Saltar para o conteúdo

Wopke Hoekstra em Lisboa: descarbonização, dependência energética e agenda climática

Homem de fato a analisar mapa na varanda de prédio com vista para telhados e elétrico em Lisboa.

Há muito que passou o tempo em que as palavras de figuras públicas neerlandesas faziam Portugal sobressaltar. Quase dez anos depois de Jeroen Dijsselbloem, então presidente do Eurogrupo, ter apontado o dedo à indisciplina orçamental do sul da Europa - acusando esses países de gastarem em “copos e mulheres” -, é improvável que outro compatriota volte a deixar uma marca semelhante por cá. E, pelo que se percebe, essa fama também não parece estar nos planos de Wopke Hoekstra, que em 2017 sucedeu a Dijsselbloem como ministro das Finanças dos Países Baixos.

Wopke Hoekstra em Lisboa e a descarbonização

Hoekstra, atualmente comissário europeu do Clima, chega esta segunda-feira a Lisboa para dois dias de trabalho centrados na descarbonização.

A agenda começa com um encontro com indústrias de consumo intensivo de energia, para discutir a passagem para energias limpas e a competitividade da União Europeia. Na terça-feira, o comissário reúne-se com a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, e segue até Setúbal, onde visitará um projeto da Navigator apoiado por fundos europeus.

A passagem do comissário europeu do Clima por Portugal pode, no final, reduzir-se a uma nota de rodapé. Ainda assim, o tema que o traz não é marginal na política nacional. Há poucos dias, Maria da Graça Carvalho assumiu como meta cortar para metade a dependência energética portuguesa do exterior - um objetivo com efeitos em várias frentes: baixar a fatura energética, reduzir emissões de dióxido de carbono e reforçar a autonomia do país. A Agência Internacional de Energia já elogiou o esforço de Portugal, mas entende que ainda existe margem para ir mais longe.

Agenda climática, dependência energética e escolhas difíceis

No último sábado, um debate especialmente vivo na SIC Notícias - com Nuno Ribeiro da Silva, João Galamba, Pedro Sampaio Nunes e Clemente Pedro Nunes - mostrou bem que não há uma solução única e indiscutível para a transição climática e para a redução da dependência energética. Ao mesmo tempo, ficou clara a convergência num ponto: é preciso avançar.

A urgência liga-se diretamente ao clima: dois terços das emissões de CO2 de Portugal vêm da energia e os transportes representam mais de metade dessa fatia (ou seja, 34% das emissões totais).

Nos últimos anos, Portugal conseguiu abandonar com sucesso a produção de eletricidade a partir do carvão. Mas descarbonizar a economia portuguesa exigirá decisões difíceis, muito para lá do reforço das renováveis no sistema elétrico - até porque a eletricidade representa apenas um quarto do consumo de energia final.

Para reduzir emissões de forma relevante, será necessário atuar na indústria (por exemplo, substituindo gás natural por biometano ou hidrogénio verde) e também nos transportes (os incentivos aos veículos elétricos ajudam, mas será determinante conseguir reduzir CO2 no transporte pesado). Paralelamente, a gestão do território não pode ficar para trás: os milhões de árvores derrubadas pelas tempestades do início do ano aumentaram o risco de incêndios e, com o verão à porta, continua a existir muito material combustível por remover - como pode ler no Expresso, num dos vários textos publicados na última edição sobre os 100 dias da passagem de “Kristin” pela região de Leiria (se ainda não acompanhou essa série, esta reportagem é um excelente ponto de partida).

O debate sobre alterações climáticas tende, com frequência, a aquecer rapidamente. No sábado, Pedro Santa Clara, professor de Finanças da Nova SBE e fundador do Instituto Mais Liberdade, publicou um texto (disponível na rede social X) com o título “Os meus problemas com a agenda climática”, onde criticou a condução “alarmista, pouco democrática, economicamente irracional e desequilibrada” dessa agenda. Pedro Santa Clara questiona o impacto de uma desindustrialização acelerada na Europa e avisa que “os veículos elétricos não são tão maravilhosos como se pensa”. Defende, além disso, que “uma política racional exige uma análise custo-benefício” e alerta para o risco de, na Europa, se desviarem recursos valiosos da saúde para investimentos com “impacto marginal” nas emissões globais de CO2, atendendo ao peso relativamente reduzido do continente nessas emissões.

Entrevistado pelo “Público” esta segunda-feira, o comissário europeu do Clima sublinha que “a Europa está a aquecer duas vezes mais depressa do que o planeta em geral, pelo que sofremos uma parte desproporcional do desastre”. “A Europa é responsável por apenas 6% das emissões globais, pelo que 94% das emissões ocorrem noutras regiões. No entanto, nós temos um incentivo para que os outros façam mais, porque somos extremamente vulneráveis. Esta é simplesmente a realidade complexa com que nos deparamos”, afirma Wopke Hoekstra, na véspera de visitar Portugal.

As políticas públicas são, por natureza, discutíveis. E é saudável que, de tempos a tempos, surjam choques - sobre clima ou sobre outros assuntos. A discussão intensa pode ser produtiva. E tão importante quanto ela é perceber que a digitalização acelerada e imparável da sociedade nos obriga a olhar para as suas consequências.

Digitalização, datacenters e energia: o caso de Sines

Há dias, assinalávamos o tema da soberania digital… mas como compatibilizar o consumo energético elevado dos centros de dados com a redução de emissões? O trabalho remoto, a comodidade das compras online, a organização do quotidiano com o smartphone na mão e o uso crescente de ferramentas de inteligência artificial transformaram a vida diária. Este novo padrão de vida exige volumes enormes de dados e capacidade de processamento. Precisaremos de mais datacenters. E de mais capacidade para produzir e transportar a eletricidade que os vai alimentar.

Portugal, com potencial relevante em energias limpas, pode integrar esta dinâmica, captando investimento e gerando algum emprego e novas competências - e, na verdade, já o está a fazer, como mostra a expansão do centro de dados de Sines (que Philippe Sachs e Maria Saraiva, da Nscale, enquadram num artigo). Mas as externalidades da agenda digital e climática acabam sempre por cair no quintal de alguém. Cinco anos após António Costa ter apadrinhado o arranque do centro de dados, o projeto vai consumindo muitos milhões dos investidores da Start Campus, enquanto o Ministério Público vai mantendo em lume brando a Operação Influencer. Sobre o tema, o Chega já anunciou querer uma comissão de inquérito, apesar da oposição do PSD. Também no Parlamento o clima promete subir de temperatura.

OUTRAS NOTÍCIAS:

  • Impostos. A EDP assegura que, para já, não vai pagar impostos associados à venda de barragens ao grupo francês Engie quando a Autoridade Tributária avançar com a cobrança de €335 milhões. A empresa optará por contestar judicialmente as liquidações e esperar por decisão do tribunal.
  • Trabalho. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, atacou este domingo os “sindicatos do século XX” e, a propósito da reforma laboral, defendeu que o país precisa de “sindicalistas com arrojo”.
  • PCP. O Partido Comunista reagiu à morte de Carlos Brito com uma nota breve, publicada “a pedido de vários órgãos de comunicação social”, segundo o PCP. A posição será testada quando for a votos um voto de pesar proposto pelo Bloco de Esquerda.
  • Ucrânia. Vladimir Putin disse este fim de semana que a guerra na Ucrânia “está a chegar ao fim”. Ainda assim, a Rússia acusou este domingo a Ucrânia de voltar a violar a trégua, enquanto Kiev denunciou que ataques de drones russos feriram sete pessoas, incluindo uma criança.
  • Médio Oriente. O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o Irão se ri “há décadas” dos Estados Unidos, prometendo que isso não continuará por muito mais tempo, e considerou “totalmente inaceitável” a posição iraniana para pôr termo à guerra no Médio Oriente.
  • Hantavírus. Termina esta segunda-feira o repatriamento dos passageiros do cruzeiro MV Hondius, onde foi detetado um surto de hantavírus. Um investigador da Universidade da Califórnia considerou o surto “uma espécie de alerta” para a investigação científica. Ficam também uma dezena de perguntas e respostas sobre este caso.
  • Desporto. Na penúltima jornada do campeonato, o já campeão Futebol Clube do Porto perdeu com o último classificado. No mesmo domingo, os “azuis e brancos” conquistaram o título de campeões europeus de hóquei em patins, e o Sporting tornou-se campeão europeu de futsal.
  • Sismo. Um abalo de 4,6 na escala de Richter foi sentido este domingo na ilha de São Jorge, nos Açores, provocando uma derrocada na via de acesso à Fajã dos Cubres.

FRASES:

“Precisamos de políticos com arrojo, de empresários com arrojo, de sindicalistas com arrojo”

Luís Montenegro, primeiro-ministro, num discurso este domingo em Porto de Mós

“Isto não é uma democracia, é uma oligarquia tecnológica”

Francesca Bria, economista, em entrevista à agência Lusa, sobre a concentração de poder nas grandes plataformas tecnológicas

“Acho que isto está a chegar ao fim, mas a situação continua grave”

Vladimir Putin, presidente da Rússia, em declarações este fim-de-semana sobre a guerra com a Ucrânia

“Não reinarei sobre a Hungria”

Péter Magyar, novo primeiro-ministro húngaro, ao prometer este sábado servir o país mas não governar como um monarca

PODCASTS:

  • Expresso da Manhã. O Partido Trabalhista sofreu derrotas pesadas em Inglaterra, Escócia e País de Gales, perdendo terreno para outros partidos, tanto à esquerda como à direita. Paulo Baldaia e Pedro Cordeiro analisam a política britânica.
  • O Mundo a Seus Pés. As eleições locais no Reino Unido também dominam o episódio mais recente do podcast do Expresso dedicado à atualidade internacional. Oiça aqui.
  • O CEO é o Limite. Na semana em que lança o novo livro sobre liderança, “Amanhã à mesma hora”, o maestro Martim Sousa Tavares é o convidado do episódio desta segunda-feira, numa conversa sobre liderança, erro, ego e trabalho coletivo, que pode ouvir aqui.
  • Contas Poupança. Pedro Andersson explica o que milhares de pessoas com incapacidade (por doença oncológica ou outras situações clínicas) devem fazer para tentar recuperar benefícios fiscais e apoios perdidos após a reavaliação do atestado médico de incapacidade multiuso.

O QUE ANDO A LER:

“Herscht 07769”, de László Krasznahorkai (edição Cavalo de Ferro)

Comecei “Herscht 07769”, um romance escrito num único parágrafo ao longo de todo o livro, que acompanha Florian Herscht, residente na região alemã da Turíngia, decidido a escrever uma carta à chanceler Angela Merkel sobre uma ameaça ao país e à humanidade. É um livro de 2021 do escritor húngaro László Krasznahorkai, distinguido com o Nobel da Literatura no ano passado.

E por aqui se fica este Expresso Curto. Acompanhe o essencial da atualidade na edição digital do Expresso. Votos de uma boa semana!

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário