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SWR Barroselas 2026: a peregrinação do metal extremo

Pessoas a assistir a concerto ao ar livre com homem a saltar para a multidão durante momento animado e ensolarado.

Por todo o recinto domina o preto: nas t-shirts, nas caras com a chamada maquilhagem cadavérica; nas bancas apinhadas de discos, seja em cassete ou em vinil; nas bandeiras, nos emblemas, nos alfinetes e em tudo o que se consiga pendurar num colete. Passam copos de cerveja de mão em mão, misturam-se sorrisos com expressões carregadas, e tanto se vê um miúdo de cinco anos a desfilar com um colete de batalha onde sobressaem Sodom e Bathory como uma rapariga de rastas a colar autocolantes de gatinhos em corpos alheios. É, mais uma vez, Barroselas - vila que se tornou sinónimo de peregrinação anual - a receber um dos mais antigos festivais portugueses (nasceu em 1998), dedicado ao metal extremo em todas as suas variantes: metal negro, metal de morte, metal doom, grindcore. Chamam-lhe SWR, abreviatura de Steel Warriors Rebellion, e ali não faltam guerreiros do aço.

Na edição de 2026, que decorreu de 29 de abril a 2 de maio, o SWR trouxe também alterações visíveis. A zona que, há alguns anos, chegou a acolher um segundo palco já não serve apenas para as mesas de artigos das bandas: ganhou igualmente um novo espaço exterior, pensado para parar e beber um café. Assim que se entra na masmorra principal - o Palco Abismo - é impossível não dar por um cheiro pesado a suor, resultado de tantas corridas em rodas de mosh e da espécie de aeróbica colectiva de abanar a cabeça. Lá dentro, os franceses Venefixion debitam metal de morte com tonalidade negra; do outro lado, no Palco Arena, os portugueses ANZV fazem a verificação de som, com o baterista a experimentar os microfones num compasso que lembra uma marcha militar. Cá fora mantêm-se os pontos habituais de comida: as bifanas com queijo da serra destacam-se como especialmente tentadoras, e as mini-pizzas - por menos de dez euros a fatia - vêm com salame picante.

Metaleiros pelo mundo

Ao longo dos quatro dias de festival (três, mais um de "aquecimento"), e segundo dados fornecidos à BLITZ pelo NAAM - Núcleo de Apoio às Artes Musicais de Barroselas, responsável pela organização do SWR - passaram pelo evento cerca de 5500 festivaleiros, numa média de 1400 pagantes por dia (no total, há 1500 bilhetes disponibilizados diariamente), além de 700 entradas para convidados e imprensa. É um volume que impressiona quando se olha para a própria Barroselas: pelo último censo (2011), tem pouco mais de 3900 habitantes (e, naturalmente, nem todos aparecem no SWR). Quem conseguiu a sorte de dormir numa cama acabou por fazer parte do grupo que esgotou todos os alojamentos locais num raio de 7km; os restantes espalharam-se por Viana do Castelo, a 18km da vila, para conseguirem pernoitar.

A maioria dos "metaleiros" do SWR Barroselas é portuguesa, mas nota-se uma presença forte de gente vinda de fora, com destaque para a vizinha Galiza. França, Inglaterra, Bélgica, Brasil, Alemanha ou Finlândia (onde uma em quatro pessoas tem uma banda de metal) também tiveram representação; e houve ainda quem chegasse da Letónia ou do Cazaquistão - embora a organização garanta que, noutros anos, já apareceram fãs vindos da Austrália, da Índia ou do Dubai. Quanto às bandas, a Europa foi, uma vez mais, a principal origem dos nomes do cartaz, juntando-se-lhes artistas dos Estados Unidos, do Canadá e do Chile.

E como é que se sustenta, ano após ano, esta máquina? A NAAM aponta para um orçamento de 200 mil euros, dos quais 30 mil são apoiados pela Câmara Municipal de Viana do Castelo. O restante é assegurado sobretudo pela bilheteira: trata-se de um festival sem grandes patrocínios - e a intenção é que continue assim, sem marcas a colarem-se ao nome. Também o impacto na economia local é sublinhado: a NAAM estima que o SWR 2026 tenha gerado 250 mil euros de receita em negócios da zona.

Um concerto indispensável

O grande momento do ano foi a estreia em Portugal dos Beherit, nome de culto do metal negro, que regressou aos palcos em 2022 depois de uma ausência longa. Chamar "brutal" ou "assombrosa" à passagem por Barroselas fica aquém do que se viveu durante uma hora; o termo que melhor encaixa é "indispensável". Falamos de uma banda cuja relevância, como escreveu Tero Ikäheimonen em The Devil's Cradle, livro sobre a história do metal negro finlandês, "não é tão musical quanto o é espiritual". Aquele paredão de som - alimentado por motivos de guitarra lentos e sombrios, e por uma atmosfera moldada pela electrónica - empurrou-nos para o mais fundo dos infernos, como se abrisse as portas do degredo absoluto e de um abismo inimaginável.

O espectáculo arrancou com amostras de vozes militares, sintetizadores e uma camada densíssima de trevas, diante de uma masmorra cheia de fiéis e fanáticos. A comandar, colocado à direita, estava Marko Laiho - o homem que, para a arte, adoptou o nome Nuclear Holocausto Vengeance - e que, depois do satanismo, encontrou o budismo após anos "em busca de um sentido para a existência", como relatou no documentário Eternal Flame of Gehenna, de 2011. Em palco, as ferramentas são uma voz levada ao limite por processamento e um dispositivo de amostras, disparado com a ajuda de uma baqueta; Buda não entra aqui - e Buda nunca soou tão aterrador.

'Black Arts', retirada do seminal Drawing Down the Moon, resumiu na perfeição a proposta dos Beherit: metal negro em marcha lenta e de pulso hipnótico. Veio à memória Filosofem, o grande álbum de Burzum lançado anos depois, que ao lado disto parece quase uma brincadeira. Percebe-se, aliás, como Laiho, farto dos Beherit durante um período, acabou por orientar as atenções para o tecno; a forma como o tema se constrói ao vivo, com espaçamentos próprios na instrumentação e na forma de fechar ideias, toca em semelhanças com esse universo - e se o segundo retira o humano para o entregar às máquinas, Beherit retira-o para o oferecer aos demónios.

Quando a banda acelera e as camadas eléctricas e sintéticas ganham contornos quase disformes, o concerto muda de estado: a guerra eterna imaginada pelo metal negro encontra o seu terreno numa pequena vila do Alto Minho. No meio do público, alguém acende três velas em honra do negro absoluto. Depois de 'The Gate of Nanna', 'Witchcraft' e 'Pagan Moon', Laiho junta as mãos em agradecimento; ao nosso lado, um vizinho pergunta o que achámos. Não respondemos: batemos no peito, em sinal de devoção. De entre as centenas de concertos que já passaram por Barroselas, este foi um dos melhores.

Porrada a rodos

Claro que o SWR, em 2026, não se resumiu aos Beherit. Passaram por ali os Balmog, com um metal negro agressivo e envolto em neblina, e também os impressionantes Primitive Man, a trazerem um doom cruzado com ruído, acompanhados por projecções em palco com inclinação psicadélica. Os norte-americanos foram, de resto, o grande destaque do primeiro dia: um som lento e opressivo que fez o palco tremer, com vozes que pareciam arrancadas à mais abjecta miséria humana. Nos instantes de maior velocidade, a agonia tornava-se violenta, como se pedisse um mundo percorrido de faca na mão. Já os Corpus Offal, seus conterrâneos, trouxeram pancadaria sem tréguas: houve gente a fazer roda de mosh à volta de um cadeirante, e homens musculados, de tronco nu, a fazerem surf por cima da multidão.

Os históricos Revenge abriram com uma sirene de alerta, gritaria e duas vozes a alimentar a sua guerra perpétua, apoiadas por batidas blast e motivos de guitarra absurdos, num quase psicadelismo que puxou a memória para os S.V.E.S.T. na era de Urfaust. Ainda assim, houve quem subisse ao palco para dançar o tango. Os Caustic Wound também andaram pelas estradas da porrada, com várias invasões de palco, e nem um pequeno problema com uma das guitarras lhes tirou balanço. Os Darvaza foram uma excelente surpresa - maquilhagem cadavérica e nojo, como se o inferno desabasse sobre o festival - e os Aluk Todolo surgiram como o nome mais fora da caixa, não com a força do metal, mas com a experimentação krautrock, toques de jazz e uma longa sessão iluminada por uma única lâmpada, a separar o trigo do joio: metaleiros vs. gente que gosta de metal. Para o ano, todos voltarão a render-se ao aço, uma vez mais.


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