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Como as apps de partilha de localização estão a mudar as relações

Jovem casal sentado no sofá a olhar para telemóveis com aplicação aberta, mesa com chaves e relógio inteligente à frente.

Um simples olhar para as aplicações do telemóvel já resolve perguntas que antes as pessoas faziam em voz alta: o seu parceiro está quase a chegar a casa? O seu amigo chegou ao aeroporto? Os seus filhos ainda estão na escola?

As aplicações que permitem seguir e partilhar a localização em tempo real passaram, sem grande alarido, a fazer parte da rotina diária - sobretudo entre os mais novos.

Aquilo que começou como uma funcionalidade ligada à segurança foi-se transformando, aos poucos, numa nova forma de comunicação. Por vezes, a localização é partilhada quase automaticamente, sem que a pessoa pense duas vezes.

Noutras situações, torna-se uma maneira de gerir relações, evitar conversas embaraçosas ou, simplesmente, tornar o dia a dia mais rápido.

Investigadores analisaram de perto este hábito em crescimento e concluíram que as apps de partilha de localização estão a influenciar a forma como as pessoas se relacionam, de maneiras que muitos utilizadores nem sempre reconhecem.

Mais do que mapas e direcções

O estudo nasceu a partir de uma conversa em sala de aula que despertou um interesse inesperado.

Brian Ogolsky, professor no Department of Human Development and Family Studies da University of Illinois Urbana-Champaign, percebeu que os estudantes tinham opiniões fortes - e muitas histórias - sobre a partilha da localização com outras pessoas.

“Creio que compreender como as pessoas usam estas tecnologias ajuda-nos a entender os guiões e processos que sustentam as relações, como estão a mudar e o que isso significa para a forma como nos relacionamos uns com os outros”, afirmou.

A equipa inquiriu participantes nos Estados Unidos e no Reino Unido sobre a utilização de aplicações de partilha de localização. Em média, os inquiridos partilhavam a sua localização com 3.86 pessoas, embora alguns a partilhassem com até 83 indivíduos.

A plataforma mais utilizada foi a app Find My, seguindo-se o Google Maps, a Life360, o Snapchat e o WhatsApp.

Na maioria dos casos, as pessoas começavam por partilhar a localização com o(a) companheiro(a). Depois vinham os amigos, seguidos de irmãos, pais, filhos, familiares mais afastados e colegas de casa.

A segurança impulsiona a partilha de localização

Quando se tratava de familiares próximos, o motivo mais apontado para partilhar a localização foi a segurança.

Muitos pais querem confirmação de que os filhos chegaram bem. Em sentido inverso, filhos adultos acompanham, por vezes, pais mais velhos. E, entre casais, pode ser tranquilizador saber que a outra pessoa chegou a casa depois de conduzir tarde.

Ainda assim, Ogolsky defende que grande parte desta sensação de segurança é mais emocional do que prática.

“Os inquiridos disseram que se sentem mais seguros por saberem onde alguém está”, explicou Ogolsky. “Não é surpreendente; no entanto, é, na verdade, uma ilusão de segurança.”

“Saber onde está o meu parceiro a cerca de 80 km daqui não significa que eu o consiga ajudar numa emergência ou que consiga pôr outra pessoa a ajudá-lo. Pode ter mais a ver com tranquilidade do que com segurança real.”

Essa sensação de alívio ajuda a perceber porque é que a partilha de localização se tornou tão comum. Numa altura em que há preocupação constante com acidentes, emergências e incerteza, até pequenas porções de informação podem ser reconfortantes.

As relações passam cada vez mais pelas aplicações

Já entre casais e amigos, o factor prático pesou mais do que a segurança. A partilha de localização é usada para coordenar jantares, gerir horários, ir buscar crianças ou acompanhar alguém em deslocação entre cidades.

Em muitos casos, a aplicação substitui por completo uma mensagem.

Em vez de perguntar “Onde estás?”, as pessoas limitam-se a verificar. A mudança parece pequena e inofensiva, mas altera o modo como as conversas acontecem. Pequenos contactos - que antes geravam interação - estão a desaparecer.

Os investigadores identificaram também um lado mais pessoal desta prática. Para algumas pessoas, partilhar a localização funciona como prova de honestidade e confiança. Para outras, surge a pressão de parceiros ou familiares que esperam visibilidade constante.

Isto pode gerar tensão: o que foi desenhado para ser conveniente pode, gradualmente, tornar-se uma obrigação.

A perda silenciosa de comunicação

A tecnologia costuma prometer eficiência - e as apps de partilha de localização cumprem esse objectivo. Mas a eficiência tem custos.

“As nossas conclusões mostram que estamos a caminhar para um mundo em que as mudanças tecnológicas vão ditar como e quando comunicamos”, afirmou Ogolsky.

“A partilha de localização está a passar de usos sobretudo ligados à segurança para o âmbito das relações, onde altera a comunicação.”

“Pode ver onde alguém está e decidir que não quer incomodar, por isso não liga nem manda mensagem. Retira a essa pessoa a possibilidade de dizer se gostaria de falar agora e elimina a negociação interpessoal.”

Esta ideia liga-se a uma mudança mais ampla associada aos smartphones. Muitas interações do quotidiano estão a tornar-se passivas.

As pessoas reagem a notificações, indicadores de estado e pontos no mapa, em vez de fazerem perguntas directamente. O resultado é menos incerteza - mas, por vezes, também menos ligação.

A vida moderna sob o mapa

A partilha de localização pode ainda criar pressão social de formas inesperadas. Em grupos de amigos onde todos partilham a localização, torna-se fácil perceber quem está com quem - e quem ficou de fora. Isso pode alimentar o FOMO (medo de estar a perder algo).

A privacidade continua a ser outra preocupação central. Gerações mais velhas tendem a sentir desconforto com a ideia de divulgar constantemente onde estão.

Já os utilizadores mais jovens cresceram com redes sociais, smartphones e publicidade direccionada. Para muitos, a recolha de dados já é encarada como algo inevitável.

Essa diferença ajuda a explicar por que motivo os mais novos se mostram, muitas vezes, mais à vontade para partilhar a localização com amigos, parceiros ou até grupos grandes.

Ainda assim, especialistas alertam que esta tecnologia pode tornar-se perigosa em relações abusivas ou em disputas legais.

A localização partilhada pode mais tarde surgir em investigações criminais ou em processos em tribunal. E, nas mãos erradas, o acompanhamento constante pode transformar-se facilmente em comportamento controlador.

A conveniência mantém as pessoas ligadas

Apesar dos riscos, a maioria continua a partilhar a localização porque isso simplifica o dia a dia.

As agendas actuais estão cheias, e muitas pessoas procuram ferramentas que reduzam esperas, planeamento e incerteza.

“Há algo a dizer sobre simplificar as minudências das relações”, disse Ogolsky. “Muitas pessoas não gostam de planear; não gostam de esperar.”

“Com a partilha de localização, conseguem obter informação sobre os outros sem os incomodar e conseguem estar onde precisam, à hora certa. Se conseguirem encaixar mais uma coisa, isso pode ser um verdadeiro benefício para algumas pessoas.”

O estudo completo foi publicado no Journal of Social and Personal Relationships.

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