Um avião transportando mais de uma centena de migrantes repatriados dos Estados Unidos aterrou em La Guaira poucas horas antes dos terramotos na Venezuela. O edifício onde estavam alojados acabou por ruir e, até ao momento, não é claro quantos conseguiram sobreviver.
Repatriados em La Guaira antes dos terramotos
Depois de chegarem ao país, os migrantes repatriados foram encaminhados para um hotel em La Guaira. Ali, estava previsto recolher e validar os dados pessoais de cada um, para que pudessem ser libertados no dia seguinte.
Confusão sobre mortos e sobreviventes
"Ligámos para informar que o seu familiar morreu e que isso está confirmado", disse o governo da Venezuela à irmã de um dos migrantes, que falou na segunda-feira com a agência de notícias EFE e pediu para não ser identificada.
Segundo a familiar, a chamada partiu de uma pessoa que se apresentou como integrante da "Misión Vuelta a la Patria", o programa responsável pelas repatriações de migrantes venezuelanos e que, desde 2025, passou também a receber os deportados provenientes dos Estados Unidos.
"Não pode ser", respondeu a irmã. "Não pode estar confirmado porque ele está aqui comigo", continuou a familiar, que, naquele instante, estava ao lado do sobrevivente, então hospitalizado.
O homem tinha deixado a Venezuela há vários anos rumo aos Estados Unidos, depois de cruzar a pé diversas fronteiras e de ter sobrevivido ao Tapón de Darién, uma das rotas migratórias mais perigosas, onde vários venezuelanos morreram ao tentar chegar ao norte do continente americano.
Este ano, foi detido pelas autoridades norte-americanas e permaneceu preso por mais de um mês, até à passada quarta-feira, data em que foi deportado para a Venezuela.
"Esteve cerca de um mês e meio na prisão até ser repatriado. Foi a uma audiência. Obviamente não tínhamos recursos económicos para pagar um advogado que pudesse recorrer em seu nome. O juiz disse-lhe que a única opção era deportá-lo", contou a irmã.
O colapso do hotel e o relato sob os escombros
De acordo com a família, o migrante descreveu que, quando o terramoto ocorreu, viu outros repatriados a atirarem-se pela janela do local onde estavam para evitarem ficar presos entre os escombros.
A partir do segundo andar de um hotel em La Guaira - o estado mais devastado pelos terramotos -, tentou fugir a correr em direcção a uma porta, mas desmaiou depois de levar uma pancada na cabeça.
Já soterrado, apercebeu-se de que existiam pelo menos oito pessoas vivas, porque ouviu gritos em que contavam números: "Um, dois, três..." de tempos a tempos. Mais tarde, acabou por ficar sozinho, limitando-se a gritar apenas "um".
"Ele gritava 'um' e ninguém respondia. Não sabe quanto tempo passou até que começaram a chamar. Então, ele gritou que estava vivo. Resgataram-no e trouxeram-no para o hospital", relatou a irmã.
Familiares à procura de desaparecidos
Entretanto, Norbert Martínez continua à procura da irmã, Mariángela, também deportada dos Estados Unidos e que igualmente chegou no voo de repatriação da passada quarta-feira.
"Ninguém nos deu informações sobre onde estão os repatriados, se conseguiram salvar-se ou não. Ninguém nos diz nada", contou Norbert à agência EFE.
Na passada sexta-feira, no segundo dia após os terramotos, Norbert fez uma viagem de quase quatro horas desde o estado de Yaracuy, no oeste da Venezuela, até chegar a Caracas. Desde então, tem passado por morgues e por vários hospitais à procura de informações.
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