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Volvo reforça a parceria com a Google no CES 2022: Google Home, Google Assistant e YouTube no Android Automotive

Carro elétrico Volvo branco modelo 2022 estacionado num interior moderno com janelas grandes.

A Volvo marcou presença no CES 2022, em Las Vegas (EUA), para comunicar duas frentes estratégicas em simultâneo: por um lado, uma parceria com a Qualcomm para fornecer a plataforma Snapdragon Cockpit ao próximo sistema de infoentretenimento; por outro, um reforço claro da ligação à Google, ao tornar-se a primeira marca automóvel a apresentar uma integração direta com o ecossistema Google Home.

Esta integração abre a porta a que os proprietários possam interagir com o automóvel através de comandos de voz, usando o Google Assistant. Em paralelo, a marca sueca revelou que, muito em breve, todos os modelos equipados com sistema de infoentretenimento baseado em Android vão passar a contar com acesso ao YouTube.

Para a Volvo, estas novidades são mais do que um conjunto de funcionalidades: representam o arranque de uma transformação que aproxima o automóvel de uma extensão da sala de estar - uma mudança inserida numa revolução mais ampla que, inevitavelmente, implicará alterações estruturais na indústria automóvel.

Para perceber o impacto destas decisões na experiência diária dos clientes Volvo e o que podem sinalizar para o setor, falámos - em exclusivo nacional - com Thomas Stovicek, responsável de User Experience (UX) da Volvo Cars, e com David Holecek, diretor da Experiência Digital da marca.

O infoentretenimento do futuro, só com dois ecrãs

Com o anúncio da colaboração com a Qualcomm, a Volvo garantiu que pretende elevar o infoentretenimento dos próximos modelos para o “próximo nível”. Esse salto deverá ficar mais claro com o próximo SUV 100% elétrico da marca e com o Polestar 3, ambos previstos para apresentação ainda este ano.

Até lá, a empresa já deixou antever a abordagem para a próxima geração do seu sistema: a configuração continuará a apostar num ecrã central vertical e num segundo ecrã, mais compacto e horizontal, dedicado ao painel de instrumentos.

A escolha chama a atenção porque, no último ano, ganhou força uma tendência que passou a dar outra relevância ao passageiro da frente, com a inclusão de um ecrã próprio, pensado para ser controlado apenas por quem ocupa esse lugar. O Mercedes-Benz EQS é um dos exemplos que ilustram essa direção.

A Volvo acompanha este debate e, como sublinhou Thomas Stovicek, é “definitivamente algo que está a ser pensado”. Ainda assim, fez questão de deixar claro o ponto de situação interno: “Acreditamos que nesta versão da nossa visão, o ecrã central é grande o suficiente e visível para todos os ocupantes do carro. Mas é algo que vamos continuar a prestar atenção”.

A importância das parcerias tecnológicas

Se o novo sistema de infoentretenimento com a base tecnológica da Qualcomm é, para já, um tema de médio prazo, as novidades ligadas a Google Home, Google Assistant e YouTube estão prestes a chegar aos clientes - e deverão ter impacto direto, num horizonte muito curto, para muitos condutores da Volvo.

Na leitura da marca, a colaboração com a Google representa uma vantagem significativa e traduz-se de forma concreta no produto final. Ao apoiar-se num parceiro com competências muito específicas, a Volvo consegue concentrar a energia noutras áreas do desenvolvimento.

“Estamos a tirar proveito desse conhecimento e a trazê-lo para os nossos clientes, permitindo todas estas nossas possibilidades dentro do carro. E nós, enquanto fabricante automóvel, podemos focar-nos em coisas como criar a melhor experiência possível para os nossos clientes, enquanto produto”, acrescentou.

Ainda assim, mesmo com uma base tecnológica suportada pela Google, a Volvo insiste que há sempre trabalho de adaptação às necessidades e às expectativas do seu público. Como explicou o responsável de UX, a meta passa por garantir uma utilização com identidade própria: “Acho que conseguimos fazer um bom trabalho ao criar uma usabilidade distinta. Os parceiros com que trabalhamos permitiram-nos criar o nível certo de personalização para os elementos que queremos ter personalizados. Fomos capazes de desenhar um sistema para os nossos clientes, capaz de responder aos seus problemas do dia a dia e ao que eles querem ver”.

Inteligência Artificial é o futuro?

No tema da Inteligência Artificial, Thomas Stovicek descreve uma ambição que, na visão da Volvo, será construída de forma progressiva: “Queremos dar alguma inteligência ao carro. Mas esta é uma daquelas coisas que vai melhorar e crescer ao longo do tempo. Faz definitivamente parte da nossa visão permitir que o sistema dê aos utilizadores algum tipo de conhecimento contextual, com base na forma como eles usam o carro e o que fazem quando o usam”.

O desafio, acrescenta, é encontrar o ponto de equilíbrio que realmente facilita a vida ao volante e não complica a interação: “estamos a tentar perceber para o futuro quais são as zonas onde as coisas precisam de ser mais manuais e, por outro lado, onde podemos ter inteligência artificial ou tecnologia preditiva para tornar as soluções mais simples para as pessoas”.

Ainda que a expressão “tecnologia preditiva” remeta para o que está por vir, a Volvo reconhece que parte dessa lógica já começa a materializar-se com as ferramentas mais recentes da Google, em especial através do Google Assistant, que vai identificando rotinas e padrões de utilização ao longo do tempo.

David Holecek enquadra este ponto como um dos pilares da parceria, assumindo que a Google tem uma capacidade superior para esse tipo de análise: “O que a Google traz para cima da mesa, em termos de parceria, é mais conhecimento sobre os utilizadores, o seu dia a dia e o seu comportamento diário, por meio do Google Assistant e de todas as outras capacidades de Inteligência Artificial. A Google é muito melhor nisso do que nós poderemos ser, até porque esse não é o nosso campo de trabalho”.

https://youtu.be/YIrR5uQuFlQ

YouTube agora, outras plataformas depois?

Entre os anúncios, a chegada do YouTube ao sistema de infoentretenimento - em todos os Volvo com sistema operativo Android - destacou-se como uma das novidades mais relevantes.

Na prática, passará a ser possível ver vídeos no YouTube enquanto se espera por alguém ou durante uma paragem para carregamento.

Quanto ao que vem a seguir, a marca admite que o caminho passa por disponibilizar mais serviços de vídeo no futuro. Segundo o diretor da Experiência Digital, existe uma base preparada para acolher outras soluções: trata-se de uma “estrutura aberta para que qualquer fornecedor de serviços de vídeo seja capaz de fazer algumas pequenas modificações e adaptações, de modo a que funcione bem no ambiente do carro e então possa ser publicado na Google Play Store”.

E reforça que esta abertura não se limita ao parceiro inicial: “Embora o YouTube seja o parceiro de lançamento para isto, não é uma coisa única feita com o YouTube, isso vai abrir o ecossistema para uma nova categoria de serviços de desenvolvimento por terceiros”.

Dados ilimitados com um cartão SIM digital

A conectividade é suportada por um pacote denominado “Digital Services”. Em termos práticos, este pacote costuma significar quatro anos gratuitos na compra de um Volvo novo e dá acesso sem restrições aos serviços conectados da Google, uma vez que os dados móveis são ilimitados. Findo esse período, o serviço - suportado por um cartão SIM digital - pode continuar ativo através do pagamento de uma subscrição.

Sobre a forma como a marca pretende sustentar este modelo, David Holecek explica que a abordagem passa por acordos à escala regional com grandes operadores móveis, em vez de contratos individualizados por viatura: “Estamos a colaborar com algumas das maiores operadoras de rede móvel do mundo para olhar para isto a partir de uma base regional, através de toda uma frota de carros, em vez de fazer assinaturas separadas para cada carro”.

Segundo o responsável, esta estratégia também permite condições mais competitivas e uma gestão mais equilibrada do tráfego: “Isso por si só já nos permite obter taxas de dados muito melhores, claro, e também equilibrar o consumo de dados. E é dessa forma que podemos permitir esse tipo de oferta em que se pode realmente ouvir tanta música quanto a que se quiser, ver a quantidade de vídeo que se desejar e assim por diante. Todos os dados são incluídos”.

Para onde caminha a indústria?

Com a possibilidade de atualizações remotas - sem deslocações físicas ao concessionário - e com plataformas como o Google Android Automotive a criarem uma base para acrescentar funcionalidades de forma contínua, impõe-se uma questão: esta lógica poderá aumentar o tempo de vida útil de um automóvel, por este ir sendo melhorado ao longo dos anos?

A resposta de David Holecek aponta para uma evolução permanente, muito semelhante ao que o consumidor já espera noutros dispositivos: “Temos que caminhar para uma experiência de evolução, onde o carro fica melhor a cada dia que passa, onde temos sempre novas atualizações e adições durante o ciclo de vida do carro, o que significa que ele vai sempre ficar melhor. Da mesma maneira que um smartphone ou um tablet fica”, afirmou, antes de dirigir críticas ao modo como a indústria tem funcionado.

Na sua perspetiva, o setor historicamente concentrou-se no momento do lançamento e deixou pouco espaço para evolução pós-compra: “A indústria automóvel não tem sido boa nisso. Focamos tudo no lançamento do carro e isso é o que o cliente recebe, basicamente. Agora, com a força dos nossos parceiros, podemos seguir para esta nova era, para este novo mundo de experiências onde os clientes estão à espera de algo que evolua ao longo do tempo”.

Para Holecek, a mudança é inevitável, porque o ecossistema tecnológico não abranda e o automóvel não pode ficar congelado no tempo: “A indústria eletrónica e todo o setor das comunicações e dos sistemas de infoentretenimento não ficam parados. O que era verdade quando o carro foi desenhado, há vários anos, pode já não se verificar hoje em dia. Esta é uma mudança fundamental da qual nós estamos muito felizes por fazer parte”, disse, antes de concluir: “saber que o carro vai estar sempre atualizado, elimina alguma ansiedade às pessoas. Ao contrário de pensar que o carro vai ficar sempre cada vez mais velho”.

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