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Leão XIV inicia viagem de uma semana a Espanha com imigração no centro da agenda

Homem de fato cumprimenta garoto junto a passageiros e câmaras numa pista de aeroporto, com avião Leão XIV ao fundo.

O Papa Leão XIV arranca neste sábado para uma deslocação de uma semana a Espanha, com passagens por Madrid, Barcelona e pelas ilhas Canárias. A imigração surge como um dos eixos mais marcantes do programa do chefe da Igreja Católica.

Quinze anos depois da última visita de um pontífice a Espanha, Leão XIV chega com uma agenda de peso político pouco habitual, onde o tema migratório ganha especial destaque. Um dos momentos de maior expectativa está reservado para 11 e 12 de junho, quando o Papa se encontrará com pessoas migrantes nas ilhas Canárias, uma das principais portas de entrada de imigração ilegal na Europa.

São frequentes as imagens de "pateras" (designação atribuída às embarcações de madeira utilizadas para transportar imigrantes ilegais) a alcançar o litoral canário. Em 2025, de acordo com números oficiais, 17.788 pessoas chegaram às Canárias em "pateras". No mesmo ano, 3.100 pessoas perderam a vida no mar, segundo a ONG Caminando Fronteras, que considera a "rota das Canárias" a mais mortífera do mundo.

Sem se querer afastar desta realidade, Leão XIV decidiu colocar a imigração no centro de vários momentos da visita. O Papa irá ao porto de Arguineguín, na ilha de Gran Canária, um local que ganhou notoriedade em 2020 como "o cais da vergonha". Nesse ano, milhares de pessoas desembarcaram ali e foram "amontoadas e deixadas à intempérie dias a fio", relatou esta semana Enélida Hernández, uma das coordenadoras da visita do pontífice às ilhas.

"Queremos que esse porto deixe de ser o cais da vergonha para ser o porto da esperança e mostrar a realidade atual, com milhares e milhares de pessoas que foram acolhidas, integradas e fizeram a sua vida em conjunto com o resto dos habitantes das Canárias", acrescentou.

No local, cerca de 1.800 pessoas imigrantes irão receber Leão XIV e serão partilhados vários testemunhos. O Papa prestará homenagem a quem morreu no mar e a quem salva vidas, como os pescadores das ilhas, e abençoará uma cruz construída com madeira de "pateras". Já em Tenerife, Leão XIV presidirá a uma missa com um altar feito a partir de embarcações ancoradas no mar e com orações em diversas línguas, incluindo algumas da costa ocidental de África, de onde partem estas embarcações.

Regularização

A passagem do Papa pelas Canárias coincide com a regularização extraordinária de imigrantes determinada pelo Governo espanhol, que pretende legalizar cerca de 500 mil pessoas até finais de junho. Pedro Sánchez acompanhará Leão XIV na deslocação às ilhas. A iniciativa de legalização contou com o apoio da Igreja Católica em Espanha e abriu um conflito sério com o partido de extrema-direita Vox, que acusou alguns bispos de "se lucrarem com a imigração ilegal" e de "irem contra a cultura cristã".

"Criticamos determinados bispos que têm determinadas posições em matéria de imigração incompatíveis com a defesa da nação, com a defesa do bem comum e com a defesa da cultura cristã em Espanha", afirmou então José António Fuster, porta-voz do partido. "O Governo proporciona-lhes o negócio com a invasão", acusou o líder do Vox, Santiago Abascal.

Quase em simultâneo, Leão XIV defendia que os imigrantes fossem tratados de "forma digna". "São seres humanos e temos que tratar os seres humanos de forma humanitária e não pior que os animais. Quando chegam as pessoas, são seres humanos e merecem respeito pela dignidade humana", disse.

As diferenças agravam-se pelo facto de o Vox exigir a introdução do conceito de "prioridade nacional" nos acordos de governos regionais na Extremadura e em Castela e Leão com o Partido Popular, defendendo que os espanhóis devem ter precedência no acesso a serviços e apoios públicos.

Neste contexto, outro ponto alto do roteiro será a ida do Papa ao Congresso dos Deputados - uma visita sem precedentes, de forte carga política - onde fará um discurso. "O Papa tem um duplo papel de Chefe de Estado e líder religioso", explica Fernando Nistal, diretor do Centro de Estudos e Análise Social CEFAS. "Intuo que as mensagens vão ser mais transversais, mais acima da política, de concórdia, de diálogo, de entendimento, de paz... e também acho que cada partido político vai fazer um uso partidário e vai adaptar a parte que lhe interessa do discurso do Santo Padre".

"É de esperar que a Igreja se posicione a favor da dignidade humana, sempre. Como também o fez com a nova encíclica, centrando-se na inteligência artificial e no facto de esta não ser neutra e de precisar certo controlo", prossegue Nistal. "A mensagem da Igreja coloca sempre a dignidade da pessoa no centro, em todas as suas dimensões. E isso afeta a imigração, mas também os direitos dos trabalhadores, os salários mais justos e uma economia centrada nas pessoas".

Sagrada Família

Entre os momentos mais aguardados está também a inauguração da Torre de Jesus da Sagrada Família, em Barcelona. Leão XIV abençoará a torre a 10 de junho, depois de uma missa na Basílica, precisamente no dia em que se assinala o centenário da morte do arquiteto Antoni Gaudí. A obra desta torre, concluída no início deste ano, tornou a Sagrada Família a igreja mais alta do mundo, com 172,5 metros de altura.

O programa do pontífice abre este sábado em Madrid, com um encontro com pessoas sem-abrigo num centro da Cáritas e, mais tarde, uma vigília noturna com jovens. Pelo caminho, estão previstos encontros institucionais com os reis de Espanha no Palácio Real. No domingo, haverá ainda uma missa multitudinária na Praça de Cibeles. A organização adiantou também que o Papa se encontrará com vítimas de abuso sexual por parte da Igreja, embora essas reuniões não integrem a agenda oficial e só devam ser noticiadas depois de acontecerem.

"A importância desta visita é enorme", resume Nistal. "É verdade que a realidade de Espanha mudou nestes 15 anos, mas acho que continuamos a ser um país culturalmente católico e esta viagem criou muito interesse e muita expectativa".

Eventos principais

Sábado, 6 de junho
Chegada a Madrid
Encontro com os Reis de Espanha
Vigília de oração com os jovens na Praça de Lima

Domingo, 7 de junho
Missa e procissão na Praça Cibeles

Segunda-feira, 8 de junho
Encontro com o primeiro-ministro, Pedro Sánchez
Visita ao Congresso dos Deputados
Encontro com a Comunidade diocesana no Santiago Bernabéu

Terça-feira, 9 de junho
Encontro com os voluntários de Madrid
Partida para Barcelona
Vigília no Estádio Olímpico Lluis Companys

Quarta-feira, 10 de junho
Missa na Basílica da Sagrada Família e bênção da Torre de Jesus

Quinta-feira, 11 de junho
Chegada a Gran Canária
Encontro com pessoas migrantes no porto de Arguineguín

Sexta-feira, 12 de junho
Chegada a Tenerife
Encontro com pessoas migrantes e missa no porto de Tenerife
Partida para Roma

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