Há falecimentos que funcionam como um sinal inequívoco de que o século XX ficou, de vez, para trás.
Edgar Morin morreu a 29 de maio de 2026, com 104 anos. Era uma das derradeiras vozes capazes de falar, em primeira mão, da Resistência durante a Segunda Guerra Mundial, da revolta estudantil de maio de 68, da queda do Muro de Berlim em 1989 e dos atentados de 11 de setembro em 2001. Com ele, a Humanidade perde um dos seus últimos grandes narradores do século passado - mas não nos deixa sem orientação: fica um fio condutor para não nos extraviarmos no emaranhado.
Uma vida atravessada pelos grandes choques do século XX
Quando a Segunda Guerra Mundial começou, em 1939, Edgar Nahoum - filho de judeus sefarditas - tinha acabado de completar 18 anos. Dois anos depois, aos 20, já se alinhava nas fileiras da Resistência. Troca de nome, combate o nazismo, e é aí que se forma o pensador que passaria toda a vida a insistir numa ideia simples e exigente: o Mundo deve ser visto como um todo. Vivemos numa era planetária e, por isso, aquilo que acontece num ponto do globo repercute-se, inevitavelmente, em todos os outros.
Edgar Morin e o “pensamento complexo”
O apelido “Morin” nasce, curiosamente, de um mal-entendido. Em Toulouse, numa reunião de resistentes em 1943, apresenta-se como “Edgar Magnin”, evocando uma personagem de Malraux, protagonista do romance “A esperança”. Um companheiro interpreta o nome como “Morin” - e assim fica. A designação pega e transforma-se na identidade pública e intelectual de um livre-pensador que defendia que tudo se encontra interligado e que ler a realidade aos pedaços pode conduzir-nos ao desastre.
Morin é o criador do “pensamento complexo”. Enquanto o Mundo se estreitava ao ponto de já não conseguir conversar com o vizinho do lado, ele fazia questão de ligar a biologia à poesia, a economia à ética, a política à vida. Circulava pela sociologia, filosofia e antropologia, e também pela biologia e pela ecologia, recusando aprisionar-se numa única disciplina. Para ele, o conhecimento só tem utilidade quando serve para relacionar o que, à primeira vista, parece separado.
Amor, cinema e a dimensão humana de Morin
E porque os homens são feitos de cabeça, coração e carne, dentro do filósofo vivia um homem intensamente apaixonado. Casou três vezes; a última, já com 91 anos, em 2012. Para ele, o amor era “a única complexidade que vale a pena”. Mesmo depois dos 90, falava do amor como quem o encontra pela primeira vez.
O cinema foi outra das suas grandes paixões. Via nele a melhor escola de antropologia: um lugar onde se expõem os medos, os desejos e as contradições do século XX em movimento. Para Morin, a sala escura era um verdadeiro laboratório do humano.
O seu grande legado assenta, precisamente, na noção de que tudo se liga a tudo. Sem ligação, não há democracia que aguente, não há ecologia que floresça, não há Europa capaz de se compreender. Pouco adianta falar de clima sem falar de desigualdade, de saúde mental sem falar de trabalho, de Portugal sem falar do Mundo. Ele assistiu ao desmoronar do século XX e, ainda assim, não desistiu da Humanidade - não por optimismo ingénuo, mas por uma espécie de teimosia ética.
Do que não podemos abdicar no legado de Morin é da ideia de “cidadania terrestre”. Antes de qualquer outra pertença, somos humanos; quando nos esquecemos disso, caímos na armadilha da fragmentação, separamos a ciência da ética e a política da vida. É nesse terreno que a intolerância ganha espaço e se converte em barbárie, muitas vezes com um facto novo e um discurso limpo.
Afinal, o “pensamento complexo” limita-se a levar a sério a vida tal como ela é: não linear, feita de um emaranhado de afectos, perdas, encontros, ilusões e desilusões - e de amores que recomeçam aos 91 anos, porque cada vez que se ama de novo é a existência a oferecer-nos mais uma oportunidade de felicidade.
O caminho, portanto, não é desfazer o novelo e impor uma ordem diferente; é descobrir sentido dentro do emaranhado. Um sentido que nos una uns aos outros, ao planeta e àquilo que virá depois de nós.
Edgar Morin viveu 104 anos para nos lembrar que não estamos sós. Somos todos um. E talvez seja essa a afirmação mais revolucionária que alguém pode proferir em 2026.
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