Uma vida que acaba por conduzir à demência pode seguir muitos caminhos, mas existem fatores de risco recorrentes que tornam o diagnóstico mais provável.
Um novo estudo de grande dimensão mostra, ainda assim, que entre adultos mais velhos o peso desses fatores de risco não é igual para todos.
Em particular, alguns fatores parecem penalizar mais a cognição das mulheres do que a dos homens, e a acumulação de vários fatores de risco ao longo da vida tende a deteriorar mais a função cerebral das mulheres do que a dos homens.
Isto significa, noutras palavras, que certos fatores de risco podem não ter o mesmo significado no cérebro de uma mulher e no de um homem - com implicações diretas para a investigação e para os tratamentos da demência.
Sabe-se há muito que a demência é mais frequente em mulheres do que em homens, e a maior esperança média de vida não explica totalmente essa diferença.
Há, portanto, mais qualquer coisa em jogo, e estes resultados podem ajudar a clarificar o que é.
"O nosso estudo sugere que as mulheres podem estar em maior risco de demência porque experienciam um maior número de fatores de risco e porque estes fatores reduzem a cognição em maior grau do que [nos] homens", escrevem os investigadores.
As coautoras Megan Fitzhugh e Judy Pa, duas neurocientistas da University of California, San Diego, afirmam que os resultados reforçam a ideia de que o risco de demência deve ser avaliado e gerido de forma personalizada.
"Ao olharmos para além de quais os fatores de risco mais comuns, verificámos que alguns têm um impacto desproporcionalmente maior na cognição das mulheres", diz Fitzhugh.
"Isto sugere que os esforços de prevenção podem ser mais eficazes se forem ajustados não apenas à prevalência dos fatores de risco, mas também à intensidade com que cada fator afeta a cognição nas mulheres versus nos homens."
O que o estudo analisou
Os investigadores analisaram dados de saúde de 17.182 pessoas com 40 anos ou mais, avaliando 13 fatores de risco associados à demência.
A depressão, a inatividade física e os problemas de sono foram mais frequentes em mulheres, quando comparadas com homens.
Já taxas mais elevadas de perda auditiva, diabetes e consumo elevado de álcool foram, por outro lado, mais frequentemente reportadas por homens.
Fatores de risco de demência: diferenças entre mulheres e homens
Alguns fatores de risco estiveram associados a reduções maiores nas pontuações dos testes cognitivos em mulheres - um sinal de que afetam o cérebro feminino de forma mais negativa do que o masculino.
Entre esses fatores estavam a hipertensão arterial, a perda auditiva e a diabetes.
Um IMC mais elevado também se relacionou com um desempenho cognitivo pior em mulheres na casa dos 50 e 60 anos, mas essa associação não se verificou em idades mais avançadas.
No meio deste quadro de declínio cognitivo, surgiram também tendências positivas que apontam para a hipótese de certos fatores ajudarem a preservar a função cognitiva em mulheres, em comparação com homens.
"Dois fatores de risco, anos de escolaridade e colesterol total, mostraram associações positivas com a cognição, de tal forma que níveis mais elevados se correlacionaram com maior cognição", escrevem os investigadores no artigo publicado.
Tendo em conta a ligação à performance cognitiva, é possível que estes fatores sejam especialmente relevantes para investigar o risco de demência nas mulheres.
Limitações, sexo e implicações para prevenção
Ainda assim, por se tratar de um estudo observacional, não é possível demonstrar uma relação de causa e efeito. Uma análise de mais longo prazo poderia oferecer evidência mais robusta de que estes fatores de risco contribuíram para as pontuações obtidas nos testes cognitivos.
Embora "mulheres" e "homens" sejam reconhecidos como categorias de género, neste estudo os termos são usados para se referirem ao sexo biológico auto-reportado.
"É importante distinguir entre diferenças por sexo na prevalência de fatores de risco e o seu impacto na cognição, porque prevalência e impacto podem não corresponder", escreve a equipa.
"Focar apenas os fatores de risco mais prevalentes dentro de cada sexo pode ignorar certos fatores de risco que influenciam de forma mais marcada o declínio cognitivo."
Os novos resultados enquadram-se em investigação anterior que sugere que os fatores de risco para a demência podem afetar homens e mulheres de modos diferentes, embora esses trabalhos tenham tendido a analisar apenas um fator de risco de cada vez.
Atualmente, estima-se que a doença de Alzheimer afete um em cada nove adultos nos EUA com 65 anos ou mais, e dois terços das pessoas afetadas são mulheres.
Apesar de os números associados à demência serem preocupantes, existem formas reais e práticas de reduzir o risco, enquanto o trabalho em torno de tratamentos continua.
Os investigadores sublinham que todos estes fatores de risco são potencialmente modificáveis. Ou seja, são alvos concretos que as pessoas e os seus médicos podem tentar abordar - seja beber menos, mexer-se mais, ou procurar apoio para a depressão.
Os passos seguintes podem incluir investigação para perceber porque é que a cognição das mulheres poderá ser mais vulnerável a determinados fatores.
As alterações hormonais em torno da menopausa podem estar envolvidas, mas os mecanismos permanecem pouco claros.
"Estas diferenças realçam a importância de considerar o sexo como uma variável-chave na investigação sobre demência", diz Pa.
A investigação foi publicada na Biology of Sex Differences.
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