Até à entrada do século XXI, a Porsche não era, de todo, uma marca conhecida por números de produção gigantescos.
Na verdade, até sensivelmente a meio dos anos 90, o universo Porsche girava quase todo em torno do lendário 911 e de mais alguns modelos - surgiam e desapareciam a um ritmo quase tão rápido quanto eram fabricados.
Isto, claro, sem pôr em causa o percurso desportivo da casa: falar de Porsche e ignorar o desporto motorizado roça o pecado.
Dominadora nas pistas, a verdade é que só com a chegada do Cayenne (um capítulo que merece ser contado noutro artigo) é que a marca começou a vencer, a sério, as «corridas» do ponto de vista financeiro. Até aí, uma parte das receitas dependia também de trabalhos externos, projectos e colaborações com outros construtores.
E essa ligação a projectos para terceiros é antiga: remonta a 1931. Ou seja, começou ainda antes de existir a Porsche como fabricante de automóveis. Convém lembrar que o primeiro modelo totalmente Porsche foi o 356, apresentado em 1948.
No capítulo das parcerias e dos modelos com assinatura da Porsche, há vários exemplos que vale a pena recordar: o Volkswagen Carocha, o Lada Samara (sim, um Lada!), a primeira geração do Ibiza (quem não se lembra do «Sistema Porsche»), o Audi RS2, o VW-Porsche 914 e até a primeira geração do Opel Zafira, entre outros.
Fora de tema: sabiam que o primeiro motor da Harley-Davidson arrefecido a líquido foi desenvolvido pela Porsche?
Mas hoje não é sobre nenhum destes que queremos falar. Como já perceberam pelas imagens, o protagonista é o Mercedes-Benz 500 E.
Porsche e Mercedes-Benz juntas? E a AMG?!
A AMG existe desde 1967 - e, à data da publicação original deste artigo, celebrava 50 anos de história. Ainda assim, só em 1999 é que a Daimler, dona da Mercedes-Benz, decidiu ficar com o controlo da preparadora.
E a aquisição total só chegou mais tarde: foi preciso esperar até 2005 para a Daimler comprar 100% do capital da AMG e assumir, em definitivo, o comando absoluto da casa de Affalterbach.
Até se consumar esse «casamento» entre AMG e Mercedes-Benz, a marca de Estugarda teve outros casos… nomeadamente com a Porsche. Sim, com a Porsche - a «rapariga do lado», na versão para quem vive a gasolina.
Como assim?
As duas marcas chegaram mesmo a partilhar «casa» - isto é, instalações de produção. O palco desta relação improvável foi a unidade Rossle-Bau, em Zuffenhausen, pertencente à Porsche. Mas vamos por partes.
No início dos anos 90, a Mercedes-Benz concluiu que precisava de uma versão mais desportiva do W124.
Nessa altura, o BMW M5 já seguia na 2.ª geração (E34) e apresentava uns respeitáveis 315 cv, retirados de um seis cilindros em linha com 3.5 l. A Mercedes não podia assistir a isto de braços cruzados.
Com a fábrica de Sindelfingen sem capacidade de resposta - dada a pressão das encomendas do W124 - a Mercedes-Benz encontrou na Porsche o parceiro certo para desenvolver e produzir o modelo que acabaria por se chamar Mercedes-Benz 500 E.
No essencial, falamos de uma «super-berlina» com bancos Recaro, suspensão desportiva e um visual discreto, mas com um 5.0 V8 capaz de debitar 326 cv. A velocidade máxima era de 270 km/h (sem limitador) e o 0-100 km/h ficava feito em apenas seis segundos.
E voltando à AMG: na época, a preparadora alemã não tinha recursos humanos nem meios técnicos para um projecto com esta dimensão.
A AMG podia ter olhado para o 500 E como um «filho bastardo» da Mercedes, mas aconteceu exactamente o contrário: em Affalterbach, o 500 E foi acolhido de braços abertos.
Além de ter saído das mãos da Porsche, o 500 E recebeu também um ligeiro «toque Porsche».
As cavas das rodas cresceram para acomodar mais borracha, o túnel de transmissão foi alargado, a suspensão foi revista e, inclusivamente, alguns painéis da carroçaria acabaram reforçados. Quem conduziu o 400 E garante que as diferenças para o 500 E iam bem além da estética e da potência.
Por isso, se quisermos ser rigorosos (ou picuinhas…), dá para defender que a primeira berlina produzida pela Porsche não foi o Panamera… foi o Mercedes-Benz 500 E!
Qualidade artesanal
Estes «namoros de verão» quase nunca acabam bem - embora, por vezes, deixem uma boa memória, como foi o caso.
As carroçarias do W124 saíam de Sindelfingen (a unidade industrial mais antiga da Mercedes-Benz) e seguiam para a Rossle-Bau, onde eram alteradas - precisamente a fábrica onde funcionava a linha de produção do extinto Porsche 959.
O contrato apontava para 2400 unidades por ano, sempre sob padrões de elevada qualidade artesanal. Conseguem imaginar os Mercedes-Benz 500 E lado a lado com os Porsche?
Tal como no 959, a linha do 500 E assentava em plataformas rolantes empurradas à mão. E, na maioria dos casos, as soldaduras também eram feitas sem recorrer a máquinas.
O resultado é simples de explicar: não existiam dois 500 E exactamente iguais. Havia sempre pequenas variações no alinhamento dos painéis da carroçaria.
É precisamente este método artesanal que ajuda a justificar o valor especial atribuído ao 500 E. Desde então, mais nenhum Mercedes-Benz voltou a ser construído desta forma.
Um pesadelo logístico
Depois de concluída a primeira fase de alterações às carroçarias, um camião de transporte especial levava-as de novo para Sindelfingen, onde recebiam o tratamento de pintura e galvanização.
Terminada a pintura… lá ia mais uma viagem para a Rossle-Bau, desta vez para a montagem final. Mas a peregrinação ainda não ficava por aqui.
Após a montagem final, seguia-se outra deslocação até Sindelfingen, onde todas as unidades passavam por uma inspecção final. No total, todo este processo arrastava-se por uns penosos 18 dias.
Como já foi dito, o produto final ficou na memória - mas o caminho era um verdadeiro pesadelo logístico. Tudo indica que terá sido o primeiro e o último modelo nascido de uma parceria deste tipo.
Até hoje, Porsche e Mercedes-Benz nunca mais voltaram a partilhar um projecto com esta dimensão. Foi um caso único, que deu origem a 10 479 unidades. Um namoro de verão muito intenso.
Os telhados de vidro da AMG
Nesta autêntica «novela mexicana» movida a gasolina, a AMG também tem telhados de vidro…
Nos anos 80, a preparadora alemã afastou-se por momentos da Mercedes-Benz e perdeu-se de amores por uma jovem japonesa chamada Mitsubishi - e que romance foi esse…
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