A Audi está a investir a sério naquela que, dentro de portas, já é descrita como a “maior ofensiva de produto da sua história”. O primeiro modelo a abrir caminho a esta renovação profunda da gama é o novo Audi Q6 e-tron.
Apesar de partilhar plataforma e tecnologia de propulsão com o «primo» Porsche Macan, este SUV não é um mero “clone” com outro emblema. Para enquadramento, o Q6 e-tron assume-se como o equivalente elétrico do Q5 a combustão. Na concorrência mais próxima surgem o BMW iX3 (menos potente) e o Mercedes-Benz EQE SUV (substancialmente maior). No mesmo radar entram ainda o Lexus RZ 450e e, fora do universo premium, o Ford Mustang Mach-E.
Design exterior: continuidade com traço musculado
Mesmo sendo um modelo exclusivamente elétrico, a Audi mantém uma abordagem estética relativamente conservadora - e o Q6 e-tron segue essa linha. Ainda assim, os “ombros” da carroçaria são bem vincados, contribuindo para uma presença mais robusta e de inspiração desportiva.
Os balanços (dianteiro e traseiro) são curtos e chamam a atenção por isso. Nas laterais, os vincos foram pensados para reduzir a perceção de altura do conjunto, ajudando também a disfarçar a bateria montada sob o habitáculo.
Os faróis e lanternas, de desenho mais elaborado, recorrem a tecnologias OLED e Matrix LED. O objetivo passa por melhorar os padrões de iluminação e permitir assinaturas digitais, bem como sequências de animação que “animam” o Audi Q6, sobretudo em condução noturna.
Para lá do efeito visual, esta iluminação pode funcionar como um meio adicional de comunicação com o ambiente envolvente, com o propósito de ajudar a reduzir situações de risco e potenciais acidentes.
Interior progride a olhos vistos
No habitáculo, o espaço chega para até cinco adultos, até porque na segunda fila não existe ressalto no piso. Também em comprimento há folga: um passageiro traseiro com 1,80 m encontra uma distância confortável entre os joelhos e as costas dos bancos da frente.
A posição dos bancos traseiros, montados um pouco mais altos do que os dianteiros, cria um agradável efeito de anfiteatro. Ao mesmo tempo, sobra espaço acima da cabeça, com uma generosa distância até ao forro do tejadilho.
Nem tudo é tão positivo: em vez de bolsas tradicionais nas costas dos bancos dianteiros, surgem redes; e o fundo das bolsas das portas traseiras não tem revestimento, algo que só acontece nos lugares da frente. Quem viaja atrás também não beneficia de vidros duplos, que poderiam reforçar a insonorização. Num automóvel a rondar os 90 mil euros, são ausências que se fazem notar.
Em matéria de carga, a bagageira oferece 526 litros e inclui uma rede no piso, tiras elásticas laterais e um compartimento sob o piso para arrumação - útil, por exemplo, para guardar cabos de carregamento. À frente, sob o capô, existe ainda um espaço adicional com 64 litros.
Evolução tecnológica
O sistema de infoentretenimento dá um salto relevante, quer no desenho - agora integrado num painel curvo unido ao ecrã do painel de instrumentos -, quer nas funcionalidades disponibilizadas.
Este avanço resulta da adoção da arquitetura E3 (uma das razões para o atraso significativo no lançamento do Q6), parte central da sofisticada plataforma PPE de 800 V, desenvolvida em conjunto pela Audi e pela Porsche.
O quadro de instrumentos utiliza um ecrã de 11,9”, enquanto o ecrã central alcança 14,5”. Do lado do passageiro, pode ainda existir um terceiro ecrã opcional com 10,9”.
Há também um destaque claro para o avançado sistema de projeção no para-brisas, não só pelo grafismo e luminosidade, mas também pelos conteúdos com recurso a realidade aumentada. Com esta solução, parte da informação é “colocada” virtualmente sobre a estrada, como se o condutor estivesse perante um ecrã de 88”.
Dinâmica mais apurada
Ao volante do Audi Q6 e-tron 55 quattro, encontramos dois motores elétricos - um por eixo - com uma potência máxima combinada de 285 kW (387 cv). O motor dianteiro é assíncrono (ASM) e o traseiro é síncrono de íman permanente (PSM).
Na prática, a lógica privilegia o eixo traseiro: o motor de trás assume o papel principal e o da frente entra sobretudo como reforço, seja quando há perdas de aderência, seja numa utilização mais viva em estradas sinuosas.
Numa aceleração forte, por exemplo, ambos trabalham em conjunto, com uma distribuição de binário de 30% à frente e 70% atrás.
No chassis, uma novidade importante está no facto de a base da direção passar a estar aparafusada diretamente ao subchassis. Em conjunto com uma afinação de controlo específica, isto traduz-se numa comunicação claramente melhor entre o automóvel e o condutor.
Ao lugar do condutor, o volante “cortado” em cima e em baixo faz 2,4 voltas entre batentes, um valor adequado. Ainda mais com o sistema progressivo (sempre de série), que evita movimentos excessivos dos braços. Já o peso da direção convenceu menos, mantendo-se demasiado leve.
Suspensão com «vontade» própria
Os modos de condução do Q6 e-tron são próximos do que já se conhece na Audi, mas há uma alteração: o antigo modo Auto passa a chamar-se Equilibrado. Com a suspensão pneumática - presente em todas as unidades deste primeiro contacto -, a altura ao solo pode variar por decisão do condutor ou de forma automática.
A altura normal ao solo (180 mm) é a que corresponde ao novo modo Equilibrado. Em Dinâmico, o Q6 baixa 20 mm e, em Eficiência, desce mais 10 mm, totalizando até 30 mm. Já em modo todo-o-terreno, a carroçaria sobe 28 mm face ao valor normal, e no modo Elevação (para obstáculos mais exigentes) aumenta 45 mm.
Também em andamento há ajustes: ao atingir 120 km/h, a suspensão desce 20 mm; abaixo de 70 km/h, regressa à altura normal. Com o modo todo-o-terreno selecionado, assim que se chegam aos 80 km/h, a suspensão volta igualmente à posição standard de 180 mm.
Em asfalto, o conforto tende a ser mais seco, muito por influência do peso das baterias (cerca de 600 kg) e também pela configuração de jantes e pneus montada nas unidades ensaiadas: 255/45 à frente e 285/40 atrás, com jantes de 21”.
Prestações convincentes
Nas prestações, o Q6 e-tron 55 anuncia 210 km/h de velocidade máxima e cumpre o 0–100 km/h em 5,9 s, apesar de pesar 2,35 toneladas. A bateria, com 94,9 kWh líquidos, aponta para uma autonomia máxima de até 618 km (ciclo combinado WLTP).
A variante mais desportiva SQ6 baixa para 4,3 s no 0–100 km/h e chega aos 230 km/h, suportada por 380 kW (517 cv). A bateria mantém a capacidade, mas a autonomia homologada é inferior à do 55, ficando nos 598 km.
No percurso de ensaio nos arredores de Bilbao, ao volante do Q6 e-tron 55, os consumos oscilaram entre 22 kWh/100 km e 24 kWh/100 km - acima dos valores homologados (17-19 kWh/100 km) -, com um ritmo mais descontraído do que o dos ciclos de homologação. De forma realista, faz sentido contar com autonomias na ordem dos 450 km a 500 km.
No capítulo do carregamento, o sistema de 800 V do Audi Q6 e-tron admite até 270 kW em DC (corrente contínua), embora também possa ser carregado em postos de 400 V. Em AC (corrente alternada), fica-se pelos 11 kW, algo inesperado num sistema tão avançado; a Audi afirma que irá resolver esta limitação em breve, passando para 22 kW.
Para a energia recuperada em andamento, existem quatro níveis de regeneração: 0, 1, 2 e B. O último já permite conduzir praticamente com um só pedal, isto é, o Q6 e-tron consegue parar totalmente sem recorrer ao pedal do travão. Já a travagem convencional tem o mérito de reagir de forma imediata e progressiva, uma qualidade que nem sempre é garantida nos elétricos.
Por fim, a Audi desenvolveu um som de motor sintetizado para este SUV: no SQ6 é bastante audível, enquanto no Q6 55 surge mais contido. A minha preferência foi circular quase sempre em silêncio.
Já disponível para encomenda
O Audi Q6 e-tron já pode ser encomendado no mercado nacional, com um preço base de 77 330 euros, relativo à versão 50, já disponível.
Comparando com as versões conduzidas neste primeiro contacto, esta proposta destaca-se por usar apenas um motor elétrico, com 225 kW (306 cv), tração traseira e uma bateria de menor capacidade, com 83 kWh. Ainda assim, anuncia uma autonomia máxima de 634 km.
Além desta, o Audi Q6 e-tron também é proposto nas duas versões quattro (55 e SQ6), ambas com dois motores (um por eixo), tração integral e bateria de 100 kWh (total). Em preços base, estas duas opções situam-se nos 82 930 euros e 97 800 euros, respetivamente.
No caso do Q6 e-tron 55 ensaiado, a diferença de preço para o «primo» Porsche Macan 4 - mais potente e com uma dinâmica mais apurada - não parece suficientemente grande.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário