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Europe e The Waterboys na Maia: contraste entre rock star e misticismo

Concerto ao ar livre com dois músicos a tocar guitarra, público animado e bandeira de Portugal ao fundo.

Europe na Maia: entrada em palco com ecrãs gigantes

Os suecos dos Europe surgiram em palco com o cabelo a esvoaçar, Joey Tempest a assumir a pose de rock star, tripé de microfone na mão e o apoio de ecrãs gigantes. Começaram com "On Broken Wings" e, assim que a voz de Tempest se fez notar, chegou a saudação habitual: "Boa noite, Porto, como estão?". E como se comporta uma velha rock star? Exatamente com os mesmos tiques de diva de sempre.

Por todo o recinto lia-se: "Sorria está na Maia". Ainda assim, as estrelas faziam questão de insistir no "Boa Noite Porto" - e Joey Tempest até se aplicou a debitar todos os palavrões.

The Waterboys antes dos Europe: chapéus, floreados e queixas

Antes da entrada em força dos Europe, passaram os The Waterboys, de chapéu de cowboy, com Mike Scott a destoar (de propósito) nuns vistosos calções vermelhos, sem câmaras nem ecrãs gigantes. A atuação não convenceu toda a gente. "Tocaram só para eles", reclamava uma mulher no meio do público. "Houve guitarras tocadas de costas, pianinho e muitos floreados, mas nem sequer tocaram "The Whole of the Moon"". Ainda assim, abriram com outro dos seus êxitos, " Fisherman´s Blues".

Como se isso não bastasse para aumentar a impaciência, seguiram-se 45 minutos de espera até os Europe finalmente aparecerem.

Do arranque explosivo ao refrão que todos queriam

Quando os Europe entraram, foi sem rodeios. "Scream of Anger" chegou com grande impacto, e "Sign of the Times" manteve o embalo. Em "Our Last Goodbye", Joey Tempest puxou pelo público em português - "Cantem comigo" - e pouco depois a plateia já pedia em coro por "Carrie". A resposta transformou-se numa pequena loucura coletiva, mesmo que, por vezes, a sonoridade soe bastante datada.

"More Than Meets the Eye", de 1988, segurou a intensidade, e "Superstitious" fez da frente do palco um coro de groupies, com toda a gente a cantar palavra por palavra. E, como era inevitável, "The Final Countdown" ficou guardada para o fecho: mal se ouviram os primeiros acordes, deixou de haver alguém parado. A sala inteira saltava, a celebrar aquele momento em que uma banda sabe perfeitamente qual é a canção que todos estavam à espera de escutar.

Espécies distintas

O contraste entre os Europe e os The Waterboys notou-se tanto no palco como no temperamento dos seus líderes. De um lado, Joey Tempest: sueco de Estocolmo, nascido em 1963, sobrevivente das permanentes capilares e fiel à pose clássica de rock star. Do outro, Mike Scott: escocês nascido em 1958, poeta, místico e capaz de converter um concerto numa espécie de retiro espiritual acompanhado por guitarra e piano.

Tempest apresentou-se como se os anos 80 nunca tivessem terminado: cabelo ao vento, microfone na mão e um repertório de poses que faria corar uma capa da "Bravo". Scott, pelo contrário, dava a ideia de ser alguém que, por passatempo, resolveu criar uma banda. Enquanto o sueco continua a acreditar que qualquer aflição humana se resolve com um refrão cantado em uníssono, o escocês prefere demorar-se numa reflexão sobre a alma, a natureza e, ao que parece, concertos em que "The Whole of the Moon" é opcional.

Tempest vive para o espetáculo e para a contagem decrescente final; Scott parece habitar uma realidade paralela em que tocar de costas para o público é um gesto artístico. Joey comporta-se como se estivesse sempre a segundos de filmar um videoclipe para a MTV em 1986 e, como lembrava alguém na plateia, como se voltasse a estar "53 semanas consecutivas no TOP +".

No fim, assistiu-se a um duelo entre duas espécies raras: a velha rock star sueca, que nunca encontrou um espelho de que não gostasse, e o escocês, que provavelmente vê os espelhos como uma distração desnecessária da contemplação do universo.

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