Num vale abrupto e densamente habitado, por baixo das muralhas da Cidade Velha de Jerusalém, o solo tem sido remexido nas últimas semanas por tratores e maquinaria de demolição. Na zona de al-Bustan, no bairro de Silwan, moradores que são alvo de uma campanha agressiva de expulsão de palestinianos receberam instruções para abandonar as suas casas. O objectivo é abrir espaço ao chamado Jardim do Rei, um parque de inspiração bíblica - e, para muitas famílias, destruir a própria habitação acaba por ser a alternativa menos dispendiosa.
Silwan e o Jardim do Rei: o plano para al-Bustan
Mujahid Badran é um dos cerca de 1450 palestinianos que vivem em al-Bustan, em Silwan, área que as autoridades israelitas pretendem arrasar para aí instalarem o Jardim do Rei. O parque é apresentado como um projecto de inspiração bíblica, associado à tradição do rei Salomão, e integra o eixo turístico e arqueológico da chamada Cidade de David, administrada pelo grupo pró-colonização Elad.
Em vários momentos, a oposição internacional e as conversações entre residentes e a Autarquia contribuíram para adiar o plano durante anos. Ainda assim, segundo o diário hebraico "Haaretz", nos últimos meses as demolições têm avançado mais depressa, impulsionadas por pressão ao nível local.
Eid al-Adha: uma casa de 75 metros quadrados demolida pela própria família
Palestiniano de 29 anos e pai de três filhos, Mujahid Badran passou os primeiros dias do Eid al-Adha (uma das datas mais sagradas do Islão) a deitar abaixo a sua própria casa, em Silwan, na Jerusalém Oriental. Com a ajuda de familiares, uma marreta e dois martelos pneumáticos, iniciou a demolição da construção de 75 metros quadrados que tinha levantado em 2019.
Na semana passada, Badran - que já pagou o equivalente a dezenas de milhares de euros em multas, honorários judiciais e custos de demolição - foi visitado pela Polícia israelita. "Não estavam satisfeitos. Disseram-me: 'Ou continuas ou continuamos nós'. Eu não queria colocar em risco as casas vizinhas continuando a demolição por conta própria, por isso deixei que terminassem", contou ao jornal "Haaretz". O que mais o inquieta são os filhos: "Onde vão morar? A mais velha está ciente de tudo. Eles nasceram e cresceram aqui. É muito difícil."
Demolições aceleram
Ordens durante o Eid e custos imputados às famílias
De acordo com o "Haaretz", durante as festividades do Eid foram emitidas pelo menos sete ordens de demolição, somando-se a mais de 50 ordens registadas nos últimos dois anos. Mahmoud Awadallah, de Jerusalém, denunciou que as famílias receberam apenas três dias para demolirem as casas; "caso contrário viriam as forças demoli-las, cobrando o custo às famílias".
Segundo o jornalista, "muitas destas casas não são recentes": várias foram erguidas antes do início da ocupação israelita, em 1967.
Também seguindo as determinações da Câmara Municipal de Jerusalém, Omar Abu Rajab, de 60 anos, demoliu a casa onde vivia em al-Bustan, hoje no centro desta campanha de expulsão de palestinianos. Ainda a lidar com a perda recente da mãe, Omar recebeu à porta representantes da Autarquia de Jerusalém, que lhe entregaram uma ordem de demolição. Com apoio de familiares, avançou com a destruição, procurando evitar a necessidade de contratar uma empresa de demolições e, em última instância, acabar por suportar os custos da ruína da própria habitação.
Só 7% das casas de palestinianos aprovadas
Tal como noutros processos semelhantes, a Autarquia de Jerusalém sustenta que as casas de Mujahid Badran e de Omar Abu Rajab foram construídas "sem licenças e ilegalmente". No entanto, organizações de defesa dos direitos humanos têm documentado há muito uma disparidade sistémica entre israelitas e palestinianos no acesso à aprovação de projectos de construção.
Uma investigação recente do "Haaretz" indicou que, em 2025, apenas 7% das casas aprovadas para construção em Jerusalém eram destinadas a residentes palestinianos, apesar de estes representarem 40% da população da cidade.
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