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Leão XIV em Espanha: Madrid recebe o Papa com foco na imigração

Papa a discursar para multidão com bandeiras e cartaz de boas-vindas numa praça urbana.

Leão XIV iniciou em Espanha uma visita de uma semana que tem a imigração como um dos pontos centrais da agenda, com passagens previstas por Barcelona e pelas Canárias. Em Madrid, foi recebido no Palácio Real pelos reis e por várias autoridades do Estado, visitou um centro de apoio a pessoas em situação de sem-abrigo e, mais tarde, participou numa vigília com jovens.

Na Praça de Oriente, em frente ao Palácio Real, Miriam aguarda com a mãe a chegada do Pontífice, visivelmente entusiasmada. Traz na mão um porta-fatos de uma conhecida marca de vestidos de noiva. "Caso-me em outubro e acabei de comprar o meu vestido", diz com um sorriso envergonhado. "Foi improvisado, a loja está aqui ao lado e viemos de caminho, mas, na verdade, conseguir ver o Papa e que possa abençoar o vestido, nem que seja de longe, é algo muito bonito", diz Miriam.

Com 29 anos, resume o que espera desta deslocação numa única palavra: "Esperança". "Nos tempos que vivemos, um Papa vir dar-nos esperança é uma das coisas mais importantes que pode trazer à sociedade. E vir a Espanha é uma grande notícia. Estamos muito contentes e vamos desfrutar deste momento juntos, com família e amigos".

Entretanto, já tinha passado mais de uma hora desde que os sinos da Catedral da Almudena - mesmo ao lado do Palácio Real - tocaram para assinalar a aterragem, em Madrid, do avião que transportava Leão XIV. Com a chegada prestes a acontecer, a inquietação cresce na praça. "Vai entrar por que lado?"; "Achas que aqui vamos conseguir vê-lo?" - ouvem-se dúvidas por todo o lado, à medida que a expectativa se transforma em nervosismo.

Quando, por fim, Leão XIV cruza o Pátio de Armeria, muitos não escondem a frustração: o Pontífice chega num carro oficial, quase sem se deixar ver. A perceção muda algumas horas depois, quando o Papa sai no papamóvel e percorre a Praça de Oriente, cumprimentando os fiéis.

"É uma oportunidade histórica, poder ver o Santo Padre na nossa cidade", afirma José Manuel, de 58 anos. "As mensagens deste Papa estão a ser muito enriquecedoras. É uma pessoa valente, que se tem posicionado contra as guerras, contra o mau uso da inteligência artificial".

130 mil pessoas

Ao seu lado, Estela, também com 58 anos, acompanha a leitura. "Vem lembrar-nos de uma série de valores que se estão a perder. O Mundo está cada vez pior e espero que isto seja como uma injeção de vida, que nos dê outro ponto de vista. Tenho gostado muito de tudo o que tem dito".

A anterior visita papal a Madrid tinha ocorrido há 15 anos: em 2011, Benedicto XVI presidiu às Jornadas Mundiais da Juventude. O longo intervalo ajudou a explicar a dimensão desta receção na capital espanhola: mais de 130 mil pessoas juntaram-se nas ruas para ver o primeiro passeio de papamóvel de Leão XIV, num trajecto de três quilómetros pelo centro da cidade.

Esse momento marcou o primeiro grande banho de multidão do Pontífice. O segundo chegou ao fim da tarde, durante a vigília com os jovens. Três horas antes do arranque, já se formavam filas com milhares de pessoas para atravessar os apertados controlos de segurança na Praça de Lima, junto ao estádio Santiago Bernabéu. "Viemos almoçar e pensávamos ir ainda tomar um café, mas vimos a fila e achámos que era melhor ficar já por aqui", conta Helena, que veio acompanhada pela mãe e pela filha.

Portuguesas na multidão

A vigília de oração encheu a praça com cerca de um milhão e meio de pessoas. No meio da multidão, também se ouviu português. "Tive muita pena de não estar presente quando o Papa Francisco esteve em Lisboa e o que se sente aqui não se consegue explicar, só dá mesmo para sentir", diz Maria Cecílio, de 38 anos, residente em Madrid há cinco anos. Foi escolhida como voluntária tanto para a vigília de sábado como para a Missa de Cibeles, no domingo. "Isto é Deus", diz com um sorriso. "Foi sorte, estamos em setores mesmo perto do Papa e estar aqui, com todos estes jovens, é sentir que há esperança para a Igreja".

Mesmo ao lado, a amiga - também Maria e também portuguesa - descreve o ambiente destes dias como algo que lhe "deixa a pele de galinha". "É um espírito de entreajuda enorme, de alegria, de união para receber o Papa Leão XIV".

Leão XIV aterrou em Espanha este sábado, perto das 10.15 horas, e começou o dia no Palácio Real. Aí, foi recebido pelos reis de Espanha, pela princesa Leonor, pela infanta Sofia, pelo primeiro-ministro Pedro Sánchez e por várias figuras das instituições do Estado.

Durante a tarde, deslocou-se a um centro da Cáritas, onde se encontrou com pessoas sem-abrigo. Nesse momento, pediu que as "exigências de caridade e justiça" não sejam esquecidas e fez a primeira referência à imigração, assunto colocado no centro desta viagem. "Quem está em Madrid é de Madrid. O exercício da caridade não pode ser desprezado nem ridicularizado, como se se tratasse de uma teimosia de alguém".

Um discurso com mensagem política e elogios à posição espanhola

No seu primeiro discurso em Madrid, Leão XIV dirigiu-se à Europa com um apelo para que "abandonar os discursos polarizadores" e deixou um agradecimento a Espanha pela posição assumida nos conflitos mais recentes, num texto marcado por recados políticos. "Expresso o meu agradecimento ao vosso país, pela fidelidade ao direito internacional, que se traduz num compromisso ativo com a paz e a solidariedade entre os povos", disse em castelhano, no Palácio Real.

O Papa referiu ainda a polarização no país e no Mundo. "Convido todos, por amor à verdade, a abandonar as narrativas divisórias e polarizadoras da vossa realidade social, para passar das simplificações estéreis à apreciação da complexidade. Vejo aqui uma vocação específica da Europa, de que Espanha é protagonista original e fundamental", afirmou, acrescentando um pedido de maior investimento público na educação. "A segurança - que pensamos, com demasiada frequência, provir das armas e dos muros - amadurece, pelo contrário, quando se aprende a avançar com o outro, a crescer juntos, ombro a ombro".

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