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Putin sugere Gerhard Schröder, mas europeus rejeitam mediador para diálogo com Moscovo

Cadeira vazia com placa "Mediator" numa mesa com bandeiras da Rússia e União Europeia, jornal e tablet.

Europeus recusam Gerhard Schröder como mediador com Moscovo

Vladimir Putin deixou a sugestão, mas, para as capitais europeias, está fora de hipótese aceitar o antigo chanceler alemão Gerhard Schröder como mediador de um eventual diálogo com Moscovo. À margem do encontro da diplomacia europeia, em Bruxelas, o ministro português dos Negócios Estrangeiros descartou o cenário: "Claro que é um ideia descabida".

Paulo Rangel argumenta que não faz sentido dar esse mandato a "alguém que está totalmente alinhado com o regime russo". E acrescentou, em tom irónico, que seria equivalente a pôr o ex-primeiro-ministro húngaro, "Viktor Orbán, a fazer as negociações".

A proximidade entre o Presidente russo e o antecessor de Angela Merkel na chancelaria alemã é antiga e pública. Foi Schröder quem deu luz verde ao projeto do gasoduto North Stream 1, que liga a Rússia à Alemanha, numa fase em que Berlim e outros europeus ainda viam a compra de energia a Putin como um caminho para consolidar relações pacíficas com o Kremlin. Apesar da invasão da Ucrânia, Schröder continuou a defender a necessidade de diálogo com a Rússia e, nas últimas décadas, trabalhou também para empresas estatais russas do setor energético.

A chefe da diplomacia europeia enquadrou a proposta russa nestes termos: "É evidente por que razão Putin quer que seja ele a pessoa indicada: é para que, na verdade, ele possa estar dos dois lados da mesa". Para Kaja Kallas, "não é muito inteligente" atribuir à Rússia o "direito de nomear um negociador europeu".

Também em Berlim a rejeição foi clara. O ministro dos Assuntos Europeus, Gunther Krichbauma, sublinhou que "as amizades estreitas" não justificam alguém ser "mediador" e defendeu que o percurso de Schröder não lhe permite ser visto como "mediador imparcial".

Alemanha mantém reservas sobre negociações e Moscovo

Embora aumente o número de países que admitem que a União Europeia terá, mais cedo ou mais tarde, de negociar com Putin - ou pelo menos de se sentar à mesa - a Alemanha insiste que esse momento ainda não chegou. Em Berlim, o ministro da Defesa alemão mantém fortes dúvidas sobre a real intenção de Moscovo em terminar a guerra, mesmo depois de Putin ter afirmado, este fim de semana, que o fim do conflito poderia estar perto e ter mostrado abertura para falar também com a europa.

Boris Pistorius resumiu o seu ceticismo com uma pergunta direta: "Se ele vê o fim desta guerra a aproximar-se, não poderia simplesmente pôr-lhe fim ele próprio". E acrescentou: "Há sempre o receio - espero estar enganado - de que isto seja mais uma manobra ilusória", referindo-se às conversações de paz evocadas por Putin. Pistorius lembrou ainda um padrão que, diz, se repete: "Sempre que houve negociações sobre um cessar-fogo ou a paz, ele comportou-se de forma completamente diferente do que tinha sido acordado".

Quem poderá ser o mediador europeu?

Como o Expresso tinha avançado, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, está a sondar alternativas para uma eventual reabertura de canais de diálogo com a Rússia, sobretudo depois de o Presidente ucraniano ter pedido aos líderes europeu que se preparassem para esse cenário. Paulo Rangel fala num "momentum" e considera que "há aqui sinais que abrem hipótese de se conversar e falar", apontando, entre esses sinais, o facto de Putin estar a sugerir um nome para mediador.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Estónia recorda, por sua vez, que há "instituições para representar a União Europeia" e cita como exemplo Kaja Kallas, bem como os presidentes do Conselho Europeu e da Comissão Europeia. Questionado sobre a possibilidade de Costa ser uma opção, o ministro italiano Antonio Tajani respondeu que o português "é um homem de prestígio".

Afinal, quem deve representar os interesses europeus numa eventual mesa de negociações com a Rússia - seja no quadro de uma paz para a Ucrânia, seja numa discussão mais ampla sobre o futuro das relações bilaterais com Moscovo? O processo encontra-se ainda numa fase embrionária e não existe, para já, calendário para conversações diretas. Nomear um mediador, seja um ex-governante ou um diplomata, é uma via possível, mas não a única: a tarefa poderá igualmente ser atribuída a um ou a vários líderes europeus.

Enquanto a guerra prossegue e não há diálogo, a União mantém a pressão sobre Moscovo. Os 27 aprovaram novas sanções contra 16 indivíduos e 7 entidades russas, responsabilizados pela transferência forçada de crianças ucranianas para a Rússia.

No final da reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros, em Bruxelas, Kaja Kallas afirmou: "De todos os horrores infligidos pela guerra da Rússia, o rapto de crianças ucranianas é um dos piores. O rapto de crianças constitui um ataque calculado da Rússia ao futuro da Ucrânia".

Colonos israelitas sancionados, mas Portugal pede mais

Noutro dossiê, e após meses de bloqueio, foi finalmente alcançado um entendimento para sancionar colonos israelitas violentos nos territórios ocupados da Cisjordânia. “Já era tempo de passarmos do impasse à ação. Extremismos e violência têm consequências”, disse Kaja Kallas. O acordo tornou-se viável com a mudança de governo na Hungria, até aqui o único país que travava a iniciativa, que inclui igualmente sanções a mais elementos do Hamas.

Apesar disso, continua por fechar um consenso para sancionar os ministros extremistas do Governo de Benjamin Netanyahu ou para suspender parcialmente o acordo de comércio com Israel, como defendem fários países - entre os quais Portugal, Espanha e Irlanda.

Paulo Rangel reiterou essa posição: “Também somos a favor que os dois ministros radicais fossem sancionados e que houvesse medidas comerciais mais fortes”, referindo-se ao ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, e ao ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, ambos ligados à ala ultranacionalista do executivo israelita.

Na leitura do ministro português, falta aos europeus um sinal contundente. Rangel aponta "desenvolvimentos muito negativos" nos últimos meses, não apenas pela criação de "dezenas de novos colonatos” israelitas ilegais na Cisjordânia, mas também por entender que a situação "se deteriorou muito" em Gaza e no Líbano.

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