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Igbo-Ora: 45 gémeos por cada mil partos na Nigéria

Duas mulheres africanas com bebés ao colo e alimentos numa mesa, com médico ao fundo numa aldeia rural.

Em Igbo-Ora, por cada mil partos, 45 resultam em gémeos - um valor fora do comum. Têm-se apontado explicações genéticas, ambientais e culturais, mas a investigação continua sem uma resposta definitiva.

Igbo-Ora e o recorde de gémeos

Situada no sudoeste da Nigéria, Igbo-Ora transformou-se num verdadeiro quebra-cabeças científico que continua a chamar a atenção de investigadores de todo o mundo. Apelidada de “capital mundial dos gémeos”, esta localidade com cerca de 200 mil habitantes apresenta uma frequência de nascimentos múltiplos muito acima do padrão global. De acordo com números citados pelo jornal El País, enquanto a média mundial ronda os 12 gémeos por cada mil partos, em Igbo-Ora a taxa pode exceder os 45 por mil - uma discrepância difícil de explicar por uma única causa.

Ciência e registos ao longo das décadas

Não se trata de um fenómeno recente. Nas décadas de 1970 e 1980, o ginecologista britânico Patrick Nylander já descrevia taxas extraordinárias na região. E, muitos anos depois, trabalhos académicos de universidades nigerianas continuam a chegar à mesma conclusão: a tendência mantém-se, reforçando o carácter singular de Igbo-Ora. Apesar do progresso científico, permanece por esclarecer o motivo exato para uma incidência tão elevada de gémeos.

Linhagem materna

Entre as hipóteses mais debatidas surgem fatores genéticos, ambientais e culturais. Uma revisão científica publicada em 2020 indica que predominam os gémeos dizigóticos (não idênticos), o que é compatível com uma maior probabilidade de ovulação múltipla entre a população local. Essa predisposição hereditária - em especial pela linhagem materna - poderá ter sido amplificada ao longo do tempo por casamentos dentro da própria comunidade.

A dieta no centro das crenças locais

Ainda assim, as interpretações científicas convivem com convicções locais muito enraizadas. Em declarações recolhidas pelo El País, moradores defendem que a alimentação tradicional é peça-chave. Refeições com inhame, mandioca e folhas de quiabo são frequentemente apontadas como responsáveis pelo fenómeno. “Se quer ter gémeos, deve comer sopa de quiabo regularmente”, diz uma moradora, repetindo uma crença popular ouvida no mercado.

Os especialistas, contudo, pedem prudência. O nutricionista Peter Enyievi frisa que “o nascimento de gémeos não é causado diretamente pela dieta”, salientando que os fatores biológicos e genéticos têm um peso determinante. Embora alguns alimentos da região sejam ricos em fitoestrogénios - substâncias que podem interferir com a fertilidade - não existe evidência científica de que expliquem a dimensão do que se observa em Igbo-Ora.

Para lá da ciência, a componente cultural ajuda a sublinhar a singularidade local. Na tradição iorubá, os gémeos são entendidos como sinais de sorte, proteção e prosperidade. O nascimento é marcado por rituais próprios, incluindo a distribuição de alimentos como feijão. Se um dos gémeos morrer, é habitual esculpir uma figura de madeira, chamada ibeji, que representa a criança falecida e continua a ser tratada com cuidado pela família.

Relação espiritual

Essa ligação espiritual aos gémeos nota-se também na esfera pública. Desde 2018, Igbo-Ora realiza todos os anos o Festival Mundial dos Gémeos, atraindo moradores, visitantes e curiosos vindos de várias partes do planeta. O evento consolidou-se como expressão da identidade local e como montra de um fenómeno que continua a pôr a ciência à prova.

Igbo-Ora preserva o seu mistério. Entre explicações genéticas e outras possibilidades, a cidade permanece como um laboratório vivo onde tradição e investigação coexistem.

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