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Dassault e Saab defendem preferência europeia face aos F-35 em Lisboa

Duas pessoas conversam diante de maquetes de aviões e ecrã gigante com jato militar e drones numa sala moderna.

No palco da sala de conferências de um hotel na região de Lisboa, sentaram-se lado a lado dois pesos-pesados europeus da indústria de defesa - potenciais rivais numa futura venda de caças à Força Aérea Portuguesa, onde os F-35 norte-americanos da Lockheed Martin surgem como o principal concorrente.

Dassault e Saab defendem preferência europeia face aos F-35

Éric Trappier, diretor executivo da Dassault Aviation, fabricante dos Rafale, fez questão de reivindicar a qualidade da oferta europeia e de afastar a ideia de que a escolha de material norte-americano se explica por superioridade técnica: “Não é verdade que compremos americano porque eles são melhores, isso não é verdade”.

Ao seu lado, o sueco Micael Johanssen, diretor executivo da Saab, que produz os aviões de combate Gripen, alinhou com a mesma leitura e acrescentou um argumento de capacidade e prazos: “Estamos a produzir quatro ou cinco vezes mais do que eles, e não é verdade que tenhamos de comprar americano por ser a única maneira de ter as coisas a tempo”.

Apesar do enquadramento - e da relevância para um eventual programa português que poderá rondar os €5 mil milhões -, a discussão não tinha como objetivo a venda de caças a Portugal. O foco esteve antes nos obstáculos que a Europa enfrenta para acelerar a sua indústria de defesa num momento em que o investimento no setor está a crescer rapidamente.

A conferência, realizada esta terça-feira, reuniu dezenas de responsáveis de algumas das maiores empresas europeias da área, integradas na Aerospace, Security & Defence Industries Association of Europe (ASD), a principal associação europeia do setor. O encontro anual decorreu em Portugal, em parceria com a entidade congénere nacional, a AED - Cluster Portugal.

Programa SAFE, economia de guerra e aumento da produção na defesa europeia

Trappier enquadrou o ambiente estratégico com a proximidade de conflitos: “Nos nossos países não estamos em guerra, mas a guerra está muito perto na Europa na Ucrânia e no Médio Oriente”. Para o líder da Dassault, a realidade europeia já é, em termos económicos e industriais, a de mobilização: “não estamos em guerra, mas temos uma economia de guerra”.

Se a hipótese de um confronto militar se materializar, o executivo francês defende que “não estamos preparados para uma guerra” na Europa. Na sua perspetiva, a “chave” está na “antecipação”, de modo a que os países europeus se tornem “mais fortes” e consigam preparar-se, num contexto em que o apoio dos Estados Unidos já não é tido como garantido.

Johanssen, que além de liderar a Saab preside também à associação europeia responsável pelo evento, argumentou que o reforço europeu não deve significar rutura com os Estados Unidos: “não devemos acabar com a ligação transatlântica, mas devemos fazer mais” na Europa, dando “preferência àquilo que é europeu”.

O dirigente apontou, como exemplo dessa orientação, o programa SAFE, que disponibiliza €150 mil milhões através de dívida comunitária para investimento em defesa e estabelece que as aquisições só podem incidir sobre equipamentos e sistemas de armas com 65% de incorporação europeia.

Vindo de um país nórdico que tem registado numerosos incidentes com a Rússia no Mar Báltico, o CEO da Saab considera que “muitos países europeus não estão a tratar o regime de Vladimir Putin “como uma ameaça séria”” como os países nórdicos, bálticos, a Polónia ou a Alemanha.

Com a procura e a produção a aumentarem, Trappier afirmou que a Dassault tem “multiplicado por quatro o número de aviões entregues nos últimos quatro anos”. Na sua leitura, a subida de cadência é positiva e é “falso que os EUA estejam a fazer melhor neste domínio”. Como ilustração, referiu-se a um caso do ecossistema europeu: a MBDA, empresa europeia produtora de munições e que tinha um representante na primeira fila, aumentou a produção em 40%.

“A Europa ainda não tem capacidade para contrariar o ataque de drones”, diz ex-ministro ucraniano

Entre as figuras mais notadas do encontro esteve um convidado que contrastava com o habitual fato e gravata. De t-shirt preta, com o cabelo cortado em crista e uma trança na nuca, Oleksandr Kamyshin - conselheiro de Volodymyr Zelensky - foi ministro das Indústrias Estratégicas da Ucrânia entre 2023 e 2024 e teve um papel determinante na industrialização de inovação orientada para responder à invasão russa.

“Hoje toda a gente fala da Ucrânia e de drones, mas não foi assim no início”, explicou. Kamyshin recordou a mudança abrupta de funções e prioridades: num ano dirigia os caminhos de ferro e, no seguinte, estava a converter a indústria do país numa “indústria de guerra”. Nos primeiros tempos, nem a reparação de carros de combate era feita em território ucraniano - “iam para a Polónia”, sublinhou - e o tema dos drones ainda não dominava o debate.

Entretanto, o cenário alterou-se profundamente. Depois de vários exercícios da NATO no ano passado, nos quais equipas ucranianas dizimaram forças aliadas com ataques de drones (algo que Oleksandr Kamyshin não referiu), o conselheiro de Zelensky sustentou que “precisamos de mais drones na Europa”, que ainda “não tem capacidade para contrariar o ataque de sistemas não tripulados. Provavelmente, todo o mundo precisa”, observou.

Segundo o responsável, a competência mais avançada nesta área está, neste momento, do lado ucraniano. A Ucrânia tem procurado parcerias para co-produção e já dispõe de uma unidade fabril em Portugal, dedicada à produção de drones marítimos, através da Uforce. “Os vossos governos pedem-nos drones, e podemos co-produzir nos países”, afirmou, defendendo que este modelo “criará oportunidades nas indústrias e trará novas capacidades à Europa”.

No início de março passado, após os ataques israelo-americanos, o Irão começou a aterrorizar países vizinhos com drones ‘Sahed’. Nesse contexto, Kamyshin disse à revista norte-americana “The Atlantic” que engenheiros ucranianos tinham desenvolvido um conjunto de sistemas de baixo custo para derrubar estes drones, alcançando 90% de sucesso. “Esta inovação é nossa”, afirmava então, argumentando que a solução seria muito útil para países do Médio Oriente.

O trabalho com empresas ucranianas, defendeu Markus Staudt, diretor de vendas da Quantum-Systems - uma das principais empresas alemãs de drones -, deverá assentar em empresas conjuntas. “Que lições aprendemos com a guerra na Ucrânia”, perguntou. “O que aprendemos todos os dias, é que os ciclos de invoação são cada vez mais rápidos”. Em condições normais, disse, “levava tempo, mas não temos tempo”. Por isso, insistiu: “O desenvolvimento e a inovaçao têm de ser rápidos”.

Essa rapidez, acrescenta o português José Neves, presidente da AED-Cluster, é um traço onde Portugal pode ter vantagem: “por ser mais fácil nas pequenas e médias empresas do que nas grandes, onde o processo é mais pesado”, disse ao Expresso. Na sua avaliação, “A indústria portuguesa está pronta, tem capacidade, é ágil: tem boa engenharia, boa eficiência, um bom nível de custo-preço e capacidade de produção”.

Neves sublinhou ainda a diversidade do tecido empresarial nacional: “Temos grandes e pequenas empresas neste setor, que tipicamente não olhavam para a defesa, porque era de certa forma dominada por grandes fabricantes”. Mas, com a eclosão de novas guerras, essa atitude tem mudado: “As empresas têm que ser cada vez mais dinâmicas”. Num cenário descrito como economia de guerra, conclui, a velocidade de execução torna-se determinante.

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