Associações de vítimas de abusos sexuais criticam exclusões em reuniões com o Papa Leão XIV
Oito associações de vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica em Espanha manifestaram, este domingo, pesar por vários grupos representativos destas pessoas não terem sido incluídos nos encontros com o Papa Leão XIV, que se encontra em Madrid.
Num comunicado conjunto, as organizações afirmam: "Sobreviventes dos abusos sexuais na Igreja pedem ao Papa Leão XIV uma escuta verdadeiramente inclusiva e denunciam a exclusão de associações representativas" de vítimas.
Visita do Papa a Espanha: Madrid, Barcelona e ilhas Canárias
Segundo informação do Vaticano, Leão XIV chegou no sábado a Madrid para uma visita de uma semana a Espanha, com passagens também por Barcelona e pelas ilhas Canárias. Durante a deslocação, estão previstos encontros com vítimas de abusos sexuais no seio da Igreja Católica em Espanha.
As oito associações signatárias do comunicado apontam "a falta de representatividade e de pluralidade nos encontros previstos com o Papa", acrescentando que não são conhecidos o local nem a hora das reuniões.
Receio de interpretação pública e apelo a escuta inclusiva
As associações alertam ainda para o risco de a mensagem pública ficar distorcida. "A opinião pública pode interpretar erradamente que o conjunto das vítimas se sente satisfeito com a celebração destes encontros. No entanto, existem diversas sensibilidades e numerosos grupos que não foram levados em conta. A exclusão de associações representativas e de sobreviventes que trabalham há anos pela verdade, a justiça e a reparação só contribui para aumentar o sentimento de abandono", lê-se no comunicado.
Sublinham também que o seu pedido não pretende colocar vítimas contra vítimas: "O nosso apelo não procura enfrentar umas vítimas com outras. Todas merecem respeito e consideração. O que pedimos é que nenhuma pessoa sobrevivente fique relegada à invisibilidade e que o compromisso com a verdade, a justiça, a reparação e as garantias de não repetição alcancem todos os afetados, sem exclusões", referem.
Reparação em Espanha: acordo entre Governo e Igreja Católica (CEE)
A 08 de janeiro, o Governo de Espanha e a Igreja Católica - através da Conferência Episcopal Espanhola (CEE) - anunciaram um acordo destinado à reparação de centenas de vítimas de abusos sexuais cujos casos já não podem obter resposta judicial.
No âmbito desse entendimento, caberá à Igreja assegurar a reparação.
Em causa estão indemnizações económicas ou outras formas de reparação simbólica para vítimas de crimes sexuais no contexto da Igreja Católica em Espanha. Estes processos são tratados e analisados por uma estrutura integrada na Provedoria de Justiça.
Comissão parlamentar e relatório do Provedor de Justiça Ángel Gabilondo
A 10 de março de 2022, o parlamento espanhol aprovou a criação de uma comissão, presidida pelo provedor de Justiça, Ángel Gabilondo, para investigar, pela primeira vez de forma oficial, os abusos de menores no seio da Igreja Católica.
De acordo com um relatório apresentado em outubro de 2024, o provedor indicou que foram recolhidos 674 testemunhos de abusos sexuais cometidos "no âmbito da Igreja Católica" em Espanha, tendo apelado às instituições públicas para avançarem com mecanismos de compensação das vítimas.
O relatório incluiu também uma sondagem segundo a qual 1,3% da população adulta de Espanha terá sido vítima deste tipo de crimes, o que corresponde a cerca de 445 mil pessoas.
Pela mesma estimativa, 0,6% dos abusos (envolvendo perto de 236.500 vítimas) terão sido praticados por sacerdotes ou por outros membros da Igreja Católica.
Na sequência desse relatório, o Governo espanhol aprovou, no mesmo ano, um plano de ressarcimento das vítimas e afirmou ter iniciado negociações com os bispos para que a instituição suporte os custos das indemnizações nos casos sem resposta judicial - por prescrição ou por dificuldade na obtenção de provas.
As associações que agora emitiram o comunicado recordam que, nos últimos anos, também colaboraram com a Provedoria de Justiça, mas salientam que nem todas as vítimas se encontram contempladas no acordo assinado entre Governo e Igreja, nem todas o subscrevem.
Declarações do Papa sobre abusos sexuais na Igreja
No sábado, o Papa declarou que os abusos sexuais "são uma chaga ainda aberta" e assegurou que continuará a trabalhar pessoalmente, tal como toda a Igreja, para enfrentar o problema.
"Sublinho o facto de que eu pessoalmente trabalhei sempre para instituir comissões, para fazer regras e continuarei a fazê-lo, também toda a Igreja, porque é uma chaga ainda aberta", afirmou Leão XIV, segundo jornalistas que viajaram com o Papa no avião que o transportou de Roma para Madrid.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário