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Apicultura urbana pode pressionar abelhas selvagens, diz novo estudo

Abelha e um inseto sobre uma flor roxa com colmeias e tablet ao fundo numa área urbana.

A apicultura urbana pode aumentar a pressão sobre as abelhas selvagens quando as colónias de abelhas‑do‑mel crescem mais depressa do que as flores disponíveis, o espaço e os controlos sanitários, de acordo com um novo estudo.

O que muitas vezes é visto como um gesto de cuidado com a natureza passa, assim, a exigir planeamento - com custos ecológicos concretos se a instalação de colmeias não tiver em conta os limites da cidade.

Registos revelam a pressão

Os registos de colmeias em meio urbano mostram que a pressão tem vindo a intensificar‑se em várias cidades, à medida que as colónias geridas de abelhas‑do‑mel se multiplicam rapidamente.

Ao cruzar esses dados com riscos para as abelhas selvagens, Monika Egerer, da Universidade Técnica de Munique (TUM), mostrou por que motivo cada nova colmeia aumenta a procura no mesmo espaço já disputado.

Berlim ilustra bem essa aceleração: as colmeias registadas passaram de menos de 2,500 em 2005 para mais de 7,500 em 2022.

Os números, por si só, não demonstram um impacto directo, mas ajudam a perceber por que razão a apicultura urbana precisa hoje de regras - além do entusiasmo.

As abelhas selvagens recuperam lentamente

Apesar de visitarem, por vezes, as mesmas flores, abelhas‑do‑mel e abelhas selvagens não utilizam a cidade da mesma forma.

“Em contraste com as abelhas‑do‑mel, as abelhas selvagens especializam‑se muitas vezes em determinadas plantas e habitats”, afirmou Egerer.

Como a maioria das abelhas selvagens vive de forma solitária, basta uma fêmea doente ou sem alimento para interromper a geração seguinte daquele ninho.

Essa capacidade de recuperação lenta torna as quebras de recursos mais perigosas: uma época fraca pode deixar menos adultos para repor a população no ano seguinte.

As flores definem o limite

Em áreas urbanas, é possível sustentar muitos polinizadores quando jardins e parques garantem florações regulares.

Para as abelhas, os recursos florais - o néctar e o pólen usados como alimento - determinam se a cidade é abundante ou, pelo contrário, já foi “varrida”.

A capacidade de suporte, isto é, o número de abelhas que um território consegue manter, varia com as estações, a seca, as opções de plantação e a impermeabilização do solo.

Introduzir colmeias sem avaliar esse limite pode transformar os espaços verdes públicos num “quem chega primeiro, come primeiro”.

O calor aumenta a procura

As colmeias em telhados podem agravar a competição, porque caixas expostas aquecem frequentemente mais do que colmeias colocadas à sombra, junto de vegetação.

Em stress térmico, as operárias gastam mais energia a arrefecer a colónia, aumentando a necessidade de néctar e de água.

Estudos sobre temperatura mostram ainda que a colheita de mel e alterações no favo podem perturbar o equilíbrio térmico, obrigando as abelhas a consumir energia para o restaurar.

Uma má localização pode, por isso, prejudicar primeiro as próprias abelhas‑do‑mel e, em seguida, intensificar a pressão sobre as abelhas selvagens que procuram as mesmas flores.

A sobrelotação altera as hipóteses de sobrevivência

Um estudo em Montreal observou que a diversidade de espécies de abelhas selvagens diminuiu à medida que a abundância de abelhas‑do‑mel aumentou em espaços verdes urbanos, após um grande crescimento do número de colmeias.

Os investigadores compararam as comunidades de abelhas de 2020 com levantamentos anteriores e analisaram, em paralelo, a disponibilidade de pólen nos mesmos locais da cidade.

As abelhas selvagens de menor dimensão pareceram particularmente em risco, já que o seu raio de forrageamento mais curto oferece menos alternativas quando faltam flores.

Esse padrão não permite concluir que cada colmeia tenha causado cada declínio, mas é coerente com a preocupação de pressão alimentar descrita no novo enquadramento.

As doenças podem circular

A partilha de recursos não é o único risco quando abelhas‑do‑mel geridas forrageiam lado a lado com abelhas selvagens.

O transbordo de doenças - a transmissão de infecções entre espécies - pode ocorrer quando os insectos visitam as mesmas flores ou nidificam nas proximidades.

Dados de campo já associaram vírus das abelhas‑do‑mel a infecções em abelhões, sugerindo como uma colónia gerida pode tornar‑se fonte de doença.

Quando muitas colónias se concentram num só espaço - situação conhecida como elevada densidade de colmeias - os controlos sanitários tornam‑se ainda mais urgentes para apicultores e equipas de conservação.

As regras exigem cooperação

Para equilibrar benefícios e danos, a equipa da TUM propôs um plano para abelhas geridas e abelhas selvagens, designado Conceito das Abelhas Urbanas, que reúne seis medidas essenciais.

Entre as linhas de acção estão a promoção de flores mais nutritivas, a redução da densidade de colmeias, um controlo mais eficaz de doenças, formação e limites para locais demasiado quentes ou poluídos.

“É crucial trabalhar em conjunto aqui, com investigadores, conservacionistas, governação e apicultores”, disse Joan Casanelles Abella, investigador de pós‑doutoramento na TUM.

Normas partilhadas são importantes porque os apicultores urbanos vão desde amadores com uma colmeia até empresas que gerem muitas colónias.

Ferramentas de mapeamento orientam melhores decisões

Uma boa política começa por identificar onde se sobrepõem colmeias, ilhas de calor, oferta floral e habitats sensíveis para abelhas selvagens.

Ferramentas de mapeamento podem destacar telhados sobreaquecidos, zonas com pouca cobertura verde e bairros onde as colónias existentes já disputam intensamente as fontes de alimento.

Como a capacidade de suporte oscila ao longo do ano, as cidades precisam de avaliações repetidas, e não de um número fixo de colmeias para sempre.

Mapas mais robustos também ajudam a salvaguardar áreas destinadas à conservação de abelhas selvagens, ao mesmo tempo que permitem apicultura cuidadosa noutros locais.

Melhorar práticas e códigos de conduta

A formação pode diminuir impactos quando os apicultores aprendem a reconhecer sinais de doença, a escolher locais seguros para as colmeias e a plantar flores que sustentem uma grande diversidade de abelhas.

As associações podem difundir essas práticas por meio de cursos e códigos de conduta, convertendo decisões individuais em expectativas colectivas.

Empresas de apicultura empresarial e chave‑na‑mão - negócios que instalam ou fazem a manutenção de colmeias para clientes - poderão necessitar de supervisão adicional.

Sem registo e comunicação, as autarquias não conseguem saber onde estão as colónias nem se a oferta local de flores é suficiente para as sustentar.

Ainda assim, a apicultura urbana pode continuar a apoiar a educação, a cultura alimentar local e a valorização dos insectos, desde que o número de colmeias acompanhe a disponibilidade de flores e os cuidados de saúde.

Proteger as abelhas selvagens passa agora por reduzir suposições e aumentar a evidência, porque as boas intenções não criam néctar nem travam vírus.

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