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Solmairym Alcántara escapou aos sismos na Venezuela, mas perdeu colegas numa fuga de gás

Mulher segura rádio e foto de família, ao lado de mota e botija de gás, numa rua com casas coloridas.

Solmairym não entrou ao serviço no dia dos sismos que abalaram a Venezuela: estava de folga. No restaurante em La Guaira onde trabalhava, uma fuga de gás acabou por provocar um incêndio; os colegas morreram carbonizados no interior do estabelecimento, porque a porta ficou presa e não lhes permitiu fugir.

Solmairym Alcántara e o alarme de sismo que a levou para a rua

Solmairym Alcántara estava em casa de uma amiga quando, a meio de uma conversa, o alarme de sismo do telemóvel soou. Grávida de quatro meses, reagiu por instinto e correu para o exterior para tentar salvaguardar a sua vida e a do bebé. "Assim que um rapaz me abriu a porta, o chão começou a tremer. Corri para o meio da rua e ele ficou paralisado. Foi aí que todo o prédio desabou por completo", recorda, com lágrimas no rosto, dias depois de a terra ter tremido e de ter feito pelo menos 1450 mortos, além de cerca de 50 mil desaparecidos, segundo dados da ONU.

Pelas informações que conseguiu reunir, o jovem que lhe abriu passagem para a saída sobreviveu, mas perdeu uma perna, presa nos escombros.

Abrigo em Caracas para quem perdeu a casa em La Guaira

Agora, Solmairym está estendida num colchão no Parque Alí Primera, na paróquia de Catia, em Caracas. As autoridades venezuelanas instalaram ali um dos maiores abrigos da capital, concentrando mantimentos para os afetados pelos fortes sismos de 24 de junho e acolhendo quem ficou sem casa no estado de La Guaira, que foi declarado zona de catástrofe.

A jovem tem 20 anos. Nasceu em Acarigua, capital do estado de Portuguesa, no centro-oeste do país, mas vivia no estado de Táchira, no oeste, antes de decidir mudar-se para La Guaira. Quis ficar mais perto do marido, que estuda na Academia Militar Técnica da Marinha Bolivariana, cujo edifício ficou parcialmente destruído. Enquanto falava com o JN, pediu para não ser fotografada: as últimas horas tinham sido duras e não queria ver a sua fragilidade fixada numa imagem.

Acidente de mota

Depois dos sismos, tomou a decisão de sair de La Guaira, o estado mais atingido pelos terramotos, situado no Litoral central da Venezuela. No percurso de mototaxi até Caracas, a cerca de 26 quilómetros, o veículo derrapou e tanto ela como o condutor caíram.

Foi inicialmente encaminhada para o Hospital Militar de Caracas, onde lhe realizaram uma ecografia para excluir lesões no bebé provocadas pelo acidente. Já no abrigo, repetiu o exame e confirmou que, apesar de se tratar de uma gravidez de alto risco, estava tudo bem.

"Vi-a sangrar e morrer"

Desde 24 de junho, as recordações de Solmairym resumem-se a uma sucessão de horas dramáticas, vividas sempre com a preocupação do bebé que cresce dentro dela. No local de acolhimento, foi acompanhada por uma psicóloga. "Falei com ela porque isto afetou-me profundamente. Ontem, à meia-noite, a madrinha do meu bebé ligou-me por videochamada debaixo dos escombros. Vi-a a sangrar e vi-a morrer. Ligou para se despedir. Morava no mesmo prédio que eu."

A permanência no abrigo será apenas por algum tempo. Deitada no colchão sobre a relva, encolhe-se para se resguardar da brisa da noite, que já não traz a névoa do mar. Por enquanto, não pode fazer viagens por causa da gravidez de alto risco, mas deseja voltar a Acarigua, para tentar recuperar entre as pastagens das planícies onde nasceu.

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