Cem dias depois do comboio de tempestades que atingiu com particular severidade o distrito de Leiria, o turismo da região acelerou as obras de reconstrução para tentar assegurar um verão o mais “normal” possível.
“\“Acho que o verão vai ser marcado por muitas pessoas a visitar a região e também motivadas pelo sentimento solidário de querer contribuir, de querer visitar uma zona afetada e verificar como se está a reerguer\””, afirma Gonçalo Lopes, presidente da Câmara de Leiria. O autarca antecipa que, na época alta, se mantenham “\“níveis de ocupação e de atratividade iguais aos anos anteriores\””. E deixa um apelo: “\“Estamos a fazer tudo para recuperar, e confiamos no coração enorme dos portugueses\””.
A autarquia garante já ter avançado com €30 milhões do orçamento municipal para várias intervenções de reconstrução, incluindo a requalificação do castelo - o maior ícone turístico da cidade. Encerrado desde que a depressão Kristin provocou o colapso de parte das muralhas, o Castelo de Leiria está a ser intervencionado numa obra estimada em €500 mil e tem reabertura prevista para 22 de maio.
Gonçalo Lopes sublinha ainda o esforço das unidades hoteleiras, que “\“não levantaram o pé do acelerador e estão a reparar a toda a velocidade para que no verão possam funcionar\“”, embora admita que algumas “\“possam não estar a 100%\“”. Como exemplo, destaca o primeiro hotel de cinco estrelas a abrir no concelho, em Monte Redondo: a Quinta Filippa, um investimento de €10 milhões, cuja inauguração estava apontada para maio, mas foi adiada para 1 de setembro depois de sofrer estragos com a queda de árvores durante a depressão Kristin. O projecto pertence a um investidor residente nos Países Baixos, com família na região (Mike Schwalbach), e pretende posicionar o concelho no mapa do turismo de luxo, com diárias acima de €1000.
Na Praia da Vieira de Leiria - ponto por onde as tempestades começaram a manifestar-se - as reparações dominam a paisagem. Francisco Almeida Gomes, proprietário dos hotéis Cristal, viu o seu complexo hoteleiro na Praia da Vieira (um total de 360 camas) ficar seriamente afectado. Calcula prejuízos de €1,3 milhões e diz ter conseguido recuperar 95% dos hotéis sobretudo com meios próprios, mas declara-se “\“desiludido\“” com a promessa de apoios, que, segundo afirma, não estão a chegar às empresas. Ainda assim, refere que foi o primeiro e único projecto aprovado, até ao momento, pela linha do Banco de Fomento destinada à recuperação - “\“mas também, dos €700 mil de apoios que solicitei, só posso utilizar €82 mil\””.
“\“Isto foi assustador, com o vento a soprar durante meia hora a mais de 200 km/hora. Tive o hotel fechado dois meses, foi limpar, limpar. Ficou tudo cheio de areia, a parte da piscina e do spa ficou destruída e cheia de vidros, as telhas do vizinho voaram e partiram tudo, caíu uma parte da varanda e partiu a estrutura do elevador\””, relata o dono dos hotéis Cristal. Apesar do impacto, diz esperar que 2026 traga resultados superiores aos do ano passado.
Turismo do Centro apela a campanha de promoção
“\“O território está a recuperar, está preparado e merece ser visitado\””, reforça Rui Ventura, presidente da Entidade Regional do Turismo do Centro de Portugal. O responsável assegura que está a acompanhar, “\“em articulação com os municípios e restantes entidades competentes, a evolução da situação nos territórios mais afetados pelos episódios de tempestade, em particular em zonas do litoral como a Praia da Vieira, a Praia de Pedrógão e São Pedro de Moel\””.
Embora nem todos os destinos do Centro tenham sofrido danos directos, muitos acabaram por sentir os efeitos indiretos, impulsionados pelo mediatismo. Rui Ventura realça que “\“a comunicação é determinante nestes momentos\”” e recorda que “\“muitas vezes, o maior impacto não é o dano físico, mas sim a perceção, e quando não existe uma comunicação suficientemente forte, o risco é que essa perceção negativa se prolongue no tempo\””.
“\“Visitar estes destinos, consumir nos restaurantes, utilizar alojamentos, é uma forma concreta de apoio às comunidades e às empresas que enfrentaram dificuldades\", frisa o presidente do Turismo Centro de Portugal\”
Para Rui Ventura, há um “ponto essencial”: “\“o turismo tem demonstrado, ao longo do tempo, uma enorme capacidade de resiliência\”” - e, no caso dos estragos provocados pelas tempestades, “\“isso já está a acontecer\””. Quanto ao verão, admite que “\“nos destinos mais diretamente afetados, é natural que a recuperação da procura seja gradual, sobretudo onde ainda decorrem intervenções ou existiram constrangimentos temporários na oferta\””.
De acordo com os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), o Centro de Portugal foi, em março, a região que apresentou a maior quebra de turistas nacionais face ao mesmo mês do ano anterior, com uma redução de 9,6% nas dormidas.
“\“Em março, verificou-se um decréscimo da procura interna e de mercados de proximidade no Centro de Portugal, precisamente aqueles que são mais sensíveis à confiança e informação disponível\””, observa o responsável. Por isso, considera ser “\“o momento certo para uma ação promocional reforçada, dirigida ao mercado nacional e internacional, que ajude a acelerar a retoma\””. E acrescenta que “\“teria sido importante uma resposta mais forte, e coordenada no sentido de reforçar a confiança no destino Centro de Portugal\””.
Nem todos os destinos dentro do vasto território do Centro de Portugal foram afetados pelas tempestades, mas acabaram por se ressentir destes impactos, face ao mediatismo gerado. O presidente da região de turismo frisa que “\“a comunicação é determinante nestes momentos\””, e lembra que “\“muitas vezes, o maior impacto não é o dano físico, mas sim a perceção, e quando não existe uma comunicação suficientemente forte, o risco é que essa perceção negativa se prolongue no tempo\””.
O que se impõe na região Centro é a multiplicação de esforços para ter os destinos a funcionar no verão, e Rui Ventura volta a apontar como “ponto essencial” o facto de “\“o turismo tem demonstrado, ao longo do tempo, uma enorme capacidade de resiliência\”” - algo que, perante os danos das tempestades, “\“isso já está a acontecer\””.
Alentejo acelera obras de recuperação de praias para o verão
Também o Alentejo, outra região extensa, foi afectado pelas tempestades, ainda que de forma desigual entre territórios.
“\“Ao nosso nível, estamos a fazer tudo o que é possível para repôr a normalidade de funcionamento de destinos no litoral até ao verão\””, afirma José Manuel Santos, presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo. Para a época balnear, as prioridades concentram-se na Praia Fluvial do Alamal no concelho de Gavião, que ficou destruída pelas tempestades, a par de Alcácer do Sal e Odemira.
A Câmara de Gavião, em conjunto com a região de turismo, já entregou uma candidatura a uma linha de apoio do Turismo de Portugal, com investimento de €400 mil, para repôr o funcionamento da Praia do Alamal antes do verão, contemplando a reposição de passadiços e outras infra-estruturas de suporte, por se tratar do principal ponto turístico local.
Em Alcácer do Sal, afectado por cheias do Rio Guadiana durante as tempestades, José Manuel Santos diz estar a trabalhar com a Câmara num “plano de promoção extraordinário, que visa reforçar a notoriedade turística de Alcácer do Sal o ano inteiro, que inclui animação e espetáculos”.
“\“Estamos a trabalhar com meios próprios, estimo aqui um investimento de €50 mil para dar algum apoio à base empresarial e local\””, refere, acrescentando que caberá ao turismo regional assegurar a comunicação. Lembra, no entanto, que Alcácer do Sal continua mais “crítica” para pequenos empresários do comércio e da restauração, cujos estabelecimentos foram danificados pelas cheias.
Em Alcácer do Sal, os alojamentos turísticos certificados pela Biosphere Sustainable ficam isentos de pagar os respectivos custos em 2026 - “é uma espécie de moratória para ajudar as empresas na reconstrução, e que não se aplica ao resto do Alentejo”, sublinha.
Em Odemira, houve “prejuizos com significado, não só envolvendo a atividade turística, mas que não tiveram força para interromper o destino”, detalha o presidente da região. O município de Odemira, em conjunto com outras entidades, apurou prejuízos totais de €75 milhões, na sequência das depressões Ingrid, Joseph, Kristin, Leonard, Marta, Nils e Oriana.
“\“O caudal do rio Mira subiu para níveis de alerta e prevenção, provocando cheias na zona baixa de Odemira e que fez lembrar a última grande cheia de 1997\””, comunicou a Câmara de Odemira.
“Em Odemira não houve danos nos alojamentos, o problema foi nos acessos às praias, e a câmara tem-se empenhado a fazer obras, exclusivamente com orçamento municipal, para garantir ter a situação reposta até ao verão, e estamos a falar de praias com bandeira azul ou dourada”, destaca José Manuel Santos.
Entre as iniciativas ‘extraordinárias’ mobilizadas pela região de turismo está levar à Praia do Malhão, em Odemira, a segunda etapa do Circuito Nacional de Surf Sub 18 - Junior Tour, a 30 e 31 de maio.
“\“Vamos reforçar a promoção de Odemira com uma campanha dirigida ao mercado português e da Andaluzia\””, diz, salientando que tentam fazer tudo o que é possível dentro das respectivas competências.
A Praia do Malhão, em Odemira, vai receber no final de maio uma prova do Circuito Nacional de Surf. É uma medida ‘extraordinária’ para responder aos efeitos das tempestades
“\“E em junho vamos lançar uma campanha global dirigida ao mercado português, a comunicar ao país que temos um Alentejo a funcionar em pleno\””, acrescenta, descrevendo-o como “cada vez mais bonito”. Segundo José Manuel Santos, “na sua narrativa de marketing, a campanha contempla os territórios mais afetados pelo comboio de tempestades”.
No restante território alentejano, o presidente da entidade refere que houve, “aqui e ali”, ocorrências associadas às intempéries, como em Mértola, “onde a situação se está a resolver com o apoio do fundo ambiental”. Também no Ribatejo houve locais bastante assolados pelas intempéries e a exigir intervenções, como Coruche, Salvaterra de Magos, Alpiarça ou Rio Maior, apesar de não serem zonas balneares nem tão ligadas ao turismo de verão.
Praias da Costa da Caparica reabrem em junho
Na Costa da Caparica, na região de Lisboa, o impacto das tempestades foi especialmente sentido devido a derrocadas na arriba fóssil, que desde então se encontra sob observação permanente do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).
As tempestades também causaram atrasos nas obras de reposição de areia que decorrem desde o ano passado na Praia de São João, numa intervenção que segue até à Nova Praia.
A Praia de São João, na Costa da Caparica, está actualmente interdita ao público e, segundo a Câmara Municipal de Almada, deverá reabrir a meio de junho, já com a reposição de areia concluída.
“\“A natureza dos trabalhos abrange sobretudo a repulsão de areia para a praia, de forma a criar uma linha reforçada de defesa costeira\””, explicou ao Expresso o Wemob, a quem a autarquia delegou competências nas praias.
A empreitada de alimentação artificial das praias está a ser complementada por trabalhos de “\“restauro ecológico do sistema dunar de São João da Caparica e Cova do Vapor, de forma a aumentar a sua capacidade de capturar areias disponibilizadas pelo vento a partir desta nova reserva sedimentar e aumentar a resiliência e serviço de proteção costeira providenciado pela duna\””.
As tempestades provocaram ainda interrupções sucessivas nas intervenções em curso na Praia do Rei, destinadas a melhorar as áreas envolventes e os acessos à zona balnear.
Os apelos à solidariedade com os destinos atingidos - feitos pelo Presidente da República, António José Seguro (que escolheu visitar estes territórios na sua primeira Presidência Aberta) - têm sido valorizados por vários autarcas e responsáveis de entidades regionais.
“\“Visitar estes destinos, consumir nos restaurantes, utilizar alojamentos e participar nas atividades disponíveis é uma forma concreta de apoio às comunidades e empresas que enfrentaram dificuldades\", realça Rui Ventura, presidente do Turismo Centro de Portugal. É um contributo com impacto real, que ajuda a preservar emprego, a manter negócios ativos e a acelerar o regresso à normalidade\”.
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