Drones em São Petersburgo e o Fórum Económico Internacional
A carta aberta que o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, dirigiu ao seu homólogo russo, Vladimir Putin, na passada quinta-feira, só foi tornada pública no dia seguinte - precisamente depois de drones ucranianos terem atingido um terminal petrolífero em São Petersburgo, a cidade natal de Putin. A divulgação coincidiu ainda com o momento em que o líder russo se preparava para receber, na mesma cidade, a elite da elite do país (ou, pelo menos, a parte que ainda permanece na Rússia), no Fórum Económico Internacional.
O Kremlin promove este encontro como uma espécie de equivalente ao Fórum de Davos - a reunião anual, na cidade suíça com o mesmo nome, onde se juntam alguns dos rostos mais influentes da economia e da política mundiais.
Nas múltiplas contas da rede Telegram - a plataforma mais usada na Ucrânia e na Rússia para circular informação militar, e onde vários militares no ativo, sob pseudónimo, publicam análises quase diárias das oscilações na linha da frente - multiplicaram-se vídeos com colunas de fumo negro a erguer-se na zona portuária. Essas imagens acabaram por funcionar como cenário involuntário para fotografias de participantes a chegar ao evento, tanto nas redes sociais como na imprensa internacional.
A hierarquia do recado: primeiro a mensagem militar
Zelensky enviou primeiro a mensagem militar e só depois a diplomática, numa ordem que definia a hierarquia do argumento: a Ucrânia consegue chegar a São Petersburgo com drones e, a partir dessa posição, propõe uma “reabertura imediata” das negociações - expressão usada na carta aberta endereçada formalmente a Putin, mas concebida, na prática, para ser lida por vários destinatários. Entre eles, um tal de Donald Trump, que recebe correio no número 1600 Pennsylvania Avenue, em Washington, DC.
Para atingir o terminal petrolífero de São Petersburgo, os drones ucranianos percorreram mais de mil quilómetros - algo como a distância de Aveiro a Casablanca, por exemplo. Zelensky enquadrou publicamente a operação como parte do que Kiev chama “sanções de longo alcance”, uma escolha de palavras deliberada para equiparar ataques a infraestruturas russas a restrições económicas aplicadas pelo Ocidente.
A janela temporal do ataque foi escolhida para não deixar dúvidas: representou um incómodo para Putin, poucas semanas depois de o Kremlin ter reduzido o desfile anual do Dia da Vitória em Moscovo, a 9 de maio, por receio de ataques de drones ucranianos. É precisamente nos dias em que o Kremlin quer mostrar que o seu poder continua intocado que a Ucrânia escolhe mostrar que a projeção de estabilidade não depende apenas de um só interveniente.
O conteúdo da carta: proposta, tom e leituras
Depois do ataque, a carta sugeria um encontro presencial entre ambos os líderes num país neutro, a implementação de um cessar-fogo total durante as negociações e, como antecâmara para o fim da guerra, a troca de todos os prisioneiros de guerra.
O registo escolhido - frontal, afirmativo, exigente e até com um toque trocista (ou “mal educado”, na leitura de Putin) - encaixa no padrão comunicacional da equipa de Zelensky. “Com ousadia, com dignidade, com a máxima confiança e com ambição, a longa carta ao presidente russo foi escrita a partir de uma posição de consciência das nossas atuais capacidades de defesa. E também com a compreensão e a consciência das nossas capacidades militares crescentes a curto prazo”, afirma ao Expresso Ivan Stupak, analista militar, conselheiro de vários governos ucranianos e ex-oficial dos Serviços Secretos da Ucrânia (SBU).
O historial recente alimenta este estilo. Já a 9 de maio - a data mais simbólica do calendário político russo, que assinala a vitória sobre o exército nazi - Zelensky tinha escrito no X que autorizava a parada em Moscovo a “ter lugar”.
Ao mesmo tempo, acrescenta Stupak, pesou a perceção de que cada dia adicional de guerra cobra um preço que não cabe em contas financeiras nem em qualquer indicador material, mas se mede em vidas de soldados na frente. Esse fator terá ajudado Zelensky a “voltar a posicionar-se como alguém que se preocupa com o seu povo”. Ainda assim, quem combate na linha da frente não vê necessariamente as coisas dessa forma.
O Expresso falou há poucas semanas com um militar colocado na região sul que mostrava desânimo com a falta de coordenação entre as cúpulas políticas e os militares no terreno e queixava-se de falta de empatia do Governo para com quem continua a lutar diariamente - não nos corredores da diplomacia, mas nas trincheiras.
Fragilidades ucranianas e a pressão para negociar
Stupak não ignora vulnerabilidades do lado ucraniano. “Há um desgaste significativo das infraestruturas ucranianas e, em particular, do sector energético, o que poderá levar a apagões já a partir de outubro de 2026”, e esta carta “também pode ser lida, dentro e fora da Rússia como uma capitulação da Ucrânia e um reconhecimento de fraqueza na frente”. Daí, defende, a necessidade de avançar com uma proposta negocial.
Do lado russo, de acordo com a informação de Stupak, muitos dos mapas apresentados por comandantes russos em reuniões com decisores militares “diferem em dezenas de quilómetros” da realidade, “naturalmente, em favor da Federação Russa”. Esse desfasamento alimentaria, no topo, a convicção de que a vitória está ao virar da esquina: “o Kremlin mantém a ilusão de que a guerra será ganha daqui a pouco, daqui um mês ou dois, no máximo até ao fim do ano, pelo que o combate deve continuar”.
A audiência real: Putin, elites russas e Trump
Um alto responsável ucraniano, em declarações ao “Kyiv Independent”, sustenta que a carta nunca teve como destinatário único o homem cujo nome surgia no topo. O público-alvo real seria o círculo interno de Putin, elites russas crescentemente cansadas da guerra e também os cidadãos russos comuns. “Acredito genuinamente que Zelensky tentou chamar a atenção para os seus esforços e mostrar-se como um líder disponível para negociações de paz.
Em primeiro lugar, foi feito para Trump. Porquê? Para lhe mostrar quem está realmente a bloquear o caminho para a paz e motivá-lo a exercer ainda mais pressão sobre a Rússia”, diz Ivan Stupak.
Nesta ótica, o texto funciona menos como instrumento diplomático clássico e mais como documento de atribuição de responsabilidade: algo desenhado para continuar a circular muito depois de existir (ou não existir) uma resposta do Kremlin e para ficar registado como prova - até para eventual uso futuro num tribunal internacional ou especial - de que a Ucrânia procurou soluções.
A resposta de Putin no Fórum e a encenação do desprezo
Putin respondeu no Fórum Económico com a contenção calculada que marca muitas das suas intervenções. “Fizeram-me chegar esse papel. Dei uma vista de olhos. Kiev decidiu que era apropriado passar a um debate público, e isso está errado”, afirmou, acrescentando que a carta tinha “elementos de falta de educação” e que não via qualquer utilidade numa reunião com Zelensky.
A resposta foi, em si, uma encenação: ao reduzir o documento a “esse papel” e ao sugerir que apenas o folheou, Putin comunicou desdém sem ter de rebater, de forma substantiva, nenhuma das propostas concretas incluídas no texto.
Talvez o maior erro de etiqueta de Zelensky tenha sido tocar na idade de Putin, num dos excertos mais citados da carta: “O mundo não se cansou da Ucrânia (...), mas a fadiga em relação à Rússia cresce, mesmo entre aqueles que vos ajudam a contornar as sanções e a manter a economia à tona. Não pode deixar de notar: depois de 26 anos no poder, a idade começa a cobrar o seu preço. E com o tempo, a fadiga em relação à sua pessoa só vai crescer”.
Mudança retórica: a guerra como responsabilidade pessoal de Putin
A carta introduziu também uma subtil mudança retórica em relação ao discurso anterior de Zelensky ao atribuir a responsabilidade pela guerra diretamente a Putin enquanto indivíduo e ao afastar-se de uma tese trabalhada por vários analistas ucranianos próximos de Zelensky, que tendem a distribuir culpas pelo Estado e pela sociedade russos de forma mais abrangente.
O líder ucraniano quis mostrar que apenas Putin deseja esta guerra, e que, por esse desejo, toda a população tem de pagar um preço muito alto - em vidas e em resiliência económica. E os números não ajudam a narrativa de estabilidade. Num texto de análise na “Economist”, Alexandra Prokopenko escreve que a economia russa entrou na fase “da morte”, aquilo que alpinistas descrevem como o que sucede ao corpo humano acima dos 8000 metros de altitude: o corpo começa a alimentar-se do próprio corpo.
A carta chegou também numa altura em que a Europa quer estar à mesa mas continua sem conseguir decidir quem se senta onde. Bruxelas aplaudiu a iniciativa: a porta-voz da Comissão Europeia descreveu a carta como “mais uma demonstração de que os ucranianos procuram negociações genuínas”. Ainda assim, não se conhece uma estratégia coerente da UE, nem está claro quem poderia negociar em seu nome numa eventual nova ronda.
O analista político ucraniano Ihor Reiterovych resumiu ao “Kyiv Independent” a lógica do gesto numa frase que se espalhou nos dias seguintes: “Diz aos ocidentais ‘estamos prontos para negociar’, e aos russos ‘Putin vai devorar-vos porque quer continuar a guerra’.
O que fica por provar: pode isto produzir resultados?
A pergunta que a carta deixa em aberto é se existe algum cenário em que estas palavras possam produzir um resultado concreto. E a resposta honesta, olhando para a história diplomática deste conflito, é, provavelmente, não, pelo menos no curto prazo.
O Kremlin tem evitado conversas diretas entre os dois líderes em país neutro, insistindo, em alternativa, que Zelensky se desloque a Moscovo - uma condição que os ucranianos encaram como tentativa de encenar uma derrota ucraniana por parte do Kremlin.
Ainda assim, mesmo sem efeitos imediatos, Putin foi obrigado a falar “desse papel” no seu momento de glória anual, dividindo o protagonismo com imagens de torres de fumo negro a subir do porto da cidade onde construiu a rede de poder que, até hoje, o sustenta no Kremlin. A carta pode não ter aberto caminho a negociações, mas registou, para a História, quem as propôs e quem as recusou.
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