Luís Trigacheiro, com Átoa e Ornatos Violeta, foi quem inaugurou o palco principal do North Festival, no Estádio da Maia. Já os Snow Patrol encerraram a noite com a eficácia habitual. Três propostas bem diferentes entre si, todas com o mesmo destino: a aceitação do grande público.
Percebe-se sem dificuldade o que tem levado tanta gente a gravitar em torno de Luís Trigacheiro. As suas canções carregam uma sensação de serenidade que se tornou pouco comum - até na música - e abrem espaço para a tal “comunhão de afetos” que atravessa o seu imaginário artístico.
Na sexta-feira, ao fim da tarde, na abertura do palco principal do North Festival 2026, o músico alentejano trouxe para a Maia as sonoridades da sua terra, com destaque para o cante, hoje cada vez mais popular, mas temperado com uma marca muito própria. O efeito foi imediato: desde os primeiros temas - "Rosa pequenina" e "Arritmia" - o público rendeu-se ao seu registo calmo em palco, desfazendo as dúvidas de quem pudesse achar arriscado colocar um nome fora do universo rock a abrir o cartaz.
Comunhão em palco
Durante cerca de uma hora, Trigacheiro transformou o palco numa vasta planície alentejana - e não apenas por causa da imagem da região que enquadrava grande parte do espaço. Num tom quase de contador de histórias, foi embalando a plateia com segurança, enquanto a assistência crescia, tema após tema, ao longo do concerto.
Quando os Átoa subiram para se juntarem a ele, em canções como "Tu na tua" - uma das mais aplaudidas - a cumplicidade, que já era evidente, ficou ainda mais vincada. No encore, houve ainda tempo para alguns acordes do emblemático "A paixão (segundo Nicolau da Viola)", de Rui Veloso, para satisfação de muitos dos presentes.
Um "Monstro" muito aprazível
A contenção energética que se notou no público durante o concerto de Luís Trigacheiro acabou por ser útil para o que se seguiu, já no arranque da noite.
Passaram mais de 25 anos desde a explosão criativa dos Ornatos Violeta, mas isso não diminuiu o poder de atração das suas canções - depuradas na forma e certeiras a traduzir emoções. Tanto para quem os acompanhou no final da década de 1990 como para as gerações mais novas, que os redescobriram com entusiasmo nos últimos anos.
Ainda assim, seria um erro pensar que a banda de Manel Cruz se limita a gerir, sem risco nem imaginação, um reportório pop-rock já consagrado. Voltou a ver-se isso na Maia, com a presença de um acompanhamento de cordas que sublinhou a dimensão orquestral destas canções.
"Coisas" abriu caminho a uma atuação sólida, em que, sobretudo, os temas do incontornável "O monstro precisa de amigos" brilharam como as grandes canções que são. Talvez sem o ímpeto dos primeiros tempos, mas com uma gestão mais eficaz dos tempos e da emoção.
Na reta final, o concerto ganhou um suplemento de energia. Em "O.M.E.M", Cruz largou a postura mais contida do início e, já em tronco nu, deixou sair o animal de palco que sempre teve dentro.
O desfecho não foi ainda mais apoteótico apenas porque, no primeiro de três encores previstos, problemas técnicos apressaram o fim.
Gary Lightbody quer mudar-se para o Porto
O fecho da noite pertenceu aos Snow Patrol. Em digressão com o álbum "The forest is the path", os britânicos não fizeram, contudo, das canções mais recentes o centro do alinhamento (ficaram-se por duas). Em vez disso, escolheram revisitar, de forma panorâmica, uma carreira que já ultrapassa as três décadas - o que implicou regressar aos maiores êxitos, como "Run" e "Chasing cars", sem abdicar de temas menos conhecidos do seu reportório.
Apesar de nunca terem contado com uma base particularmente sólida de seguidores em Portugal - ao contrário do que sucede noutros países - os autores de "Fallen empires" não deixaram de se mostrar à vontade. Até porque, como admitiu o vocalista Gary Lightbody, tem o desejo de um dia se mudar para o Porto.
"Não pensem que digo isto em todas as cidades onde atuamos. É, aliás, a primeira vez que o faço", afirmou o músico na primeira vez que se dirigiu ao público, contando também que tinha passeado pela cidade nas horas anteriores ao espetáculo.
Como máquina de rock bem oleada, os Snow Patrol fazem da competência o seu traço mais distintivo. Saíram de palco com o público totalmente conquistado, num encore com "What if this is all the love you ever get?" e "Just say yes", provando - com a sala saciada - que o tempo não esmoreceu a paixão com que continuam a entregar-se à causa do rock.
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