Autores raramente são apanhados na maioria dos crimes e muitos destes ilícitos nem chegam a ser comunicados às autoridades. Só Lisboa desembolsa quatro milhões por ano para apagar grafitos.
Vandalismo nas autarquias: custos que recaem nos cofres municipais
As câmaras municipais suportam, todos os anos, custos de milhões de euros para reparar danos em infraestruturas e património público provocados por vandalismo. Entre os casos apontados pelas autarquias surgem grafitos, furtos de bustos, portas forçadas, mobiliário urbano estragado e monumentos danificados, num cenário que descrevem como um crime que, muitas vezes, fica sem punição. Na maior parte das ocorrências, não é possível identificar o autor, o que faz com que a conta acabe quase sempre por ser paga pelos municípios. Também são raras as situações em que as seguradoras indemnizam as autarquias pelos prejuízos.
As sucessivas pichagens no Padrão dos Descobrimentos - incluindo uma realizada por uma cidadã francesa que abandonou o país sem ser punida - ilustram estragos que se acumulam diariamente, de norte a sul. No Porto, aumentou no ano passado o número de fachadas vandalizadas e o montante anual destinado à sua limpeza varia entre 200 e 400 mil euros. Em 2025, contabilizaram-se mais de 19 mil intervenções de remoção de sujidade e grafitos na Invicta. Já em Lisboa, a eliminação de grafitos obriga a autarquia a gastar quatro milhões por ano.
Ocorrências e faturas: Amarante e Viana do Castelo
Em Amarante, o município indicou ao JN a existência de 19 ocorrências de vandalismo desde 2024, com custos superiores a 33 mil euros. Apenas uma dessas situações foi comunicada ao Ministério Público. Em 2025, foram registados oito episódios, que chegaram mesmo a motivar, em abril, o encerramento das casas de banho do Parque Multifuncional do Rossio.
Viana do Castelo também detalhou valores: em 2024, gastou mil euros na reparação da barreira do parque de estacionamento do Centro Cultural e na remoção de grafitos em edifícios municipais, no parque da cidade, no skate parque e em transportes públicos. No ano de 2025, foram despendidos mais 440 euros para nova limpeza de grafitos no parque da cidade, na Escola Secundária Santa Maria Maior e na via pública. Em 2026, a despesa mais significativa, superior a 110 mil euros, foi a retirada de pichagens no edifício do Jardim D. Fernando.
Aluno identificado
Para lá das paredes pintadas, há outros prejuízos relevantes. Em Belmonte, o município gastou cerca de 30 mil euros em 2025 e apresentou queixa às autoridades. Em Melgaço, a Câmara refere ter gasto mais de quatro mil euros com atos de vandalismo desde 2024. Das 12 ocorrências registadas, sete foram participadas à GNR. Já em Mourão, os encargos ascendem a 4800 euros em 21 situações, todas reportadas às autoridades.
Em Torres Vedras, apenas em 2024 e em 2025, o município contabilizou 6300 euros devido à destruição de equipamentos municipais. Um dos casos mais caros foi o furto e a destruição do sistema de rega do Parque do Centenário: a situação foi comunicada às autoridades, mas a reparação ultrapassou os 2600 euros. "No caso de vandalismo registado no balneário do estádio municipal, o autor (um aluno do agrupamento de escolas local) foi identificado, tendo os danos sido ressarcidos pelos encarregados de educação. Os restantes episódios não foram reportados, por se tratar de situações em que os autores não foram identificados", explicou a Câmara.
Queixas, seguros e videovigilância
Segundo as autarquias, a falta de identificação dos autores está na origem de muitas situações que acabam por não ser comunicadas às autoridades. Mesmo suportando despesas elevadas sem retorno, há exemplos em que as seguradoras acabaram por cobrir os prejuízos. Em Alcochete, por exemplo, o município foi ressarcido pelos estragos causados por uma invasão na Escola Básica de Samouco, em 2024, e pelos vidros partidos na biblioteca em 2025.
Com o objetivo de travar estes comportamentos, tem aumentado o número de municípios a instalar câmaras nas cidades. Coimbra anunciou a colocação de mais 38 câmaras (que se somam às 17 já existentes) e cinco serão instaladas no Parque Mondego, onde se têm registado repetidos atos de vandalismo. Também Cascais está a avançar com um sistema de videovigilância com 444 câmaras. "Em paralelo, tem sido reforçado o investimento na Polícia Municipal, enquanto instrumento de apoio à fiscalização e contributo para a prevenção e dissuasão de ocorrências no espaço público", refere o Município, que despendeu cinco mil euros para reparar danos nos últimos dois anos.
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