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Cannes: “Butterfly Jam” rompe na Quinzena dos Cineastas

Homem com caneca discute com grupo, incluindo um cinegrafista, perto de cartazes de filmes junto ao mar.

Quinzena dos Cineastas: “Butterfly Jam” de Kantemir Balagov

Depois de uma entrada algo tímida na programação, com “Nagi Notes”, de Kôji Fukada, e “La Via d’une Femme”, de Charline Bourgeois-Tacquet, a Quinzena dos Cineastas - a mais relevante secção paralela - tem finalmente um título a sobressair.

Após “Violeta”, o russo Kantemir Balagov muda-se para Newark para assinar o seu primeiro filme independente norte-americano: “Butterfly Jam”, um parente distante de um certo cinema de James Gray. O filme ergue uma tragédia com afecto pelos perdedores da vida, acompanhando uma família de emigrantes russos que tenta singrar no negócio da restauração. Entre o conto de fantasmas e o registo de narrativa de crescimento, esta “marmelada” de borboletas convoca bases do realismo mágico e apoia-se em simbolismos de peso: uma aparição de Monica Bellucci, cegonhas afáveis e uma ternura trágica, bem ferida.

Por um lado, sente-se ali a ânsia de uma primeira obra: o realizador quer pôr tudo no mesmo sítio. Mas é precisamente nesse vagar errante que o filme poderá ganhar. Na sessão pública, foi recebido com muitos aplausos e o elenco com Harry Melling, Riley Kelough e Barry Keoghan já lhe garantiu distribuição em Portugal.

Un Certain Regard: “Teenage Sex and Death at Camp Miasma”

No Un Certain Regard, dentro da selecção oficial, a abertura coube a uma paródia-homenagem ao cinema de terror e aos filmes de assassino dos anos 80. Chama-se “Teenage Sex and Death at Camp Miasma”, de Jane Schoenbrun, e tem ar de objecto saído do Festival Sundance.

É um olhar metacinematográfico sobre a forma como Hollywood recicla franquias de terror - aqui, através de uma cineasta LGBTQ+ chamada para reiniciar uma saga em torno de um assassino trans que ataca adolescentes num campo de férias. É daqueles casos em que o filme não resiste à euforia que o antecede: apesar de conseguir uma comicidade meta convincente, apoiada numa teoria trocista, a piada “meta” esgota-se depressa na prática. Gillian Anderson, da série “X-Files”, é a protagonista deste exercício que elabora uma tese sobre o orgasmo feminino.

A corrida aos lugares nas sessões de imprensa

Entretanto, multiplicam-se as queixas de jornalistas por causa do horário de inscrição para os visionamentos de imprensa: 7 da manhã. Para agravar, há muitas sessões esgotadas num ano em que a imprensa digital acreditada não pára de crescer. Esta quinta-feira, às 7h01 o gigante teatro Debussy já tinha a lotação esgotada para a sessão da próxima semana de “Aquí”, de Tiago Guedes. Missão quase impossível para ver este encontro entre Paulo Branco, J.M. Coetzee e Tiago Guedes…

Frase do Dia

“Fazer “The Man I Love” pareceu-me um grande risco que valeria a pena. Este é um filme sobre criadores e o preço que pagam por isso"

Rami Malek, ator de “The Man I Love”, de Ira Sachs, em competição

Ecos do Mercado

Outra das modas de Cannes passa por eventos de luxo para apresentar um simples avanço. Ontem, no renovado Hotel Martinez - o luxo dos luxos cannoises - promoveu-se a antestreia do avanço da animação “Wildwood”, de Travis Knight, da Laika, estúdio especializado em animação fotograma a fotograma.

Numa sala decorada a rigor e com a imprensa em peso, o estúdio do Oregon, nos Estados Unidos, apostou forte numa operação de promoção que nem dois minutos durou.

No fundo, trata-se da maior animação dos autores de pérolas como “Caroline” ou “Kubo e as Duas Cordas”. As primeiras imagens deixam perceber a dimensão da escala: terá estado em produção durante sete anos e é o projecto mais caro de sempre desta companhia. Fica, ainda assim, a dúvida sobre se esta excentricidade - com muitas personagens, num mundo que cruza humanos e animais com exército - não estará a apontar alto demais.

Apesar disso, há qualquer coisa de “Senhor dos Anéis” nesta animação em volume, com bonecos reais animados através de fotografia. A música dos M83 define o tom de um filme que deverá ter campanha para os Óscares, não só para melhor animação como também para melhor filme. A fasquia é elevadíssima, mas em Cannes os responsáveis avisam que a pós-produção continua em curso - em outubro chegará às salas e, por isso, não ficará pronto a tempo dos festivais de San Sebastián ou Veneza.

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