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Lisboa: milhares na 27.ª Marcha do Orgulho LGBTI+ pelos direitos LGBTQIA+ contra o risco de retrocessos

Manifestantes na Marcha do Orgulho LGBTQ+ em Lisboa, com bandeiras coloridas e cartazes, durante o dia.

Milhares de pessoas participaram este sábado, em Lisboa, numa marcha em defesa dos direitos LGBTQIA+, alertando para o risco de retrocessos.

Concentração no Marquês de Pombal e descida pela avenida

Com o lema "Nem Silêncio, Nem Medo: Existimos e Resistimos", realizou-se a 27.ª Marcha do Orgulho LGBTI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgénero, Intersexo e outras identidades). A concentração teve início no Marquês de Pombal, em Lisboa, pelas 17 horas.

Ao ritmo dos tambores, os manifestantes começaram a descer a avenida enquanto erguiam bandeiras não só com as cores do arco-íris, mas também com várias outras combinações que identificam diferentes comunidades.

Pelo caminho, viam-se cartazes com mensagens como "ideologia é revogar leis de 2018 (contra todos os pareceres científicos)", "em cada rosto, igualdade" e "o amor das minhas mães merece ser celebrado, não explicado".

Participação e testemunhos durante a Marcha do Orgulho LGBTI+

Helder Bértolo, da Comissão Organizadora da Marcha do Orgulho, disse à Lusa que, em 2024 e 2025, o evento reuniu cerca de 50 mil pessoas e que, este ano, a expectativa é "de ter mais pessoas porque sentem que há uma série de direitos que estão a ser atacados".

"Tivemos uma tentativa no Parlamento de revogar a Lei 38 de 2018", sublinhou, referindo-se ao diploma que consagra o direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género - algo que, a acontecer, seria "o primeiro retrocesso depois do 25 de Abril". "Espero que isso não se concretize, mas é importante as pessoas estarem aqui a falar, a celebrar e também a reivindicar", acrescentou.

Já Hugo Silva, médico que se juntou à marcha, defendeu que, este ano, "com a ascensão da extrema-direita e com o discurso de ódio, mais importante que nunca é estar aqui a marcar posição, até por todos os outros que também não podem cá estar e que não podem falar".

Enquanto esperavam pelo início da descida em direção ao Terreiro do Paço, a estudante Mi contou que foi acompanhar Andreia, que participava pela primeira vez, e partilhou que "nunca tinha visto tanta gente acolhida e a sentir-se segura".

Mert Yilmaz, guia turístico turco, explicou à Lusa que era a primeira vez que marcava presença na marcha em Portugal, embora já tivesse participado noutros países. Para o guia, "ainda há pessoas que foram mortas ou acusadas por causa da sua sexualidade, por causa da sua identidade". "Estamos aqui porque estamos a lutar por amor e direitos iguais, não mais, não menos", afirmou.

Também Sandra Cardoso, gerente comercial, relatou que já tinha estado em marchas no Brasil, de onde é, e que, depois de se mudar para Portugal, quis juntar-se ao evento pela "representatividade do povo 'queer'" e por desejar um "mundo mais aberto".

No meio dos milhares de participantes - muitos com leques coloridos que, além de adereço, serviam como "instrumento" para marcar o ritmo e acompanhar a música -, o professor universitário João Oliveira disse à Lusa que participa em todas as marchas de orgulho LGBTQI+ e que tem observado um crescimento de ano para ano.

"Quando há partidos com ideologias fascistas presentes na esfera da democracia, é natural que estes números aumentem precisamente para reivindicar mais espaços de democracia", considerou.

Críticas políticas e aviso para possíveis recuos de direitos

A marcha contou ainda com a presença de Paulo Muacho, deputado do Livre, que salientou: "Este ano é mais importante do que nunca marcar presença nesta marcha e em todas as marchas pelo país, porque neste momento temos uma direita ainda mais radicalizada, uma direita que escolheu as pessoas LGBT como o seu alvo de ataque e que está a querer retirar direitos".

Joana Mortágua, do Bloco de Esquerda, também participou e disse ver com tristeza que "esta é a primeira marcha em muitos anos num contexto de recuo de direitos, com um Governo que tem uma agenda conservadora, que entendeu fazer uma guerra aos direitos, a todos os direitos sociais".

"Isso vê-se nos direitos das mulheres no pacote laboral, vê-se no recuo dos direitos dos trabalhadores, vê-se na proibição de bandeiras, na forma como os direitos dos jovens LGBT estão a recuar nas escolas, mas também no ataque aos direitos", argumentou, insistindo que os participantes foram à marcha para afirmar que resistem em conjunto.

Em comunicado, a Comissão Organizadora recordou que "a nova conjuntura política" a que se assiste "volta a colocar as pessoas e famílias LGBTQI+ em perigo, com sinais de que as conquistas das últimas décadas estão hoje em risco de retrocessos".

"Num ano em que as pessoas LGBTQIA+, especialmente as pessoas trans e de género diverso, têm sido atacadas sem qualquer pudor, com tentativas de reversão de direitos adquiridos, no que seria o primeiro retrocesso a nível de Direitos Humanos desde o 25 de Abril, e em que, pela primeira vez, ao fim de décadas, Lisboa não terá o Arraial Pride em junho, a importância desta manifestação é incontestável e símbolo de orgulho e de luta da comunidade, das suas famílias e pessoas aliadas", lê-se na nota.

A iniciativa reuniu 17 associações e coletivos com intervenção política nas áreas LGBTI+, feminista e antirracista.

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