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Billie Eilish e James Cameron levam “Hit Me Hard and Soft: The Tour (Live in 3D)” ao cinema

Cantora com microfone no palco circular com público entusiasmado a tirar fotos e câmaras a gravar.

A proposta nasceu de uma conversa improvável: James Cameron contou ao “The Hollywood Reporter” que, por ser amigo de Maggie Baird, mãe de Billie Eilish, lhe lançou um desafio muito direto. “Maggie, porque não estamos a gravar a digressão da Billie em 3D? Seria incrível!”. A partir daí, uma ideia puxou outra e o projeto ganhou tração rapidamente.

O resultado chama-se “Billie Eilish – Hit Me Hard and Soft: The Tour (Live in 3D)” e estreia esta quinta-feira nas salas de cinema portuguesas, com assinatura partilhada na realização. “Vai dizer ‘realizado por Billie Eilish com James Cameron’”, ouve-se o cineasta declarar nos instantes iniciais do filme. “Tu és a arquiteta deste concerto. A visão é tua”.

A digressão “Hit Me Hard and Soft” e a paragem em Manchester

A digressão que Cameron quis captar foi a que levou à estrada o álbum “Hit Me Hard and Soft”, de onde saíram, em 2024, ‘Birds of a Feather’ e ‘Wildflower’, dois dos maiores êxitos recentes da artista norte-americana.

Arrancada ainda em 2024 no Canadá e nos Estados Unidos, a tour passou também pela Austrália, no início do ano passado, e só depois seguiu para a Europa. Portugal não entrou no itinerário - a única atuação de Eilish em território nacional aconteceu em 2019 -, mas a cantora atuou em cidades como Copenhaga, Amesterdão, Berlim, Paris, Barcelona e Londres. Para filmar o espetáculo, a produção escolheu Manchester, onde Eilish deu quatro concertos na arena Co-op Live.

Palco 360: minimalismo pensado para aproximar Billie Eilish do público

Com uma configuração a 360 graus, o cenário é assumidamente minimalista: um palco retangular colocado ao centro de uma arena com capacidade para mais de 20 mil pessoas, integralmente revestido por ecrãs LED, e com dois fossos onde ficou instalada a banda que a acompanha na estrada.

Essa opção de simplicidade desloca o centro de gravidade para as canções e, sobretudo, para a relação de proximidade que Eilish construiu com os fãs - e que Cameron, aqui, trata de amplificar num filme visualmente irrepreensível.

Maximizar a emoção

Ver um concerto através de um ecrã, pequeno ou grande, pode soar a experiência “em segunda mão”, mas se for para consumir um filme-concerto desta forma, que seja sempre assim. Na intensa ‘Chihiro’, escolhida para abrir os concertos, mergulhada na mesma luz azulada que domina a capa de “Hit Me Hard and Soft”, ou no vermelho-desejo de uma atrevida e ritmada ‘Lunch’, o que se impõe é a minúcia que o 3D torna possível: Billie corre de um lado ao outro do palco, entre mãos esticadas, com ou sem telemóveis levantados, e os fãs parecem mesmo estar à nossa frente (sem, claro, nos roubarem a visibilidade).

No som, o mais cativante é a forma como tudo chega com clareza e sensação de proximidade: tanto aquilo que Billie canta e a banda toca, como o eco da música nas vozes da plateia. E sem o reverso típico de um concerto ao vivo - o desconforto do desafinanço alheio ou das conversas inúteis do vizinho do lado.

Bastidores e preparação antes de entrar em palco

Entre músicas que percorrem a discografia da artista, com paragens em temas como ‘Bad Guy’, ‘Lovely’ e ‘Ocean Eyes’, somos levados para dentro do processo de preparação. Primeiro, há um timelapse a mostrar a montagem de toda a maquinaria e do equipamento; depois, ouvimos Eilish dizer “aqui vou eu” quando entra na mala com rodas onde segue, escondida, até ao palco; e recuamos até sete horas antes do espetáculo para ver Cameron chegar de câmara ao ombro à sala onde a cantora está, conversar com ela sobre o ato criativo e ouvi-la reforçar a importância da “cor de cada canção”.

Ela fala também da entorse “não muito má” que sofreu, depois de passar a tour inteira “a tentar não adoecer”. Vemo-la numa sessão por videochamada com o treinador vocal e acompanhamos gestos quotidianos - pentear as sobrancelhas, tratar da maquilhagem ao espelho. “Sou eu que faço a minha maquilhagem e cabelo nas digressões”, diz, antes de Cameron elogiar o eyeliner preto: “vê-se bem à distância”. Ainda assim, o que está para lá da atuação pesa menos aqui: os bastidores aparecem, e os fãs vão querer vê-los, mas onde “Billie Eilish – Hit Me Hard and Soft: The Tour (Live in 3D)” realmente se supera é na captação detalhada do que acontece em palco e na arena de Manchester.

“Ninguém faz isto como tu”

A emoção dos fãs - muitos agradecem-lhe por os ter ajudado a atravessar solidão ou situações de bullying - transborda em cada sequência. Os coros crescem na prestação acústica de ‘Wildflower’, e ‘Ocean Eyes’, a canção com que Eilish se apresentou ao mundo há dez anos, surge com um arrepio particular, reforçado pela colaboração ao piano de Finneas, o irmão que é também o seu parceiro criativo e que, pela primeira vez desde o início da carreira, não a acompanhou em palco nesta digressão. “Atuar sem ele foi entrar num território novo e muito assustador”, admite, numa cena fora do palco, ao receber flores e uma mensagem elogiosa do irmão: “Ninguém faz isto como tu”.

No arranque da balada ‘When the Party’s Over’, a cantora testa a contenção (e a fidelidade) dos admiradores ao pedir silêncio absoluto para conseguir gravar o loop da voz de apoio. A sensação de proximidade leva-se ao limite quando a própria Billie Eilish pega numa câmara para filmar, em grande plano, os músicos e a si mesma - e quando vira a objetiva para a plateia. “Sintam-se livres para serem quem são”, atira, antes de cantar “try not to abuse your power”, versos intensos de ‘Your Power’, tema recuperado do segundo álbum, “Happier Than Ever”.

A presença de James Cameron ao longo do filme parece nascer mais de forma espontânea, como expressão da admiração por uma artista com idade para ser sua neta, do que de qualquer intenção de se impor como figura paternal. “Adoro o facto de estares ali a cantar sem uma data de bailarinas à tua volta”, comenta ele, a certa altura, e Eilish responde: “quero sentir que sou eu e eles”. É exatamente esse diálogo - entre ídolo e fã, num registo de vulnerabilidade quase ao mesmo nível - que dá linha narrativa a este filme-concerto. E vê-lo através do olhar clínico de um dos realizadores mais elogiados de Hollywood é um luxo raro.

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