O tratamento de doenças psiquiátricas e neurológicas - da depressão à perturbação obsessivo-compulsiva, passando por dependência de substâncias, dor crónica, Alzheimer, Parkinson e limitações motoras após um AVC, entre outras - é o foco do novo Digital Neurotherapeutics Centre (DNTx Centre), da Fundação Champalimaud, que abre portas esta sexta-feira. Para esse trabalho, o centro aposta em jogos digitais com finalidade terapêutica, ambientes imersivos do tipo realidade virtual, métodos de estimulação cerebral não invasiva e inteligência artificial para ajustar as intervenções a cada pessoa.
DNTx Centre da Fundação Champalimaud: terapias digitais e não farmacológicas
Segundo o psiquiatra Albino Oliveira-Maia, diretor do DNTx Centre e também diretor da Unidade de Neuropsiquiatria da Fundação Champalimaud, o projeto assenta sobretudo em intervenções que não recorrem a fármacos. “O centro organiza-se em torno da utilização de abordagens não farmacológicas, que representam uma grande promessa no domínio das doenças neurológicas e psiquiátricas”, afirma ao Expresso.
Além de tornar mais fácil o “acesso precoce” a terapias já existentes, mas ainda com disponibilidade limitada, o novo centro pretende igualmente funcionar como plataforma para “testar e desenvolver novas estratégias terapêuticas”.
Depressão: estimulação magnética transcraniana e novos protocolos
Na depressão, uma das técnicas a utilizar será a estimulação magnética transcraniana, que recorre a impulsos magnéticos aplicados a partir do exterior do crânio para ativar regiões específicas do cérebro. Embora a técnica já seja usada em diferentes contextos clínicos, no DNTx Centre a aplicação será feita com protocolos atualizados.
A meta, refere Albino Oliveira-Maia, é atingir um ponto particularmente relevante nesta patologia: “Obter uma resposta mais rápida”. E sublinha que, para alguns doentes, “isso é um fator crítico”.
Em paralelo, existe a intenção de avançar com outras vias terapêuticas, incluindo a investigação com psicadélicos, destinada a pessoas com depressão ou ansiedade associadas a doenças incuráveis que necessitam de cuidados paliativos.
Realidade virtual com IA
Também na perturbação obsessivo-compulsiva está prevista a utilização de estimulação magnética transcraniana. “Temos estudos em que estamos a tentar melhorar a forma como o tratamento é aplicado, procurando novos locais no cérebro onde a estimulação possa ser feita”, explica Albino Oliveira-Maia.
Ao mesmo tempo, estão em desenvolvimento “tratamentos imersivos, recorrendo à realidade virtual”, capazes de recriar contextos semelhantes aos que precipitam os sintomas. A proposta passa por aplicar, com suporte tecnológico, estratégias terapêuticas já estabelecidas: expor a pessoa de forma gradual e controlada aos estímulos que geram ansiedade, ajudando-a a evitar a repetição de comportamentos compulsivos.
Neste campo, a inteligência artificial surge como peça-chave. Enquanto em algumas fobias é relativamente simples criar cenários partilhados - “em que é relativamente simples criar cenários comuns, como um avião, uma altura ou um espaço fechado” -, na perturbação obsessivo-compulsiva, destaca, “os medos e crenças dos doentes são muito idiossincráticos”, ou seja, variam muito de pessoa para pessoa. O que é profundamente perturbador para alguém pode não ter qualquer relevância para outro doente. “Não podemos ter o mesmo molde para todos os doentes. É preciso alargar a paleta de alternativas”, afirma. Nesse sentido, a IA poderá permitir a criação, com base na descrição do próprio doente, de “ambientes realistas e com significado terapêutico” ajustados a cada caso.
Reabilitação motora pós-AVC e doenças neurodegenerativas
O DNTx Centre irá ainda acompanhar pessoas com défices motores após um AVC e doentes com patologias neurodegenerativas, como Parkinson. Aqui, a intervenção volta a apoiar-se em experiências imersivas, através de “um jogo que decorre numa sala onde os movimentos das pessoas controlam os agentes que estão nesse jogo”, descreve o diretor.
Albino Oliveira-Maia acrescenta que poderão surgir outras aplicações no futuro. “Não estamos limitados a estas áreas e doenças. Iremos trabalhar naquilo que, em cada momento, for mais promissor, tendo em conta o contexto, os recursos e as estratégias disponíveis neste centro.”
Acesso, referenciação e colaboração com outras unidades
No que toca ao acesso ao novo DNTx Centre, o responsável indica que o funcionamento deverá manter-se próximo do modelo do atual centro clínico da Fundação Champalimaud. Ainda assim, existe a ambição de abrir portas à referenciação por médicos de outros hospitais e clínicas, bem como à colaboração em projetos terapêuticos.
A prioridade é facilitar o acesso a pessoas de diferentes pontos do país, e não apenas da área de Lisboa. “Queremos permitir que, sendo acompanhado aqui ou noutro sítio, se existir aqui uma forma de tratamento que não existe noutro lugar, isso não impeça o acesso do doente”, conclui.
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