre outros. "Não contem comigo para adiar ou parar obras", sublinhou.
Órgãos nacionais
Bugalho porta-voz
Além de vice-presidente da Comissão Política Nacional, Sebastião Bugalho será também porta-voz do partido. Entre os vice-presidentes estão os autarcas do Porto e de Lisboa. Leonor Beleza continua como primeira vice-presidente. Os órgãos são eleitos hoje.
Albuquerque sai
Miguel Albuquerque, presidente do Governo Regional da Madeira, não vai continuar na presidência da Mesa do Congresso, função que desempenha desde o início da liderança de Luís Montenegro.
Moções aprovadas
A moção de estratégia global apresentada por Luís Montenegro foi aprovada por unanimidade, tal como as 18 propostas temáticas.
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