Saltar para o conteúdo

Renault 5: o elétrico divertido que é difícil resistir

Carro elétrico Renault 5 EV amarelo num espaço moderno com parede de vidro e posto de carregamento.

O Renault 5 mostra que um elétrico também pode ter graça ao volante e, apesar de algumas cedências, é daqueles carros a que custa dizer não.


O Renault 5 não precisa de grande enquadramento: mais do que o regresso de um nome histórico, é uma tomada de posição em estilo e identidade de um modelo que os portugueses conhecem bem.

A «reencarnação» do célebre citadino francês aconteceu há pouco mais de um ano e, mesmo antes de aterrar nos concessionários, já figurava entre os lançamentos mais desejados. Recupera o charme das linhas retro do original, mas junta-lhe a linguagem e a tecnologia das propostas atuais.

E não, não é uma salada difícil de equilibrar. A Renault acertou nas doses de cada ingrediente. O resultado é evidente: um visual irreverente, jovem e cheio de cor, com capacidade para chamar atenções por onde passa. O Miguel Dias já o mostrou neste vídeo.

Com tanta expectativa em cima, o Renault 5 tinha de corresponder - e, agora, as evidências estão à vista. Se ainda restavam dúvidas, os dias que passei ao volante deste «brinquedo» trataram de as apagar.

Se a prioridade for o máximo de espaço e conforto no segmento, existem alternativas mais fortes. Mas se procura um elétrico eficiente para as rotinas diárias e que, ao mesmo tempo, dê prazer de condução, continue por aqui: o Renault 5 foi o elétrico mais divertido que conduzi até hoje, e isso não está em discussão.

Uma «cara bonita»

Começam a aparecer Renault 5 com mais regularidade nas estradas - e é quase impossível não dar por eles. Mesmo no azul escuro da unidade que testei (que, sinceramente, está longe de ser a cor mais feliz), é um carro que não passa despercebido.

As jantes de 18″ - de série em todas as versões -, a faixa dourada no tejadilho e os grafismos “5” repetidos em vários pontos fazem a ponte com o passado, ao mesmo tempo que constroem uma personalidade própria e fácil de reconhecer.

Espaço? Falta um pouco, sim

As proporções robustas e os traços angulosos podem enganar, porque o fazem parecer maior do que é. Em comparação, é 13,1 cm mais curto do que o «irmão» Renault Clio, 2,4 cm mais estreito e tem uma distância entre eixos 4,3 cm inferior.

No papel, isto pode soar a detalhe; no mundo real, sente-se. E aqui chegamos ao principal “calcanhar de Aquiles” do Renault 5: a habitabilidade. Se tiver mais de 1,75 m, ir atrás significa encostar os joelhos aos bancos da frente e ficar com pouca folga para a cabeça. Ainda assim, continua a ser possível transportar quatro adultos.

Na bagageira, sem ser referência, está alinhado com a média. Os 277 litros chegam bem para o dia a dia e batem os 210 litros do MINI Cooper E ou os 265 litros do Peugeot e-208, por exemplo.

Inspirado no passado, mas com tecnologia atual

Ultrapassada a questão do espaço, vale a pena olhar para os pontos fortes do R5 - e há vários. Logo à partida, os bancos: na unidade ensaiada destacavam-se pelo tecido amarelo e por um desenho inspirado nos do Renault 5 Turbo original.

Os painéis das portas seguem a mesma abordagem em termos de material, enquanto o tabliê - nesta versão mais equipada - surge forrado a pele sintética. No resto do habitáculo há os plásticos duros típicos deste tipo de proposta, mas a montagem está bem conseguida e, acima de tudo, ficam muito bem disfarçados.

Também por dentro, este modelo faz questão de exibir o nome que herdou, com inúmeros “5” espalhados pelo interior. O meu favorito é o que aparece no tabliê: pode iluminar-se e até mudar de cor, dando um toque mais pessoal.

Dito isto, a ligação ao passado (pelo menos no interior) fica praticamente por aqui. Tal como referi acima, a Renault soube equilibrar retro e modernidade, e isso torna-se óbvio ao volante, com dois ecrãs de 10″: um para o painel de instrumentos e outro para o sistema de infoentretenimento.

Ponto muito positivo para este último, que - como tem sido norma nos modelos mais recentes da marca - assenta em Google e se revela especialmente intuitivo e simples de usar. Logo abaixo, há um conjunto de botões físicos, mantendo-se os comandos do ar condicionado - e ainda bem.

Um «brinquedo» para adultos

Se o formato compacto do Renault 5 não ajuda na habitabilidade, é na estrada que o cenário muda por completo. Bastam poucos quilómetros para perceber que este elétrico é muito mais do que uma «cara bonita».

O que mais me apanhou de surpresa foi quantas vezes dei comigo a sorrir. A forma como este pequeno «brinquedo» enfrenta estradas sinuosas, aliada à estabilidade com que tudo acontece, deixa-nos a «chorar por mais», tal é o prazer ao volante.

A direção é rápida e precisa, com o peso certo consoante o contexto. Se no modo Eco pode parecer leve em demasia, nos modos Conforto e Sport oferece sensações mais agradáveis e torna a condução do Renault 5 mais envolvente e divertida.

Somam-se ainda as retomas imediatas - típicas dos 100% elétricos - e o tato firme do pedal de travão, que ajudam a transformar o Renault 5 num verdadeiro «brinquedo» para adultos. E, como se isso não chegasse, fica sempre a sensação de querer mais: convida-nos a continuar, a aproveitar cada curva e a gastar até ao último eletrão da bateria.

Para isso contribui muito a suspensão independente (nos dois eixos), com uma firmeza pouco comum neste tipo de proposta, que lhe dá uma agilidade e uma estabilidade surpreendentes, mesmo a ritmos mais elevados. Ainda assim, não sacrifica o conforto quando o piso piora.

Potência mais do que suficiente

Se abrandarmos e escolhermos o modo Eco, o Renault 5 mostra uma capacidade notável de baixar o nosso ritmo - e também os consumos. Nesse cenário, a entrega de potência torna-se mais linear, e a condução em cidade ganha um lado sereno.

E já que falamos de potência, o R5 existe com 70 kW (95 cv), 90 kW (122 cv) e 110 kW (150 cv), e foi precisamente esta última que testei. Apesar de não parecer um número “emocionante”, nunca senti falta de força para deslocar os mais de 1500 kg deste modelo.

Para ter uma referência, o 0 aos 100 km/h faz-se em 8s, o que chega para nos colar ao banco… ainda que por pouco tempo. Já a velocidade máxima está limitada aos 150 km/h, seja qual for a versão.

E a autonomia?

O Renault 5 com que convivi estava equipado com a bateria de maior capacidade (52 kWh), com autonomia anunciada de até 410 km (ciclo WLTP).

Nos consumos, a marca aponta cerca de 15 kWh/100 km, mas no dia a dia é relativamente simples ficar abaixo desse valor, graças à eficiência do sistema elétrico. Ajuda bastante a travagem regenerativa que, apesar de não ser ajustável, permite conduzir grande parte do tempo recorrendo apenas ao pedal do acelerador.

Depois de mais de 300 km percorridos, terminei o ensaio com uma média a rondar os 14 kWh/100 km - um número que surpreende, sobretudo tendo em conta as vezes em que não fui meigo com o pedal da direita.

Na prática, isto traduz-se numa autonomia real que acompanha o que a marca anuncia, principalmente em ambiente urbano. Em vias rápidas e autoestradas, como é habitual nas propostas 100% elétricas, os consumos aumentam e a autonomia diminui.

Quanto custa?

O novo Renault 5 começa nos 24 900 euros, embora a unidade que testei estivesse (bem) acima desse patamar.

Com o nível de equipamento Iconic Cinq - um dos mais completos da gama -, o valor base sobe para os 35 mil euros, mas com todos os opcionais que trazia, o preço final da unidade ensaiada fica em praticamente 38 mil euros.

Não é o preço mais agressivo, mas a verdade é que a concorrência também não faz melhor. Basta olhar para o MINI Cooper E, disponível a partir dos 33 mil euros, mas com menos 105 km de autonomia, ou para o Peugeot E-208 que, na versão GT, começa nos 35 mil euros.

No fim, acaba por ser uma questão de prioridades. Se o que procura é versatilidade, espaço e conforto, há modelos no mercado mais adequados a esse papel.

Mas se o coração pesar tanto como a razão, e se o estilo retro do Renault 5 lhe arrancar um sorriso, então a decisão torna-se simples. Este pequeno elétrico junta utilidade e emoção como poucos. Duvido que exista outra proposta tão divertida, carismática e cativante como este «brinquedo» francês.

Especificações técnicas

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário