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Estudo na Sustentabilidade na Nature quantifica a pobreza de arrefecimento para mais de dois mil milhões

Pessoa arruma toldo branco no terraço de casa com placa solar, ventoinha e vaso de plantas ao sol.

Quando uma onda de calor faz disparar as temperaturas, o instinto de muita gente é procurar alívio imediato. Ouve-se o zumbido de uma ventoinha ao fundo, há água fria no frigorífico e as cortinas ficam corridas para travar o sol da tarde.

Estes gestos básicos podem tornar um dia duro mais suportável. Para milhares de milhões de pessoas, porém, essas escolhas simplesmente não estão disponíveis.

Em vastas zonas do planeta, há famílias a viver em casas que acumulam calor, sem electricidade fiável e com acesso limitado a água potável.

Muitas continuam a passar os dias a trabalhar no exterior, sob um sol implacável. À medida que as alterações climáticas elevam as temperaturas, este conjunto de condições está a alimentar uma emergência de saúde pública em expansão.

Um novo estudo publicado na Sustentabilidade na Nature veio quantificar a dimensão do problema.

Milhares de milhões enfrentam pobreza de arrefecimento

Os investigadores estimam que mais de dois mil milhões de pessoas vivem no que designam por “pobreza de arrefecimento”, isto é, enfrentam calor perigoso sem formas seguras ou financeiramente acessíveis de se manterem frescas.

As conclusões surgem numa altura em que partes do Sul da Ásia continuam a registar temperaturas extremas acima de 45 °C (113 °F).

Este calor extremo levanta questões urgentes sobre quem corre mais risco e sobre o que pode ser feito para proteger essas populações.

Os aparelhos de ar condicionado não chegam

É fácil assumir que a solução passa, pura e simplesmente, por dar a estas pessoas um aparelho de ar condicionado. Os autores do estudo querem corrigir essa ideia desde o início.

“Pobreza de arrefecimento e o que chamamos pobreza de arrefecimento sistémica referem-se a condições em que as pessoas são impedidas de alcançar segurança térmica, não apenas porque não têm um aparelho de ar condicionado”, afirmou Giacomo Falchetta, cientista do Centro Euro-Mediterrânico para as Alterações Climáticas.

Além disso, distribuir aparelhos não resolveria o problema: consomem enormes quantidades de electricidade e sobrecarregam redes frágeis.

“Não podemos, de forma alguma, sair desta crise à custa do ar condicionado”, acrescentou o activista climático Harjeet Singh, da Fundação Climática Satat Sampada.

A pobreza agrava o calor

Se o problema não se resume à falta de uma máquina, então o que está em causa? O estudo mostra que o calor raramente prejudica as pessoas de forma isolada.

O dano acontece quando o calor se combina com pobreza, habitação de má qualidade e serviços públicos débeis.

Aziza Mohamed, professora de geografia humana e estudos urbanos na Universidade do Cairo, considera que isto muda a forma como devemos olhar para o tempo quente.

“O verdadeiro perigo não vem apenas do clima”, disse.

“Vem da interacção entre o calor, a pobreza, a qualidade da habitação, serviços de saúde fracos e a ausência de infra-estruturas adequadas.”

Casas que retêm o calor

O primeiro risco está dentro de casa. Uma habitação frágil não protege do calor; pelo contrário, guarda-o.

Singh sublinha que milhões de residentes urbanos pobres vivem sob telhados de chapa ou de fibrocimento, o que pode elevar a temperatura interior até cinco graus acima da temperatura exterior.

Quando a electricidade falha repetidamente e a água não é segura, até gestos básicos como hidratar-se o suficiente e manter-se fresco se tornam difíceis.

O segundo risco é a saúde. Quando o calor extremo empurra o corpo para além do limite, a sobrevivência depende muitas vezes de receber assistência rapidamente.

Em países onde as clínicas são poucas, longe ou difíceis de alcançar, uma doença por calor que um médico trataria sem dificuldade pode tornar-se fatal.

Trabalho sem sombra

O terceiro risco está no trabalho. Agricultores, trabalhadores da construção e vendedores de rua passam muitas horas ao sol e não têm como se refugiar numa divisão fresca.

O esforço físico é ainda maior porque grande parte deste calor é húmido, o que impede o suor de arrefecer a pele de forma eficaz.

Estes encargos não se distribuem de maneira igual. Mulheres, crianças, pessoas idosas, minorias e as famílias mais pobres são as que sofrem mais.

São também quem tem maior probabilidade de viver em habitações precárias, ficar sem acesso a cuidados de saúde e informação, e não ter qualquer margem financeira para se proteger.

Duas regiões no limite

Duas zonas do mundo sobressaem, cada uma por razões distintas. No Sul da Ásia, a combinação de calor húmido, enormes populações a trabalhar ao ar livre e políticas frágeis torna o quotidiano perigoso.

Singh descreve a região como estando “na linha da frente absoluta da crise climática”, enfrentando “uma combinação letal de vulnerabilidade geográfica e desigualdade económica sistémica”.

A África Subsariana chega ao patamar de perigo por outro caminho: uma ausência quase total de infra-estruturas básicas.

Falchetta alerta que, mesmo onde o calor é menos intenso, “a ausência quase total de infra-estruturas de protecção significa que qualquer intensificação do calor seria catastrófica”.

O Egipto mostra outro caminho

O Egipto recorda que calor extremo não se traduz automaticamente em risco extremo.

Embora a maior parte da população do país esteja exposta a calor e humidade perigosos, o Egipto apresentou um nível relativamente baixo de pobreza de arrefecimento, graças a habitação mais robusta, melhores infra-estruturas e serviços públicos mais fortes.

O calor continua a chegar, mas os seus impactos podem ser reduzidos quando as comunidades têm recursos para lidar com ele.

Soluções baratas que funcionam de verdade

A boa notícia é que medidas simples e de baixo custo podem ter impacto. Pintar os telhados de branco consegue baixar a temperatura de uma divisão em vários graus. Palha e argila podem servir como isolamento barato.

Plantar árvores, recuperar charcos e parques, e abrir abrigos públicos com água gratuita ajudam bairros inteiros a manterem-se mais frescos, sem depender de um único aparelho de ar condicionado.

Os governos têm de apoiar estas ideias com leis e orçamentos concretos, e não apenas com promessas. Ainda assim, até as melhores soluções só ganham tempo.

“Não se pode adaptar indefinidamente ao calor extremo. Há limites para a adaptação ao calor extremo”, acrescentou Chandni Singh, do Instituto Indiano para os Assentamentos Humanos.


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