O magnata chinês Guo Wengui, empresário exilado nos Estados Unidos e antigo crítico de Pequim, foi sentenciado a 30 anos de prisão por um tribunal federal de Nova Iorque, na sequência de um esquema de fraude que prejudicou mais de mil investidores.
Sentença em Manhattan e declarações de Guo Wengui
A juíza Analisa Torres ditou a pena num tribunal de Manhattan e afirmou que Guo "explorou pessoas que procuravam levar a democracia à China", canalizando o dinheiro aplicado por investidores para sustentar um modo de vida marcado pelo luxo.
Momentos antes de a sentença ser lida, Guo voltou a criticar as condições em que se encontra detido e disse que, nessa manhã, tinha sido transportado para um hospital devido a problemas de saúde. Também rejeitou a descrição feita pela acusação, segundo a qual estaria a simular doença para protelar o andamento do processo.
"Quando cheguei aqui, disse: 'Tenho dores de barriga, preciso de ir à casa de banho, não me sinto bem'", afirmou Guo, com recurso a um intérprete.
Sobre o processo criminal em si, limitou a intervenção a justificar-se em termos políticos, dizendo: "a razão pela qual vim para os Estados Unidos foi destruir o Partido Comunista Chinês".
Vítimas, assédio e confisco de 889 milhões de dólares
Ao fundamentar a decisão, a juíza referiu cartas enviadas ao tribunal por vítimas que descreveram a perda das poupanças de uma vida, episódios de ansiedade e vergonha e ainda tensões familiares associadas aos investimentos que fizeram.
Para Analisa Torres, Guo "não assume qualquer responsabilidade pelos seus atos e insiste, de forma inacreditável, que a sua conduta não causou perdas nem prejudicou ninguém". A magistrada acrescentou que o empresário "incitou apoiantes a assediar e intimidar aqueles que ousaram denunciá-lo".
Além da pena de prisão, o tribunal determinou o confisco de 889 milhões de dólares (779 milhões de euros) para efeitos de restituição às vítimas.
Wei Chen, uma das vítimas que depôs durante o julgamento, declarou que a fraude de Guo "destruiu" a sua vida e a da sua família.
Membro do clube privado de Trump
Antes de ser detido, há três anos, Guo aproximou-se do estratega político conservador norte-americano Steve Bannon; em 2020, ambos anunciaram uma iniciativa com o objectivo de derrubar o governo chinês.
À data, residia num apartamento de luxo em Nova Iorque, com vista para o Central Park, e integrava o clube privado Mar-a-Lago, propriedade do presidente norte-americano, Donald Trump.
O ministério público defendeu uma pena mínima de 30 anos de prisão, sustentando que a fraude, praticada entre 2018 e 2023, "destruiu centenas de vidas" e deixou "um rasto de vítimas e famílias devastadas financeira, emocional e psicologicamente".
De acordo com a acusação, o dinheiro angariado ilegalmente foi usado para financiar "um estilo de vida de extraordinário excesso e ostentação", com despesas em mansões, iates, carros de competição, vestuário de luxo e mobiliário de elevado valor.
No final de um julgamento de sete semanas, Guo foi dado como culpado de nove das 12 acusações. Os procuradores argumentaram que enganou milhares de investidores em centenas de milhões de dólares através de esquemas fraudulentos.
Perseguido por Pequim
A defesa alegou que Guo foi alvo de uma campanha de perseguição do Partido Comunista, que descreveu como "ampla, persistente e ameaçadora da vida". Segundo os advogados, Pequim terá recrutado figuras influentes do meio empresarial, político e do entretenimento nos Estados Unidos para conspirar contra o empresário.
Os defensores sustentaram ainda que uma pena de prisão prolongada serviria apenas para validar a campanha de difamação conduzida pela China e para incentivar novas tentativas de afastar dissidentes chineses da vida pública.
Na versão apresentada pela defesa, Guo tem cicatrizes e deformações atribuídas a alegadas torturas sofridas na China e a cirurgias realizadas entre 1993 e 2022.
Os advogados disseram também que Guo construiu a sua fortuna quando a família passou a ser o maior accionista da maior corretora de valores mobiliários cotada na bolsa chinesa, mas que começou a ser perseguido pelas autoridades depois de denunciar alegados episódios de corrupção envolvendo dirigentes chineses.
Na China, Guo é acusado de violação, rapto, suborno e outros crimes. O empresário sempre negou essas acusações, classificando-as como falsas.
Segundo a acusação norte-americana, Guo levou centenas de milhares de pessoas a investir mais de mil milhões de dólares (877 milhões de euros) em entidades sob o seu controlo e manteve-se "completamente sem remorsos" depois de tirar partido das leis norte-americanas de asilo para prosperar nos Estados Unidos.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário