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Impasse entre Irão e EUA com Trump mantém Ormuz sob tensão e faz subir o Brent

Dois homens sentados à mesa com mapa, telefone vermelho e barril, vista para o mar com navios ao fundo.

O Irão e os Estados Unidos da América (EUA) continuam a rejeitar, mutuamente, as propostas de paz apresentadas para pôr termo ao conflito no Médio Oriente. O bloqueio negocial mantém-se e os mercados - financeiros e energéticos - ajustam-se a essa realidade. Sem grande surpresa, o barril de Brent, referência internacional, valorizou cerca de 4%, fixando-se em torno de 105 dólares.

As declarações do Presidente norte-americano e da liderança iraniana, somadas a ataques que vão interrompendo o cessar-fogo de forma recorrente, têm alimentado a reação internacional. Donald Trump voltou a insistir que a contraproposta de Teerão é “completamente inaceitável”. Segundo informações divulgadas, o documento inclui um pedido de indemnização por danos de guerra, o fim do bloqueio norte-americano no estreito de Ormuz e a suspensão de novos ataques (isto é, o fim de todas as guerras regionais).

“É evidente que o Presidente Trump quer um acordo, e isso levou os iranianos a insistir na melhor proposta possível”, enquadra John Strawson, perito em Estudos do Médio Oriente na Universidade de East London, ao Expresso. “A oferta inclui exigências de compensação financeira e controlo do estreito de Ormuz, que sabem que não conseguirão, mas esperam que se as retirarem mais tarde, consigam um melhor acordo sobre a questão nuclear e o levantamento das sanções”. Para o investigador, as sucessivas afirmações de Trump de que a “guerra acabou” acabam por dar margem a Teerão para esticar o processo. “Os diplomatas norte-americanos devem estar frustrados com a língua solta de Trump. Entretanto, o preço do petróleo sobe, e o resto do mundo continua refém do imprevisível Presidente.”

Trump não quer abandonar exigências maximalistas…

Trump reagiu mal - e fê-lo por escrito na sua rede, a Truth Social: “Não gostei – TOTALMENTE INACEITÁVEL!” Do lado iraniano, o Presidente Masoud Pezeshkian afirmou, no domingo, também nas redes sociais, que o Irão não “curvará a cabeça perante o inimigo”. Acrescentou ainda que abrir um canal de diálogo entre Washington e Teerão “não significa rendição ou recuo”. Já esta segunda-feira, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, Esmail Baghaei, em tom provocatório, classificou a proposta iraniana como “generosa e responsável” e acusou os EUA de persistirem em “exigências descabidas”.

A irritação de Trump tem um contexto: na quarta-feira, repetiu que o Irão queria “muito chegar a um acordo”, numa altura em que Teerão dizia estar a analisar uma nova proposta de paz vinda dos EUA. Ainda assim, a República Islâmica mostrou não estar disposta a avançar para uma paz qualquer, nem a qualquer preço. Durante o fim de semana, meios iranianos noticiaram que Teerão recusou os planos norte-americanos, que, segundo o regime, equivaleriam a ceder às “exigências excessivas” do Presidente dos EUA.

“Teerão sabe que se não responder às provocações dos EUA, parecerá fraca”, sustenta James Devine, professor de Relações Internacionais na Universidade de Mount Allison, em declarações ao Expresso. “Se algum dos lados perceber que o outro está fraco, provavelmente concluirá que pode ganhar sem fazer concessões e continuará a pressionar por exigências maximalistas. É essencialmente um jogo de ‘blefe’.”

… e o Irão também não

Embora ambos os lados revelem sinais de desgaste após a guerra, nenhum parece ter uma saída clara - e, além disso, as narrativas de vitória das três partes são incompatíveis. Se Teerão insiste que os EUA devem pagar reparações de guerra e reafirma a soberania iraniana sobre o estreito de Ormuz, exigindo também o fim das sanções e o descongelamento de bens e propriedades retidos, Trump precisa de alcançar (como vários analistas têm defendido) a reposição da navegação livre numa via marítima vital para o transporte de energia e, em paralelo, limitar o programa nuclear iraniano (neste ponto, a proposta do Irão deixa um vazio deliberado).

Por seu turno, para o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, a guerra só deveria terminar quando o urânio enriquecido (restam pelo menos 440 quilogramas de urânio enriquecido até 60%, nível tecnicamente próximo dos 90% considerados como grau militar) sair fisicamente do Irão, quando as infraestruturas de enriquecimento forem desmanteladas e quando as milícias armadas e financiadas por Teerão ficarem drasticamente enfraquecidas.

Do ponto de vista interno iraniano, aceitar a entrega de todo o urânio aos EUA seria entendido como capitulação. Já Trump procura poder alegar que eliminou por completo a capacidade nuclear do Irão.

A resposta mais recente de Teerão volta a puxar o foco para as negociações de cessação de hostilidades, empurrando para mais tarde um entendimento abrangente que inclua o dossier nuclear. Porém, para os EUA, não tem sido atrativo um compromisso apenas temporário que pare a guerra e reabra, passo a passo, o estreito de Ormuz.

Mais guerra traria maior incerteza económica

Com o impasse diplomático (até a Turquia e o Catar aceitaram ajudar Islamabade, o principal mediador, a destravá-lo) e as violações sucessivas das tréguas, mantém-se a hipótese de a situação descambar. “Os EUA poderiam retomar os ataques, considerando as suas forças na região, mas provavelmente não o desejam fazer”, avalia Devine, justificando: “Antes do cessar-fogo, o conflito estava prestes a ficar fora de controlo, e provavelmente teriam sido causados ​​danos maciços à infraestrutura de exportação de energia dos seus aliados árabes no Golfo Pérsico.”

Várias figuras políticas - entre elas o senador democrata Mark Kelly, capitão da Marinha na reserva - têm alertado para o facto de os EUA estarem também com reservas perigosamente baixas de intercetores. “Há relatos de que os EUA já utilizaram quase metade do seu arsenal de intercetores do Sistema de Defesa Terminal de Alta Altitude (THAAD) e dos seus mísseis balísticos intercetores Patriot”, afirma Devine. Estes mísseis são necessários noutros teatros de operações, sobretudo no Mar do Sul da China. No cenário atual, segundo o investigador, “serão necessários anos para repor esses ‘stocks’”.

Além disso, existe uma variável doméstica incontornável. A guerra é impopular junto da maioria dos americanos e está a criar fissuras na base de apoio de Trump, o “MAGA” (movimento ‘Make America Great Again’, que terá valido a Trump a sua reeleição). Com as eleições de novembro para o Congresso no horizonte, a administração Trump precisa de reduzir a ansiedade em torno do conflito e do efeito que este tem tido na economia norte-americana.

Reacender a guerra significaria, igualmente, fechar o estreito de Ormuz por tempo indeterminado, empurrando os preços do petróleo ainda mais para cima. Por isso, os analistas acompanham com atenção a reunião desta semana entre Xi Jinping e Donald Trump. “Com a próxima cimeira EUA-China, os EUA também gostariam que a guerra terminasse, ou pelo menos estivesse sob controlo”, sublinha Devine. Caso contrário, isso limitaria a margem dos EUA para cumprir outros objetivos nas conversas e “provavelmente daria à China mais poder nas negociações”.

Testar o cessar-fogo é testar a determinação diplomática

“Há sempre a possibilidade de confrontos isolados e testes dos limites do cessar-fogo”, assinala também Osamah Khalil, historiador das relações externas dos EUA e do Médio Oriente moderno. E, acrescenta, “Israel e os Emirados Árabes Unidos podem tentar sabotar qualquer acordo, na esperança de causar danos às infraestruturas iranianas ou assassinar figuras-chave”. Porém, mesmo ações limitadas tenderão a provocar resposta de Teerão, aumentando o risco de um regresso a um conflito mais amplo.

A entrevista de Netanyahu ao programa “60 Minutes”, da CBS News, foi ilustrativa nesse sentido. O chefe do Governo israelita afirmou que quer reduzir de forma acentuada, ao longo de dez anos, o apoio militar do seu país aos EUA (dos quais Israel recebe cerca de 3,8 mil milhões de dólares, ou seja, cerca de 3,2 mil milhões de euros) e “redefinir” a ligação a Washington. Disse ainda que pretende aprofundar relações com os países do Golfo.

Israel tem beneficiado, historicamente, de um consenso bipartidário no Congresso norte-americano para assistência militar, mas esse apoio - e também o da opinião pública - tem vindo a encolher desde o início da guerra em Gaza. Nas primeiras semanas da guerra contra o Irão, o ex-negociador de paz Daniel Levy, antigo assessor do Governo israelita, avisou ao Expresso que, apesar de existir há décadas, a garantia de proteção dos EUA aos aliados árabes do Golfo estava sob pressão, sobretudo perante o cálculo de que, se o Irão colapsar, as bases de Washington podem deixar de funcionar como escudo contra operações futuras de Israel.

Nesta guerra, os EUA tiveram dificuldades em disponibilizar aos países amigos os intercetores necessários para proteger o seu espaço aéreo dos ataques iranianos. “Se os EUA conseguissem enfraquecer o Irão suficientemente, isso faria pender ainda mais a balança militar na região a favor de Israel, mas Israel quer enviar uma mensagem à região de que os Estados regionais não têm escolha senão aceitar a dominação israelita”, salientou ao Expresso.

EUA fora da região?

Apesar de muitos países do Golfo estarem “legitimamente irritados” com o Irão, estão também a “interiorizar a lição de que os EUA foram incapazes de conter Israel, apesar dos avisos árabes aos EUA sobre a necessidade de empreender uma guerra deste tipo”, explicou Levy. Na sua leitura, a médio e longo prazo, a região terá um dilema ainda mais difícil quanto à dependência da segurança americana, com pouca influência sobre o envolvimento dos EUA em guerras de agressão israelitas. “No futuro, os Estados do Conselho de Cooperação do Golfo [CCG] terão de refletir seriamente sobre a forma de gerir a sua própria segurança fora de uma estrutura israelo-americana.”

Jamie Shea - antigo vice-secretário-geral-adjunto da NATO para os Desafios Emergentes de Segurança - entende que Trump acabará por declarar vitória, alegando ter destruído as capacidades militares do Irão e os seus programas de armamento nuclear, removendo assim a ameaça que o país representa para os EUA ou para Israel. “Terá mais dificuldade em sustentar este argumento junto dos países árabes do Golfo, que continuarão a viver sob a sombra dos drones e mísseis balísticos iranianos, que Teerão ainda possui em grande número e pode facilmente produzir.”

É esta a linha que Trump tem usado há semanas, ao mesmo tempo que recua na ideia de uma mudança de regime no Irão ou na apreensão das restantes reservas de urânio enriquecido do país. “É provável que Trump se retire do Golfo, deixando os países árabes da região a lidar com o controlo iraniano sobre o estreito e podendo exercer pressão periódica sobre estes países”, analisa Shea.

Xi, está lá? Pode ajudar?

Do outro lado, Osamah Khalil chama a atenção para um impasse militar que é agravado pelo controlo continuado do Irão sobre o estreito de Ormuz e pelo bloqueio ineficaz dos EUA. “A única solução é um acordo negociado que exigirá que o Presidente Trump abandone as suas exigências maximalistas. Caso contrário, o impasse persistirá, com repercussões para a economia global.”

“Trump tentará obter a ajuda de Xi para pressionar o Irão a suspender o bloqueio do estreito de Ormuz e a ser mais flexível nas negociações nucleares”, antecipa Shea, convencido de que o ocupante da Casa Branca defenderá que a China precisa mais da energia do Golfo do que os EUA. “Provavelmente acolheria bem a mediação chinesa ou o envio de navios da Marinha chinesa para ajudar a manter o estreito aberto. Mas é pouco provável que Xi seja útil para lá dos habituais apelos chineses para uma solução pacífica para o conflito. Os chineses sabem que os EUA e Israel iniciaram a guerra contra o Irão duas vezes num ano.” Se Pequim aceitar envolver-se, é provável que exija uma compensação, como o cancelamento da venda de armas americanas a Taiwan.

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