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Surto de hantavírus (vírus Andes) num navio: ciência, medo e infodemia

Médica numa embarcação com tablet a mostrar imagem dos pulmões e telemóvel, enquanto técnicos com fato de proteção preparam s

Crises com possíveis efeitos na saúde das populações transformam-se depressa num exame à nossa literacia coletiva e ao sentido de responsabilidade pública de todos os intervenientes. Enfrentá-las não se resume a tratar sintomas e diagnósticos, nem apenas a travar novos casos. Implica também - e isto é decisivo - gerir informação, medo, mediatismo e confiança social. Para isso, pede-se rigor às autoridades de saúde, prudência a quem tem palco e proporcionalidade a quem governa.

Um vírus inicialmente ligado a animais, capaz de provocar doença grave em humanos, surge a bordo de um navio com passageiros de várias nacionalidades, exigindo isolamento, evacuação médica e articulação entre países. Onde é que já ouvimos este enredo? A pergunta é apelativa, mas parte de uma premissa errada.

A Covid-19 deixou uma marca forte na memória coletiva. Hoje, qualquer combinação de “vírus”, “transmissão internacional” e “quarentena” desencadeia quase de imediato um reflexo social. A psicologia descreve isto como heurística da disponibilidade: quanto mais facilmente nos vem à cabeça um exemplo - sobretudo se recente, dramático e repetido - maior a probabilidade de assumirmos que vai acontecer outra vez. O desfecho é quase automático: antes de entendermos o que está a ocorrer, já o colocámos no molde de uma ameaça pandémica.

O que sabemos sobre a síndrome pulmonar por hantavírus e o vírus Andes

Mas estamos no terreno da ciência e, por isso, importa ir aos dados. A síndrome pulmonar por hantavírus é uma doença zoonótica (isto é, uma doença infeciosa que pode ser transmitida entre animais e seres humanos), rara, mas com potencial para ser grave. Em regra, a infeção humana acontece sobretudo após contacto com urina, fezes ou saliva de roedores infetados - em particular pela inalação de partículas contaminadas em locais fechados ou com ventilação deficiente.

A transmissão pessoa-a-pessoa por hantavírus é, na maioria dos casos, incomum. A principal exceção é o vírus Andes (a estirpe associada a este surto), para o qual já se documentou transmissão limitada após contactos próximos e prolongados. Ainda assim, isso não é o mesmo que uma transmissão respiratória eficiente na comunidade, como se observou com o SARS-CoV-2. Existe risco e isso justifica vigilância, mas reconhecer o agente não equivale a reconstituir toda a cadeia de transmissão - e está longe de significar que estejamos a assistir ao arranque de uma nova pandemia. A Organização Mundial da Saúde mantém uma avaliação de risco global baixo.

Investigação, isolamento e coordenação: o enquadramento do surto

Tal como tem sido visível na cobertura noticiosa, este surto não está a ser desvalorizado: está a ser contextualizado. O que se segue passa por caracterizar cuidadosamente os casos - do ponto de vista clínico, epidemiológico e laboratorial - para determinar quem foi infetado, quando, em que circunstâncias e se os casos decorrem de uma fonte comum, de transmissão entre pessoas, ou de uma combinação de ambas.

Aqui, é fundamental perceber que o alarme público não apareceu por falta de resposta. Apareceu, em parte, precisamente porque a saúde pública estava a fazer o seu trabalho. A partilha de informação entre países ao abrigo do Regulamento Sanitário Internacional, a investigação epidemiológica, o isolamento, a monitorização de passageiros e o rastreio de contactos não eram sinais de desastre iminente, mas sim de vigilância, controlo e acompanhamento do surto.

Mediatismo, Ilhas Canárias e TikTok: quando o medo dita a leitura

O problema é que estes episódios já não são lidos apenas através da lente científica. São também filtrados por atores políticos, redes sociais, memória coletiva e ciclos mediáticos. Nas Ilhas Canárias, a chegada prevista do navio reativou receios e respostas desproporcionadas, como se a simples atracagem fosse sinónimo de ameaça fora de controlo. Com isso, perdeu-se o foco no apoio clínico que deve ser assegurado às pessoas expostas em contextos de maior proximidade e potencial transmissão.

No TikTok, um surto com nuances foi comprimido, em segundos, no guião familiar da “nova pandemia”: vídeos sobre o que fazer se tudo voltar a fechar, piadas sobre destruir o navio, teorias de contágio inevitável e desconfiança em relação às autoridades. Entrámos no campo da economia da ansiedade, onde o medo se propaga rapidamente porque produz atenção, partilhas e reação emocional.

O que uma resposta moderna exige de todos os envolvidos

Por isso, hoje as crises sanitárias pedem uma resposta mais vasta, com ação e responsabilização de vários atores:

  • Investimento sustentado em saúde pública, incluindo preparação e resposta a emergências, vigilância epidemiológica baseada em eventos, capacidade laboratorial de referência, investigação de surtos, prevenção e controlo de infeção, coordenação intersetorial e valorização das equipas que asseguram esta resposta no terreno.
  • Capacitação, apoio e aceitação política da resposta técnica, permitindo que as autoridades atuem com autonomia, base científica e capacidade operacional. A resposta dos governos deve ser firme, mas proporcional. A obrigação política não é parecer mais duro perante a ameaça; é proteger a população sem amplificar o medo, evitando transformar medidas de saúde pública em palco mediático.
  • Mecanismos de gestão da infodemia, com equipas capazes de identificar rumores, corrigir informação falsa, explicar incerteza e comunicar depressa sem sacrificar rigor técnico.

Há ainda uma nota final sobre a tensão que a própria comunicação científica enfrenta. Comunicar ciência é exigente, sobretudo quando os factos mudam. Uma mensagem inicial pode afirmar, corretamente, que a transmissão pessoa-a-pessoa por hantavírus é rara; pouco depois, pode confirmar-se que a estirpe envolvida pertence precisamente ao grupo em que essa transmissão já foi descrita. Isso não invalida a comunicação anterior. Mostra, isso sim, que a comunicação de risco tem de ser dinâmica, transparente e capaz de se atualizar sem parecer contraditória.

A desinformação propaga-se depressa porque não espera pela certeza. A saúde pública não pode ter esse luxo, mas também não pode chegar tarde demais.

A próxima emergência não será ganha apenas nos laboratórios ou nos hospitais, mas também no espaço público onde, hoje, se disputa a confiança na ciência.

Artigo publicado no âmbito de uma parceria editorial entre o Expresso e o Global Shapers Porto Hub.

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