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O caso do faquista macho no Mini-Preço da Graça, em Lisboa

Quatro homens, dois polícias e dois civis, conversam numa rua com calçada portuguesa junto a uma loja.

O dia começou torto para o faquista macho - embora ele não fizesse ideia. Enquanto andava por aí, já tinha em cima uma multa por não ter comparecido em tribunal; mas, se não apareceu, como poderia saber? Israel, o faquista macho, devia estar - ou, mais exactamente, não estava - diante do juiz por causa de uma façanha mais própria das Caraíbas de outros tempos, ou dos flibusteiros do Malabar, do que do actual Bairro da Graça dos franceses. Foi um episódio fora do seu tempo em Lisboa. Só não houve assalto a galeões, raptos, pilhagens ou mutilações porque, pelo meio, existia um outro homem: Gerson, o segurança mais sereno do ex-Império português.

O faquista macho Israel no Mini-Preço da Graça

A ameaça que Gerson enfrentou não era pequena e, ainda assim, ele contou-a sem estridência. Um homem, negro como ele, mas com um ar tresloucado, levantou os braços dentro do Mini-Preço da Graça e exibiu duas facas enfiadas nos calções, como se fossem duas espadas - ou cimitarras capazes de abrir um homem “pelo fio do lombo”. E anunciou-lhe, sem rodeios: "Vou fazer de ti mulher!"

Isto aconteceu há cerca de um ano. Agora, Gerson - magro, ágil, quase elástico - estava no tribunal a reconstituir o que se passara. Enquanto falava, dava até a impressão de estar a aliviar Israel, insistindo que não é pessoa de se deixar intimidar e que, no fundo, a ameaça não teria sido assim tão séria.

O depoimento de Gerson no tribunal

  • Foi antes das 11h, de manhã - começou Gerson - O senhor estava na loja e pegou num desodorizante e foi dá-lo a uma senhora, que o meteu numa mala. Quando ela ia sair eu disse que tinha de pagar o desodorizante e ela disse que não tinha nada e eu disse "então vou chamar a polícia", então ela voltou e mostrou a mala e estava lá o desodorizante.

A partir daí, segundo Gerson, seguiu-se a altercação do costume: "Nós íamos pagar, nós podemos perfeitamente pagar". A polícia apareceu e Israel acabou levado.

Mas a história, contou ele ao tribunal, não ficou por ali. Gerson falava com voz baixa e suave - mais inclinada ao suspiro quase poético, resignado perante o desvario do Mundo, do que a qualquer confronto directo.

  • Passada menos de uma hora, o senhor voltou. Começou logo a falar, a falar, a dizer que eu tinha chamado a polícia quando ele ia pagar, e eu disse-lhe que naquele sítio, se quer levar, tem de pagar primeiro e ele diz-me assim:

"Eu sou homem!", e eu respondo: "Eu não disse que não eras homem..." O senhor, naquele momento, estava cheio de álcool. Depois, o senhor levantou os braços e vi a faca na sua cintura.

  • Ele alguma vez lhe apontou a faca?, perguntou a procuradora.

  • Não, isso não. Quando vi a faca comecei logo a falar com ele, e só depois chamei a polícia.

A procuradora pediu-lhe então que reconhecesse, no processo, a faca - que afinal eram duas facas de cozinha. Eu próprio vi as fotografias no calhamaço: cabos pretos, e Israel trazia-as presas nos calções à maneira de pirata, uma de cada lado da cintura.

Facas à cintura, polícia na rua e um pedido de desculpa

Gerson disse-lhe que teria de chamar novamente a polícia. Chamou. Israel afastou-se, mas deixou um aviso, prometendo ficar à espera: "vou-te esperar na rua, quando saíres!"

E é aqui que o enredo vira. Um agente passava na zona, reparou no alvoroço - havia na rua um homem com facas - e conseguiu imobilizá-lo no chão. Nesse instante, o perigoso assaltante desfez-se em lágrimas, garantindo que não era assim e que não queria magoar ninguém.

O polícia confirmou-o em tribunal e o próprio Gerson também: viu Israel entrar no supermercado pela terceira vez e, desta vez, o homem limitou-se a pedir desculpa, repetindo que "eu não sou assim, foi porque bebi, eu não sou daquele tipo, eu sou uma pessoa tranquila!"

Quando Gerson terminou o depoimento, segui-o pelo corredor.

  • Desculpe, ouvi bem, ele disse mesmo "vou fazer de ti mulher"?

  • Só queria dizer que era mais forte do que eu.

  • Acha?

  • Sim, disse-me Gerson e encolheu os ombros.

A todos, bons Santos Populares e cuidado com os piratas bêbedos e os faquistas machos, mesmo os tranquilos.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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