Um mosquito pousa-lhe no braço, pica e volta a levantar voo. Dias depois, pode acabar de cama, com febre, enquanto um vírus deixado pelo inseto ataca as suas células.
Para o mosquito que o transmitiu, nada disso parece existir. Fica infetado para sempre, continua a picar repetidamente e não dá sinais de adoecer com o agente que transporta.
Há anos que os cientistas tentam perceber como é que um inseto consegue conviver assim com uma infeção.
Uma infeção silenciosa em mosquitos
Dengue, chikungunya e vírus aparentados estiveram, durante muito tempo, confinados a zonas tropicais. Porém, há vários anos que se expandem para novas regiões - e não mostram sinais de abrandar.
As alterações climáticas e as viagens internacionais explicam uma parte do fenómeno, mas permanece um enigma biológico.
Uma revisão estima que mais de 80% das pessoas vivem hoje em locais onde existe risco de contrair um vírus transmitido por mosquitos.
Quando um mosquito apanha um destes vírus, transporta-o durante toda a vida. Ao longo desse tempo, o vírus continua a multiplicar-se no seu interior, e mesmo assim o inseto mantém-se suficientemente saudável para continuar a picar.
Foi precisamente esse “truque” que investigadores da Universidade Pompeu Fabra (UPF), em Barcelona, Espanha, procuraram esclarecer. A equipa foi liderada por Juana Díez, responsável pelo grupo de virologia molecular da universidade.
A contenção mantém o vírus vivo
Os investigadores infetaram células de mosquito com o vírus chikungunya e observaram o que acontecia.
No interior dessas células surgiu um padrão inesperado. Os modelos genéticos do vírus acumularam-se de forma contínua e permaneceram em níveis elevados. No entanto, a quantidade de proteína viral produzida a partir desses modelos manteve-se baixa: atingiu um pico cedo e, depois, foi diminuindo.
Ou seja, as células reduzem a conversão das instruções virais em proteínas - um estado a que a equipa chamou repressão translacional.
“É como se o vírus baixasse o volume da sua própria atividade”, afirmou Marc Talló-Parra, co-primeiro autor do estudo. Essa moderação ajuda a manter a célula viva.
As células de mosquito infetadas conservaram as suas reservas de energia e continuaram a dividir-se, sem apresentarem os danos típicos de uma infeção plena.
Até este trabalho, ninguém tinha demonstrado que um vírus transmitido por mosquitos fosse capaz de abrandar a própria atividade para se instalar de forma persistente.
Em que é que os humanos são diferentes
Em células humanas, o mesmo vírus adota uma estratégia agressiva. Apodera-se das “fábricas” de proteínas da célula, produz cópias a ritmo máximo e acaba por deixar a célula destruída.
É essa violência do processo que explica por que razão as pessoas infetadas fazem febre e se sentem tão mal.
O mesmo grupo já tinha descrito o mecanismo em humanos e identificado duas manobras.
Uma proteína viral consegue entrar no “centro de comando” da célula e desligar os genes do hospedeiro. Outra ajusta o mecanismo de leitura, permitindo que o código pouco eficiente do vírus seja processado rapidamente, como trabalhos anteriores já tinham mostrado.
Em conjunto, estes dois movimentos aceleram o vírus e contribuem para a destruição da célula humana.
A pergunta óbvia era se o vírus usaria o mesmo guião num mosquito. Se o fizesse, as células do inseto também deveriam morrer - mas isso não acontece.
Dentro do mosquito
Nas células de mosquito, nenhuma das duas manobras se verificou. A proteína viral que normalmente invade o centro de controlo celular ficou retida no fluido circundante, deixando os genes do inseto a funcionar. Também o mecanismo de leitura permaneceu inalterado.
Sem esses impulsos, o vírus é forçado a “ler” o seu código ineficiente de forma lenta, competindo com as necessidades normais da célula pelo acesso às fábricas de proteínas.
Na perspetiva dos investigadores, esta combinação mantém baixa a produção viral. Em vez da destruição observada em tecido humano, instala-se um impasse.
A equipa observou a mesma contenção em dois tipos de células de mosquito - num caso com as defesas antivirais do inseto ativas e noutro com essas defesas desligadas.
Como o padrão se manteve em ambas as situações, o abrandamento não parece depender dessas defesas. Tudo indica que faz parte da própria relação entre vírus e mosquito.
Uma estratégia partilhada
Para confirmar se se tratava de uma particularidade do chikungunya, a equipa repetiu a experiência com o vírus Zika. O resultado foi o mesmo.
Nas células de mosquito, o material genético do Zika foi-se acumulando enquanto a produção de proteínas se mantinha baixa, tal como acontecera com o chikungunya.
Estes dois vírus não são parentes próximos. Pertencem a famílias diferentes e têm organizações genéticas distintas, pelo que o mesmo comportamento em ambos aponta para algo mais profundo do que uma coincidência.
O facto de vírus distantes chegarem à mesma solução sugere uma estratégia moldada por uma longa história comum com os mosquitos.
Este equilíbrio favorece o próprio vírus. Um agente que esmagasse o seu mosquito acabaria por eliminar o veículo que o transporta; produzir apenas o suficiente - e não mais do que isso - permite-lhe permanecer num inseto vivo e capaz de picar durante semanas.
Como os vírus dos mosquitos sobrevivem
Para as pessoas, este “passageiro silencioso” é uma má notícia. Um mosquito com infeção persistente continua a ser um transmissor eficaz.
Um estudo concluiu que mosquitos com dengue picam com maior frequência, triplicando a quantidade de vírus que passam - e é precisamente por isso que a nova descoberta oferece aos investigadores um alvo.
Díez e a sua equipa apontam duas vias para quebrar este mecanismo: incentivar o vírus a replicar-se tão depressa que acabe por matar o mosquito, ou bloquear a sua capacidade de se manter no inseto - qualquer uma das abordagens poderia impedir a propagação da doença.
Por enquanto, trata-se de trabalho de laboratório: células de mosquito, não insetos completos. Ainda não é possível aumentar ou reduzir, à vontade, a carga viral num mosquito. Mesmo assim, a imagem que emerge é nítida.
Estes vírus persistem porque se autocontrolam, e é nessa contenção que pode estar a fraqueza a explorar.
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