Não, o que surge aqui não é um novo V12 da Ferrari. O desenho mostra, na verdade, dois motores de seis cilindros em linha que, vistos de cima, parecem formar um “V” - e que só comunicam entre si através do sistema de escape.
E também não estamos perante um bloco em “V” convencional, em que duas bancadas partilham a mesma cambota. São duas unidades separadas, fisicamente distintas. Além disso, nenhum destes motores está ligado às rodas, já que não existe qualquer transmissão.
O que revela a patente da Ferrari
O que esta patente da Ferrari descreve é um híbrido em série: os motores a combustão trabalham apenas como geradores de electricidade. Essa energia é enviada para a bateria, onde fica armazenada, e é depois usada para alimentar os motores eléctricos de tracção - os únicos que, de facto, fazem mover as rodas.
A Ferrari acaba por apontar para um de dois caminhos: ou um eléctrico com extensor de autonomia (EREV), tal como já é comum em várias marcas chinesas; ou, atendendo ao “poder de fogo” do sistema (dois motores), uma abordagem próxima do e-Power da Nissan. A diferença central entre as duas soluções está na dimensão da bateria. Num EREV, a bateria é grande e permite uma autonomia eléctrica acima de 100 km; no e-Power, a bateria é muito pequena, o que obriga o motor a combustão a intervir praticamente de forma contínua.
Tudo indica que a intenção se aproxima mais desta segunda opção. A própria patente deixa pistas bastante directas: “a função do sistema de armazenamento é armazenar energia elétrica gerada pelos motores elétricos durante a travagem regenerativa e, se necessário, também a energia elétrica (ocasional) gerada em excesso pelos dois geradores”.
Ainda assim, é difícil recordar um sistema com este grau de complexidade - e muito menos um V12 “desmontado” desta forma.
Há lógica na loucura
À primeira vista, quase tudo neste desenho parece improvável, mas faz sentido quando se olha com atenção. Começa pela localização e orientação dos dois motores. Eles compõem o tal “V” (visto de cima), e a Ferrari sugere um ângulo preferível entre 20º e 30º - algo que se torna mais coerente quando imaginamos o conjunto instalado num automóvel. Ao mesmo tempo, os motores estão montados com orientações opostas.
Segundo a descrição da patente, cada bloco tem o seu próprio gerador eléctrico. Porém, para evitar conflitos de espaço entre os dois geradores, a Ferrari propõe uma solução pouco habitual: um motor fica orientado para a frente e o outro para trás.
Há ainda outra característica invulgar. Por existirem dois motores, o sistema pode geri-los de forma independente. Assim, podem funcionar sincronizados, como se fossem um único V12, ou fora de fase, criando assinaturas sonoras diferentes. Ou seja, este híbrido pode aproximar-se do som de um V12, apesar de o fazer por um caminho totalmente distinto.
O escape partilhado também não serve apenas para poupar espaço (um escape ocupa menos do que dois). Um conjunto de válvulas comanda a ligação entre os dois motores, ajudando a optimizar o fluxo dos gases e a manter o catalisador na temperatura ideal, mesmo quando apenas um dos motores está a trabalhar.
Receita para o futuro?
O que esta patente sugere é uma cadeia cinemática pensada para os supercarros do futuro: um híbrido em série com os motores colocados em posição central traseira, de modo a manter uma distribuição de massas semelhante à dos supercarros a combustão da marca, com o motor instalado atrás dos ocupantes.
Fica, no entanto, a questão: não seria mais simples usar apenas um V12 como gerador? Para a Ferrari ter chegado a uma solução tão fora do padrão, é razoável assumir que terá identificado mais benefícios do que compromissos ao trocar um motor grande por dois motores mais compactos. Além disso, a possibilidade de operarem em separado deverá ajudar nas emissões de CO2 em cenários de condução moderada.
Como é habitual, o registo de uma patente não significa, por si só, que a Ferrari esteja a desenvolver um supercarro híbrido em série. As marcas patenteiam ideias com frequência e muitas nunca passam do papel.
Ainda assim, é difícil negar que a Ferrari procura activamente caminhos para preservar o carácter distinto e mecânico dos seus supercarros - onde reside uma parte relevante da imagem de marca - num contexto em que a pressão para baixar emissões não parece abrandar.
Já vimos patentes da Ferrari em que o motor surgia invertido e os pistões cilíndricos davam lugar a pistões ovais. Agora, manter vivo o V12 que sempre a definiu pode exigir algo que, há poucos anos, pareceria impensável: desmontá-lo por completo.
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