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Donald Trump sai de Pequim sem comunicado conjunto com Xi Jinping e deixa incertezas sobre Taiwan

Líderes de Estados Unidos e China em reunião, com mapa estendido sobre mesa e bandeiras em destaque.

Terminou a coreografia diplomática entre os Presidentes dos Estados Unidos da América (EUA) e da China. Apesar do tom optimista nas declarações públicas, a passagem de Donald Trump por Pequim fechou sem comunicados conjuntos com Xi Jinping e sem prolongamento das tréguas acordadas em outubro. No final, ficou também no ar uma nova dose de incerteza sobre a forma como Washington se posiciona relativamente a Taiwan.

Numa matéria particularmente sensível, o Presidente dos EUA preservou a habitual ambiguidade estratégica quanto ao que fará se a China entrar em guerra com Taiwan, mas admitiu aceitar conversas sobre a venda de armas à ilha. “Vou tomar uma decisão num curto prazo”, afirmou, referindo-se a um acordo de 14 mil milhões de dólares [12 mil milhões de euros]”.

As palavras de Trump surgiram depois de Xi ter avisado que uma gestão errada do dossier taiwanês poderia empurrar China e EUA para “confrontos e até conflitos, pondo toda a relação em grande risco”.

William Hurst, codiretor do Centro para a Geopolítica da Universidade de Cambridge, lembra que, noutras ocasiões, Washington chegou a adiar vendas de armas a Taiwan numa “espécie de cedência à China”. Ainda assim, sublinha que “a ideia de que possam realmente rever isso ou não o fazer seria uma cedência muito mais séria do que a que foi feita anteriormente e, de certa forma, desproporcional às cedências económicas obtidas da China nesta viagem”.

O académico ressalva, no entanto, que o desfecho permanece incerto. Embora as concessões económicas debatidas em público pareçam “bastante pequenas”, admite que “pode haver algo mais por vir”.

Já Kelly Grieco, investigadora do Programa Reimaginar a Grande Estratégia dos EUA, do centro de estudos Stimson Center, sustenta que “não houve mudança na política” norte-americana face a Taiwan. E procura afastar apreensões: “O Presidente Trump compreende que é uma fonte de influência”.

“Penso que este é um exemplo em que Trump pode dizer algo para soar conciliador com o Presidente Xi, mas isso não significa que vá haver uma diferença substancial”, acrescenta Grieco.

Em Taipé, as declarações de Trump dificilmente permitirão um verdadeiro alívio. “Embora possa tratar-se de técnicas de negociação únicas do Presidente Trump, esta concessão retórica pública constitui uma violação substancial da segunda das Seis Garantias de 1982”, comenta Pei-Shiue Hsieh, investigador associado do Instituto de Investigação em Defesa Nacional e Segurança taiwanês, em conversa com o Expresso.

Compromissos históricos sobre Taiwan

Em 1982, o então Presidente norte-americano Ronald Reagan transmitiu a Taiwan as “seis garantias”, um conjunto de pontos que delimita o que não ficou acordado nas negociações com a República Popular da China, país com o qual Washington tinha passado a manter relações diplomáticas oficiais. Entre essas garantias estão duas directamente ligadas ao armamento: não foi fixada qualquer data para terminar o envio de armas para Taiwan e não foi assumido que existiriam consultas prévias com Pequim antes de vendas de armas à ilha.

Existe ainda outro texto-chave nas relações entre Washington e Taipé com implicações na área militar. A Lei das Relações com Taiwan define que a política dos EUA passa por fornecer a Taiwan armamento de natureza defensiva e por o disponibilizar em quantidade suficiente para que a ilha consiga assegurar a sua própria defesa. Ao mesmo tempo, reserva para os EUA o direito de resistir a qualquer recurso à força, ou a formas de coerção, que coloquem em causa a segurança da população taiwanesa.

Para Pei-Shiue Hsieh, houve “controlo de danos” por parte do secretário de Estado norte-americano (equivalente a ministro dos Negócios Estrangeiros), quando afirmou à NBC News que a política dos EUA relativamente a Taiwan “se mantém inalterada”. Na leitura do especialista, o facto de Taiwan não ter sido mencionada nos comunicados da Casa Branca sobre reuniões à porta fechada traduz uma “manobra diplomática” destinada a sinalizar ao exterior que “da perspetiva do aparato institucional dos EUA, a questão de Taiwan continua uma linha inegociável”.

Ainda assim, considera que a deslocação de Trump tem peso para Taiwan. “A incerteza diplomática gerada pela cimeira de Pequim teve impacto negativo na já crítica crise do processo de aquisição de defesa de Taiwan. As forças armadas taiwanesas estão a passar pela transição dolorosa, mas crucial, para uma estratégia de ‘guerra assimétrica’, uma mudança que está a ser duplamente dificultada por graves atrasos na entrega de armas dos EUA e a devastadora paralisia política em Taipé”, escreveu.

Entretanto, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Taiwan divulgou um comunicado onde sublinha que a venda de armas à ilha representa um compromisso de segurança e um mecanismo de dissuasão colectiva perante ameaças regionais. No mesmo texto, agradece a Trump o apoio dado à segurança no estreito de Taiwan desde o seu primeiro mandato, noticiou o jornal “Taipei Times”.

Ja Ian Chong, professor associado de Ciência Política na Universidade Nacional de Singapura, chamou a atenção para a postura de Pequim. “Curiosamente, a República Popular da China sempre considerou Taiwan uma questão ‘interna’. No entanto, tenta agora que uma parte externa, os EUA, tomem algum tipo de ação. Isto sugere que Taiwan não é uma questão tão ‘interna’ quanto Pequim gostaria”, escreveu numa resposta ao Expresso, anterior às declarações de Trump à saída de Pequim.

A procura de um “caminho mais estável”

Para Grieco, as expectativas sobre resultados concretos eram “bastante baixas”. “Diria que o propósito real [da visita] parece ter sido os dois líderes encontrarem-se, continuarem a dialogar e mostrarem que as relações EUA-China estão a avançar num caminho mais estável”, afirma ao Expresso.

Do ponto de vista chinês, considera que o maior ganho foi ver o Presidente dos EUA tratar Xi como “um par”. “É algo que a China quer há muito tempo, ter os EUA a reconhecerem isso em público, ser vista dessa forma”, observa.

De acordo com um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, o Presidente chinês qualificou a visita de Trump como “histórica” e referiu que ambos alcançaram “importantes entendimentos comuns sobre manter os laços económicos e comerciais estáveis”. Já o Presidente norte-americano disse que “os dois lados concordaram em muitas coisas, fizeram muitos acordos e resolveram várias questões”, descrevendo Xi como “um amigo antigo” por quem sente “muito respeito”.

Amigos amigos, negócios à parte

Apesar da retórica cordial, a visita não produziu a extensão da trégua na guerra comercial acordada em outubro, uma vez que Trump revelou que as negociações não abrangeram discussões sobre tarifas. A Casa Branca indicou que Xi “expressou interesse em comprar mais petróleo aos EUA para reduzir a dependência da China do estreito no futuro” e que os dois líderes abordaram o aumento de compras chinesas de produtos agrícolas norte-americanos.

Em declarações separadas, Trump afirmou ter alcançado com Xi “alguns acordos comerciais fantásticos” e que a China concordou em comprar 200 aviões Boeing. Nenhuma destas hipóteses foi confirmada publicamente por Pequim.

A estadia de Trump ocorreu num contexto de guerra no Irão - que o Presidente dos EUA iniciou e à qual ainda não conseguiu pôr termo -, pelo que se antecipava que o tema entrasse na agenda, a par de Taiwan e da competição tecnológica. Sobre o Irão, Trump afirmou que a China está “firmemente convencida” de que Teerão não deve possuir armas nucleares e que quer a reabertura do estreito de Ormuz. O líder norte-americano disse estar disponível para um acordo de paz em que Teerão suspendesse o seu programa nuclear durante 20 anos.

Quanto a um eventual entendimento sobre a guerra no Irão, Grieco nota que “não é algo que fossem necessariamente divulgar em público”. Caso a China ajude Trump neste dossiê, explica, “é algo que seria feito de forma privada”.

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