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John Travolta emociona Cannes com “Propeller One-Way Night Coach” e Palma de Ouro de carreira

Homem em palco segura clapperboard e avião de modelo, com imagem de aviões atrás, frente a público.

John Travolta estreia-se na realização com “Propeller One-Way Night Coach”

Quem se sentou esta sexta-feira no Debussy, a segunda maior sala do Festival de Cannes, saiu com a sensação de ter assistido a algo raro - houve mesmo instantes de arrepiar. A ocasião foi a projeção de “Propeller One-Way Night Coach”, a primeira experiência de John Travolta como realizador: ele próprio produz, narra, aparece num pequeno papel, assina o argumento e ainda financia este filme curto, construído a partir das memórias de infância ligadas à sua paixão pela aviação - não deixa de ser significativo que seja também piloto comercial certificado.

Com a sala lotada e um ambiente de verdadeiro evento, o festival preparou ainda uma montagem tocante com excertos de títulos que o elevaram ao estatuto de estrela mundial, de “Febre de Sábado à Noite” e “Operação Flecha Quebrada” a “Blow Out- A Explosão” e “Pulp Fiction”.

O aplauso foi estrondoso, e a euforia cresceu quando, em palco, Travolta recebeu das mãos do diretor artístico de Cannes, Thierry Frémaux, a Palma de Ouro de carreira - um prémio que, ao que tudo indica, não esperava. De boina branca a esconder a calvície, o ator não conteve a emoção. Parecia que, por momentos, se estava a escrever História cannoise ali mesmo.

O filme, por seu lado, acompanha com humildade as recordações de Travolta - aqui representado com nove anos - e o seu batismo de voo numa viagem noturna entre Nova Iorque e Los Angeles, com várias paragens pelo país. Pelo caminho, entre as amizades com a tripulação, a cumplicidade com a mãe e a ansiedade de recomeçar vida na Califórnia, fixa-se o instante que o empurrou para a obsessão por aviões e para esse fascínio antigo pelo ato de voar.

“Propeller One-Way Night Coach” é também um retrato do lugar da mãe, filmado com uma candura tão desarmada quanto comovente. É um objeto discreto e inocente, mas atravessado por um humor perspicaz que acerta sempre em cheio. Será lançado apenas em plataformas de streaming, já em junho.

Competição oficial aquece com Hamagushi e Kreutzer

Na competição, o ambiente vai subindo de temperatura. Ryusuke Hamagushi apresentou “Soudain”, um conto parisiense com mais de três horas que gira em torno de uma hipótese de bondade. A história acompanha uma diretora de um lar de terceira idade que tenta abalar o sistema, procurando estar mais próxima dos seus idosos com Alzheimer.

O realizador de “Drive My Car”, no entanto, recusa o melodrama: prefere um diálogo consciente entre a antropologia e a filosofia (não fosse o filme inspirado num livro de correspondência entre uma antropóloga e uma filósofa, “You and I – The Illness Suddenly Get Worse”, de Makiko Miyano e Maho Isono). Pelo meio, surge também uma possibilidade de teatro contemporâneo - algo que não é novidade no seu cinema -, mas o que verdadeiramente seduz é uma espécie de carga de ombro à margem da lei (a analogia com o futebol faz sentido: somos derrubados violentamente nesta experiência que é sempre mística) rumo à aceitação da morte. Há aqui qualquer coisa de transcendente. E a interpretação de Virgine Efira é decisiva para esse efeito de abalo.

Da austríaca Marie Kreutzer chegou o título destinado a abrir fraturas e a dividir opiniões: “Gentle Monster”, com Léa Seydoux e Catherine Deneuve, um olhar devastador sobre a forma como os predadores vivem entre nós.

Seydoux interpreta uma cantora e pianista de vanguarda, presa à ilusão de uma felicidade doméstica com o marido alemão e o filho. A fantasia da família perfeita desfaz-se quando a polícia de Munique inicia uma investigação ao marido, suspeito de abusos sexuais a menores e de pornografia infantil.

Kreutzer desmonta por dentro os mecanismos do chamado “filme de tema delicado” e avança para uma balada de dor sobre o desmoronar de uma família. Um pesadelo embalado por versões de temas dos The Cure, Phil Collins ou Coldplay, sob a sombra da violência masculina e da atual banalidade do mal. Acima de tudo, é uma proposta que obriga o espectador a exercitar a consciência.

Aconteça o que acontecer, será sempre um dos filmes vitais desta seleção oficial.

FRASE DO DIA

“Sinto faltadaqueles tempos [anos 60], de toda a luz e a esperança que havia. As pessoas eram diferentes, a esperança era outra. A atual juventude deveria olhar para o meu filme e perceber como aquela época era tão melhor. E agora precisamos tanto daquela gentileza”.

John Travolta, na apresentação do seu filme, “Propeller One-Way Night Coach”

ECOS DO MERCADO

Em França, os reflexos do mercado do festival nas bilheteiras fazem-se sentir de imediato. Com todo o bruaá de ter sido escolhido para abrir o certame, a comédia de Pierre Salvodori, “La Vénus Eléctrique”, arrancou de forma espetacular nas salas logo a seguir - um padrão recorrente por estes dias. Já em torno do labiríntico “Histories Parallèles”, de Asghar Farhadi, também estreado nas salas francesas pouco depois da apresentação no festival, persistem dúvidas: há quem defenda que, apesar do elenco forte - Catherine Deneuve, Vincent Cassel, Isabelle Huppert, Virginie Efira ou Pierre Niney -, não é um filme fácil para o grande público.

Para já, em Cannes, nota-se que uma parte significativa da imprensa não ficou particularmente tocada pelo segundo projeto francês do celebrado realizador iraniano. Numa entrevista ao Expresso, Vincent Cassel lembrava que em França nunca se sabe quando um filme resulta: “as pessoas vão pela história, não pelos atores. E este filme é denso…”.

Nas bancas do Marché, a IA dá sinais claros de que veio para ficar. Multiplicam-se as produtoras que se vangloriam de ter para venda obras criadas com Inteligência Artificial, como “Britcoin”, projeto de Doug Liman, e a animação “Critterz” dos AGC Studios, onde se proclama que é conduzida por humanos mas assistida por IA.

A Inevitable apostou forte em capas da Screen e da Variety, ambas publicações com edições diárias em Cannes, e apresenta-se como o primeiro estúdio humano exclusivo de cinema de IA, garantindo que com 300 mil dólares se consegue um blockbuster. Sim, chegámos a este ponto - e não é por acaso que a jurada Demi Moore já veio a público afirmar que a guerra com a IA é para ser perdida: “mais vale juntarmo-nos a ela e podermos ter algo em retorno”, comentou.

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