Todos os anos, milhões de pessoas recorrem a suplementos de aminoácidos à espera de ganhar uma vantagem mental. A promessa costuma ser a mesma: estes compostos alimentariam os químicos do cérebro ligados à concentração, à motivação e à tolerância ao stress. No caso de um aminoácido em particular - a tirosina - a evidência de curto prazo tem, de facto, suporte científico.
O que faltava, até agora, era uma medição em humanos que esclarecesse se manter a tirosina elevada ao longo de décadas tem algum custo. Uma nova análise de grande dimensão procurou responder a essa pergunta - e encontrou uma resposta diferente para homens e para mulheres.
Tirosina sob os holofotes
O Dr. Jie V. Zhao, epidemiologista na Universidade de Hong Kong (HKU), liderou uma equipa que examinou dados de saúde e informação genética de mais de 272.000 participantes do UK Biobank, uma vasta base de dados britânica dedicada à investigação em saúde.
O objectivo foi perceber se dois aminoácidos relacionados - a tirosina e o seu precursor químico, a fenilalanina - apresentavam alguma ligação mensurável com a duração de vida. Ambos ocorrem naturalmente em alimentos ricos em proteína, como carne, ovos, lacticínios e soja.
Para tornar a avaliação mais robusta, a equipa recorreu também a uma abordagem genética: em vez de depender apenas de medições no sangue - que podem ser influenciadas por doença ou por outros factores - analisou diferenças herdadas no ADN para estimar relações de causa e efeito.
O resultado nos homens
Numa primeira leitura, os dois aminoácidos pareciam associar-se a um risco mais elevado de morte precoce. No entanto, quando os investigadores ajustaram a análise para a sobreposição entre ambos, a ligação da fenilalanina esbateu-se. A da tirosina manteve-se.
Nos homens, níveis geneticamente mais altos de tirosina associaram-se a uma redução de quase um ano na esperança de vida - em média, cerca de 0,9 anos. Nas mulheres, não surgiu uma associação clara.
Essa diferença entre sexos acabou por ser um dos achados mais marcantes do estudo. Apesar de os participantes partilharem, em geral, dietas e ambientes semelhantes, os efeitos biológicos não se revelaram equivalentes.
Porque é que a tirosina afecta o envelhecimento
O mecanismo exacto ainda não está fechado, mas destacam-se duas hipóteses. Uma delas passa pela resistência à insulina - uma condição em que as células deixam de responder de forma normal à insulina, aumentando o risco de diabetes e de outras doenças associadas ao envelhecimento.
Trabalhos anteriores relacionaram concentrações mais elevadas de tirosina no sangue com uma maior probabilidade de desenvolver resistência à insulina, o que pode ajudar a explicar porque é que níveis altos parecem acelerar certos aspectos do envelhecimento.
Um estudo de 2022 identificou esta ligação como particularmente forte em pessoas com excesso de peso.
Além disso, a tirosina é matéria-prima para a dopamina, a adrenalina e a noradrenalina - substâncias que regulam a forma como o corpo gere o stress.
Esses químicos interagem com as hormonas sexuais, o que pode, em parte, explicar porque é que a associação com encurtamento da vida é mais nítida nos homens do que nas mulheres.
Restringir a ingestão de tirosina em animais
Há anos que cientistas suspeitavam que aminoácidos específicos - e não a proteína em geral - poderiam estar por trás dos benefícios de longevidade observados em dietas com menos proteína. Experiências em animais começaram a confirmar essa ideia.
Em experiências com moscas-da-fruta, reduzir a ingestão de tirosina prolongou a vida dos animais - possivelmente por diminuir processos biológicos ligados ao envelhecimento - de acordo com um estudo publicado em 2024.
Em roedores, observou-se um padrão semelhante. Quando investigadores reduziram a ingestão total de proteína em ratos, as concentrações de tirosina nos tecidos diminuíram e os animais viveram mais.
Até este trabalho, ninguém tinha testado este padrão em humanos com esta escala. Os resultados ficaram alinhados com o que os estudos em animais antecipavam.
Porque é que os homens morrem mais cedo
Os homens tendem a morrer mais cedo do que as mulheres em quase todos os países. Nos Estados Unidos, essa diferença aproximou-se de seis anos durante a pandemia de COVID-19, segundo um estudo - a maior margem desde 1996.
Não existe uma explicação única para este fenómeno. Ainda assim, homens jovens apresentam naturalmente mais tirosina circulante do que mulheres jovens.
Essa diferença nos níveis de base, sugerem os novos dados, pode ser uma peça metabólica que ajuda a compreender porque é que, de forma consistente, os homens morrem mais cedo.
Os dados são consistentes
A equipa de Zhao executou a análise genética de várias maneiras, aplicando diferentes métodos estatísticos para garantir que os resultados não estavam a ser distorcidos por factores externos. A direcção da associação manteve-se em todas as abordagens. Os achados mostraram-se consistentes.
A aparente ligação da fenilalanina com a esperança de vida parece reflectir sobretudo a sua relação química com a tirosina.
Depois de a análise controlar o efeito da tirosina, o impacto independente da fenilalanina na duração de vida desapareceu - embora tenha mantido associações separadas com risco de doença cardíaca e de cancro.
O que isto pode mudar
Zhao sublinha que o estudo não testou directamente suplementos. Os níveis de tirosina no sangue resultam de genética, alimentação e metabolismo. Uma medição isolada, feita anos antes da morte, não consegue contar toda a história.
Ainda assim, os resultados deixam um aviso implícito para quem toma suplementos de tirosina durante longos períodos.
“Nosso estudo não apoiou o benefício do uso a longo prazo de tirosina na expectativa de vida”, disse Zhao.
Isto não é um apelo para eliminar alimentos ricos em proteína - a tirosina é essencial para o funcionamento normal. Mas sugere que os investigadores podem agora explorar se uma restrição moderada de proteína, ou abordagens alimentares semelhantes, poderia melhorar o envelhecimento saudável nos homens, uma questão que passa a ter suporte em evidência genética humana.
O que este estudo mostra - pela primeira vez em humanos com esta dimensão - é que a tirosina não é apenas um precursor de químicos cerebrais com potencial ganho de desempenho. Nos homens, níveis cronicamente elevados parecem ligar-se directamente ao tempo que vivem.
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